Um toque de classicos - Durkheim Marx Weber
145 pág.

Um toque de classicos - Durkheim Marx Weber


DisciplinaSociologia Geral e Juridica343 materiais5.141 seguidores
Pré-visualização50 páginas
das sociedades, ou se esta é o resultado coletivo das transformações 
acumuladas a partir da evolução das forças produtivas e, nesse caso, os homens assumiriam 
meramente o papel de animadores dessas condições sem vida. 
Por outro lado, a utilização de um modelo dicotômico de classes sociais, fundado 
nas relações sociais de produção e nos tipos de apropriação dos meios de produção que lhes 
são correspondentes, é um instrumento de análise que tem se mostrado incapaz de situar o 
amplo espectro de relações sociais que o próprio capitalismo concorrencial já anunciava. 
Algumas dessas desigualdades sociais, como é o caso da que se verifica entre os sexos ou 
etnias, foram ou continuam a ser tratadas como expressões secundárias daquela impressa pela 
estrutura, ou seja: reduziram-se meramente a variáveis explicativas do modelo dicotômico. O 
fato de Marx não ter legado uma teoria acabada das classes sociais justifica, pelo menos em 
parte, a precariedade dessa abordagem. 
Por fim, o enfoque histórico-materialista, constituído em explicação última da 
vida social, enfatiza um tipo de causalidade que não consegue dar conta da complexidade e 
diversidade de certos fenômenos superestruturais como as ideologias, as formas que assumem 
as associações políticas, as religiões, as manifestações culturais e jurídicas que se manifestam 
em estruturas com perfis bastante semelhantes. A conhecida carta de Engels a Bloch já 
expressava um certo temor em relação à disseminação de interpretações deterministas e 
economicistas, mas deu a elas uma resposta ambígua, sugerindo, portanto, a dificuldade de 
uma solução definitiva para a questão no marco traçado pelo materialismo histórico. Weber 
foi o primeiro a apontar, de modo coerente, essa insuficiência. 
Em um certo sentido, podemos dizer que a evolução histórica recente - a queda 
dos regimes socialistas do leste europeu e o conseqüente impacto desse e de outros eventos 
sobre a concepção clássica de \u201csocialismo\u201d - tornou mais crítica a situação do marxismo. Mas 
devemos ressaltar que, como Weber e Durkheim, Marx teve seu pensamento revisitado de 
formas muito ricas e criativas. Fora das perspectivas mais doutrinárias, podemos encontrar 
seu arcabouço teórico informando análises sobre o processo de constituição das identidades 
de classes sociais ou dos mecanismos de luta pelo controle do processo produtivo e das 
relações sociais. O determinismo econômico que imperava no marxismo clássico cede espaço 
a determinações sociais, culturais, políticas, e os atores coletivos surgem com força afastando 
a concepção do predomínio das estruturas. 
A contribuição de Durkheim, embora seja de inegável valor e até hoje permaneça 
como reconhecida referência para aqueles interessados nas questões sociais, deixa também em 
aberto algumas questões polêmicas. A ênfase durkheimiana na coesão social e na 
solidariedade levou o autor a dar um tratamento marginal ao tema do conflito assim como das 
desigualdades sociais. Embora tenha procurado abordar essa problemática desde o ponto de 
vista da desintegração dos laços indivíduo e sociedade - o que pode ser verificado tanto nos 
últimos capítulos da Divisão do trabalho social como em O suicídio - seu enfoque dirigiu-se à 
consideração do enfraquecimento ou da carência de uma moralidade pressuposta, responsável 
pelos vínculos entre os indivíduos, ou de um desvio em relação a uma via adequada. O prisma 
sob o qual o conflito é analisado é o da moral, de modo que a coesão continua a ser o ponto de 
partida, o estado normal. Desde que se criasse uma ética e um direito ajustados aos novos 
tempos, aqueles distúrbios e insatisfações tenderiam a extinguir-se. 
Embora Durkheim considere que não existe associação sem seu substrato: o 
