Direito Econômico
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DisciplinaDireito Econômico e da Concorrência7 materiais286 seguidores
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um direito absoluto, ou seja, um direito 
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consubstanciado nos poderes de usar, fruir, dispor da coisa (seriam os famosos 
brocardos latinos jus utendi, jus fruendi e jus abutendi).
A propriedade privada era também um direito absoluto que permitia ao seu 
proprietário reivindicá-la de alguém que indevidamente a possuísse. Portanto, 
esse direito seria oponível a todas as demais pessoas que, de alguma forma, não 
respeitassem o domínio do proprietário.
Além de ser um direito fundamental, a propriedade privada está prevista 
constitucionalmente como princípio da ordem econômica, no inc. II do art. 
170 da CF, que diz: \u201cA ordem econômica, fundada na valorização do trabalho 
humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, 
conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: II \u2013 
propriedade privada.\u201d
O direito à propriedade privada é típico e é essencial às economias capita-
listas, pois a sua ausência implica em insegurança aos agentes econômicos para 
atuarem nos mercados.
Isso acontece porque por meio da propriedade privada, os entes/agentes 
podem deter os meios de produção, o que fortalece a ordem econômica, de 
forma que a segurança desse direito motiva a economia capitalista para que os 
membros da sociedade trabalhem e produzam em busca de ter a garantia da 
sua propriedade.
Esse princípio é tão importante que está previsto na ordem jurídica brasilei-
ra desde a Constituição de 1891, e é assegurado também pelos ordenamentos 
de diversos países, como Alemanha, Argentina, Chile, entre outros.
Nos tempos modernos, ao contrário do que era característico no Libera-
lismo Clássico, o direito de propriedade encontra-se limitado em função do 
princípio da função social da propriedade, também previsto na Constituição 
Federal.
O direito de propriedade não é absoluto, isto por que a função social da 
propriedade também é princípio da ordem econômica, previsto no inc. III do 
art. 170 da CF.
Isto mostra que o princípio da função social da propriedade confirma o 
direito do indivíduo à propriedade privada, mas restringe seu exercício ao su-
jeitar a propriedade ao cumprimento de sua função social, de forma a não 
aceitar o direito de propriedade absoluta e seu exercício pleno, que eram ca-
racterísticas marcantes do liberalismo e que estavam fixadas nas Constituições 
de 1824 e 1891.
Essa mudança passou a ser observada a partir da CF de 1946, quando a 
propriedade deixou de ser tratada exclusivamente na esfera do direito privado, 
de forma que a sua finalidade social passou a ser superior em relação às demais 
funções desempenhadas.
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A própria axiologia constitucional remodelou os conceitos do direito de 
propriedade, originando um direito de propriedades. Isso significa também que 
a medida em que se passa a compreender esse instituto como um direito adap-
tado, justamente em razão da função social a que se destina a propriedade, não 
é possível igualar toda e qualquer propriedade.
Por outro lado, apesar de restringir o exercício do direito de propriedade, a 
função social serve também como garantia, porque todos exercem o seu direito 
de propriedade, dentro dos ditames da função social, e podem ter o direito de 
propriedade assegurado.
Hoje a propriedade não pode mais ser entendida como ocorria no século 
XVIII e mesmo no XIX. Isto por que, naquela época, houve o apogeu da cha-
mada ideologia individualista, que supervalorizou o direito de propriedade.
Muitas vezes a propriedade era utilizada de forma a satisfazer meramente 
os caprichos do proprietário, sem gerar nenhuma contribuição para o bem-
-estar da coletividade.
A propriedade privada não é mais garantida pelo Texto Constitucional com 
base na ideologia individualista, mas em sua função social.
Tanto o direito à propriedade, como o princípio da função social não se 
aplicam exclusivamente à propriedade de bens, sejam esses bens móveis ou 
imóveis.
O direito à propriedade aplica-se igualmente à propriedade industrial, tais 
como as marcas e patentes.
A propriedade industrial tem como finalidade a proteção de invenções, mo-
delos de utilidade, desenhos industriais, marcas e indicações geográficas.
A lei de propriedade industrial trata de bens imateriais aplicáveis na indús-
tria, ou seja, de bens que possam ser convertidos em materiais industrializáveis.
Tem função essencial para o desenvolvimento tecnológico do país. É re-
conhecidamente um direito protegido pela Constituição de 1988, já que está 
sujeita aos limites constitucionais impostos a toda e qualquer propriedade pri-
vada, conforme se verifica da leitura da Constituição Federal em seu art. 5º, 
XXIX, que diz: \u201cA lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio 
temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à 
propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, 
tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico 
do País.\u201d
A propriedade industrial deve observar também ao princípio da função so-
cial da propriedade e, ainda, por ela estar relacionada à atividade econômica, 
também deve observar o princípio constitucional que determina que a ordem 
econômica funda-se na valorização do trabalho e da livre iniciativa, conforme 
os ditames da justiça social.
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No que tange ao direito de propriedade, especialmente a propriedade in-
dustrial, e ao seu exercício de acordo com o princípio da função social, há um 
mecanismo que ilustra bem a interligação entre esses dois elementos: são as 
chamadas licenças compulsórias.
As licenças compulsórias, de modo amplo e genérico, aplicam-se aos casos 
em que as patentes são licenciadas para uso de terceiros interessados, por não 
cumprirem com a sua função social, por exemplo, devido a não utilização ou 
utilização apenas como medida defensiva de seu titular.
Desse modo, a legislação infraconstitucional permite a concessão da licen-
ça compulsória quando o privilégio deixa de favorecer o interesse da coletivida-
de e o desenvolvimento do país, violando os objetivos expressamente previstos 
na Constituição.
O mesmo pode ser dito sobre o exercício da função social da propriedade 
no que se refere ao respeito às normas ambientais, ou sobre o respeito às nor-
mas de vizinhança, entre outras regras que estão previstas nas leis civis.
Outro ponto comumente questionado em concurso, é que as políticas de 
reforma urbana e agrária, e de concretização constitucional, também devem 
ser contempladas pelo princípio da função social da propriedade.
Hoje em dia a dificuldade do acesso à terra tem sido fator relevante gerador 
de desigualdades sociais. Nas cidades, por exemplo, os altos preços do solo ur-
banizado determinam a segregação populacional por extratos de renda.
Muitas vezes os mais pobres são os que arcam com os custos mais elevados 
de transporte e de acesso a bens e serviços urbanos, pois são obrigados a buscar 
alojamento em áreas distantes e precariamente providas, ou até mesmo despro-
vidas de serviços públicos.
Portanto, todos esses elementos de fundo são importantes para compreen-
der o fato de a doutrina e o texto constitucional caracterizarem o cumprimento 
da função social da propriedade como pressuposto para a tutela do direito de 
propriedade.
Ao tratar do princípio da função social da propriedade, não especifica qual 
o tipo de propriedade que deve ser compreendido; entende-se que a chamada 
propriedade pública também tem uma função social.
A propriedade pública se dirige, ou deveria se dirigir, ao atendimento dos inte-
resses de todas as pessoas, e é por isso mesmo que fazer referência à função social 
da propriedade pública costuma parecer dispensável, ou uma repetição inútil.