indivíduo - através de quem se expressa a vida social - ao privilegiar a sociedade, seu enfoque 
produz a imagem de ente quase materializado, sobre-humano. O indivíduo é, afinal, o produto 
de um ser que adquiriu vida própria. A dicotomia indivíduo/sociedade, que perpassa toda a 
sua obra, polariza a análise sem incorporar de modo significativo níveis intermediários. 
Mas a contribuição fundamental de Durkheim, no sentido de definir claramente o 
conjunto de problemas propriamente sociológicos, permanece válida, e parte considerável da 
Sociologia contemporânea é tributária do seu conceito de representações coletivas, o qual 
aparece hoje, sob diversas formas, nos estudos sobre o simbólico. 
Weber apóia-se no ponto diametralmente oposto ao de Durkheim ao rejeitar a 
existência de associações ou de instituições que tenham qualquer precedência sobre o 
indivíduo, ou mesmo que possam adquirir vida própria, desvinculada daquilo que lhes dá 
origem: a ação dotada de sentido, empreendida por um sujeito. O autor possibilita, pelas suas 
escolhas metodológicas, algum tipo de desenvolvimento teórico por linhas individualistas. No 
entanto, foi justamente sua preocupação com o ponto de partida individual para a análise de 
fenômenos situados no plano coletivo o que permitiu à Sociologia mais recente criar 
perspectivas mais realistas e rigorosas no entendimento de fenômenos sociais. Sua proposta 
metodológica é parte integrante dos mais recentes avanços da pesquisa sociológica, e os 
conceitos por ele criados são essenciais para a compreensão dos processos sociais modernos. 
A noção de \u201cdominação\u201d abre inúmeras perspectivas de análise, seja no plano dos processos 
de legitimação de certos formatos para as relações sociais, seja no da constituição e 
hierarquização dos grupos sociais dos mais diferentes tipos. A teoria weberiana é o 
instrumento essencial para compreender o Estado contemporâneo, os movimentos sociais e os 
vários tipos de ação coletiva, ou ainda as mais sutis formas de distinção presentes no mundo 
moderno, seja qual for o seu princípio fundador. 
 Mas a grandeza e os limites do pensamento weberiano talvez se encontrem no 
ponto em que se cruzam racionalidade e carisma, indivíduo e história. A crítica aos processos 
burocratizantes e mediocrizantes advindos da crescente racionalização do mundo coaduna-se 
com a resignação frente à derrota eterna do indivíduo pelas instituições e pela roda da 
História. Mas não haveria aqui um certo desequilíbrio entre o peso da dimensão coletiva e a 
responsabilidade excessiva atribuída ao indivíduo carismático enquanto agente de 
transformação? Em outras palavras, em que medida o ponto de partida profundamente 
individualista de seu sistema permitiria reconhecer o papel dos atores coletivos como agentes 
da mudança histórica? 
A Sociologia - tanto como busca de soluções para os impasses nascidos com as 
sociedades modernas quanto em função dos caminhos que a ciência vem abrindo - tem como 
marca de seu destino buscar incessantemente respostas a problemas que se colocam com o 
próprio processo de desenvolvimento social, assim como questionar-se a respeito da validade 
de suas próprias conclusões. 
O intuito dessas observações finais é lembrar que a realidade social, enquanto 
objeto de interpretação, coloca questões novas que acabam por extravasar os instrumentos que 
a ciência elaborou para respondê-las. Teóricos do porte de Marx, Durkheim e Weber estão 
entre aqueles que iniciaram a construção de explicações de amplo alcance para um objeto que 
a cada momento apresenta evoluções surpreendentes. A tendência recente parece ser a de 
integrar criativamente, antes que a de opor, o pensamento dos três clássicos. O que a 
Sociologia contemporânea tem de mais avançado evidencia isto. Não se trata de apagar as 
diferenças, mas de aproveitar mais sistematicamente o trabalho daqueles autores, que 
lançaram bases diferenciadas mas consistentes para explicar o mundo social. 
 
 
CRONOLOGIA