Serra - BreveTratado
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DisciplinaHistória do Pensamento Econômico I106 materiais553 seguidores
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de importar produtos, portanto, que
convém atribuir a causa da escassez da moeda, e não à alta taxa
de câmbio. E se se quiser insistir ainda que tal mercador voltará
a trocar esse dinheiro por letras de câmbio em outras praças,
de onde volta também na forma de letras de câmbio, isso pode-
se dar por algum tempo, mas depois, como já foi dito, é
necessário que o dinheiro volte de onde saiu e com ágio, pois,
querer que circule ininterruptamente me parece ridículo e,
como foi dito, seria admitir uma progressão ao infinito. Ainda
mais que uma tal quantidade de cinco ou seis milhões por ano,
e não de um só ano ou dois, mas de dez ou quinze, seria,
atualmente, de vinte ou vinte e dois milhões, e, se continuar
assim, chegariam a vaguear sem paradeiro cinqüenta ou cem
milhões, sem que os verdadeiros donos, algum dia, queiram
possuir ou pelo menos ver esse dinheiro.
E ainda, se isso fosse verdade, seguiria que os habitantes
do Reino, atualmente, deveriam receber dos estrangeiros,
apenas relativamente a estes vinte anos, cem milhões, já que
teriam sido enviados cada ano, em letras de câmbio, pelo menos
cinco milhões em troca dos produtos que se exportam, quer os
mercadores que pagaram aqui as letras sejam do Reino, quer
sejam de fora, pois, afinal, o dinheiro de tais produtos pertence
aos habitantes do Reino, de acordo com o cálculo que faz De
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SEGUNDA PARTE
Santis. E, no entanto, sabe-se quantas inúmeras vezes e de
quantas maneiras, diante da extrema escassez de dinheiro, quer
quem governa, quer bancos e mercadores, estrangeiros e locais,
têm procurado mandar vir dinheiro para o Reino, não digo
na quantidade acima referida ou na décima parte, mas nem
na centésima, tendo sido preciso afinal tomar esse dinheiro ao
câmbio para conseguir que viesse uma mínima quantidade. Se
fosse verdade o que se tem suposto, o dinheiro, diante de tal
necessidade, teria chovido a cântaros.
E esta ciranda, que não acabaria nunca, é desmentida
também pela outra razão que ele alega, a de que, por causa da
alta taxa de câmbio, pelo ganho que ele diz se obter com isso,
dinheiro vivo sai do Reino, quer em troca das mercadorias que
se importam, quer em troca de letras de câmbio, para que,
desta forma, aumente, em menos de um mês, mais de dez por
cento. Se esta razão fosse verdadeira, aquele que pagou pelas
letras de câmbio deveria querer o seu dinheiro em moedas
correntes para obter, de fato, tal ganho. E não me venham
dizer que endossará tais letras a outros contra a praça de
Nápoles, com o que teria o dinheiro em moedas sem ainda tê-
lo com o ágio do câmbio, pensando em se refazer, depois, do
prejuízo: porque, quanto a reaver o dinheiro das letras de
câmbio, sem que tenha sido trazido, se opõe a mesma razão
que apresentamos antes e, em relação ao ressarcimento do
prejuízo, é loucura trocar o certo pelo incerto, devendo-se
contrapor ao ganho incerto do câmbio o prejuízo certo da
transferência do dinheiro. Tampouco obterá algum ganho ao
efetuar o câmbio em outra praça para, depois, voltar a efetuá-
lo em Nápoles, como o obteria se ele exportasse moeda, caso
fosse verdadeira a razão que ele aponta. Por essa mesma razão,
torna-se claro que não é verdadeira a outra ilação de que a alta
taxa de câmbio faz com que o dinheiro saia em moedas para
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ANTONIO SERRA
voltar em letras de câmbio e assim aumente, em menos de um
mês, dez por cento, pois, como já foi dito, as letras de câmbio,
antes ou depois, devem ser pagas em moedas, que, então, é
preciso que tenham entrado antes. A saída de moedas
ocasionada pela alta taxa de câmbio pressupõe, portanto, que
moedas já entraram ou devam ainda entrar no Reino.
Quanto à outra conclusão, de que a alta taxa de câmbio
causa a saída de dinheiro em moedas e não em letras de câmbio,
em troca das mercadorias que o Reino importa, falaremos em
seguida. Por enquanto, pelas razões alegadas, pode-se concluir
não ser verdadeira a sua tese segundo a qual a alta taxa de
câmbio é a causa da escassez de moeda no Reino, ainda que
seja verdadeira a outra conclusão, de que, em vista do ganho
decorrente da alta taxa de câmbio, os compradores dos produtos
exportados enviam ao Reino letras de câmbio e não moedas,
que, no entanto, se deve pressupor terem sido enviadas antes,
ou deverem ser enviadas depois. E muito embora sobre tal
assunto pudesse ser aduzido um número maior de réplicas e
respostas, achamos ser mais do que suficiente o que se tem dito,
e foi dito tanto porque um erro passava por límpida verdade e,
para livrar o intelecto desta forte sugestão, considerou-se
necessário apresentar mais de um argumento.
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SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO II
AINDA QUE SEJA VERDADEIRA A EXPERIÊNCIA QUE ELE ADUZ
COMO PROVA, SE É TAMBÉM VERDADEIRA A CONCLUSÃO
 DE QUE A BAIXA TAXA DE CÂMBIO CAUSA
 A ABUNDÂNCIA DE DINHEIRO E A ALTA, SUA ESCASSEZ
O segundo fundamento da referida conclusão de De
Santis é a experiência que ele relata de que quinze, vinte ou
trinta anos atrás, quando a taxa de câmbio era baixa, no Reino
havia muita moeda, local e estrangeira, e de dez ou quinze
anos para cá, em que a taxa é alta, há pouquíssima. Assim, ele
conclui, dessa experiência deduz-se que a baixa taxa de câmbio
é a causa da abundância de moeda no Reino e a alta, da escassez;
e não há como refutar isso, sendo a experiência mestra das
coisas, diante da qual qualquer argumento sucumbe, por mais
forte que seja. E, no entanto, ainda que a experiência seja
verdadeira, a dedução é falsa. No capítulo seguinte refutar-se-
á também a verdade dessa experiência, mas, agora, deveremos
ver, como prometemos, se, sendo ela verdadeira, segue a
conclusão que ele tira, de que a baixa taxa de câmbio causa
abundância de dinheiro e a alta, escassez, conclusão que
negamos. E como prova de que é falsa, afirmamos que de
maneira alguma se pode ver um nexo necessário no fato de,
num determinado período de tempo, com a taxa de câmbio
baixa, o Reino ter abundância de dinheiro, atribuindo, assim,
tal abundância à baixa taxa de câmbio, e, da mesma forma, se
num determinado período de tempo, com a taxa de câmbio
alta, o Reino tem escassez de dinheiro, atribuir tal escassez à
alta taxa de câmbio. Para aceitar tal inferência, seria necessário
provar antes que o câmbio, conforme for sua taxa, alta ou baixa,
é a única causa da abundância ou da escassez de moeda, e que
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ANTONIO SERRA
não existe outra, uma vez que, se houvesse, o efeito poderia
decorrer desta última e não do câmbio. E, realmente, podemos
ver que o que de fato ocorre é o contrário do que afirma De
Santis, ou seja, quando a taxa é baixa, não há abundância, e,
quando é alta, não há escassez, não sendo, portanto, a baixa
taxa de câmbio causa de abundância e a alta, de escassez. Ele,
com efeito, não só não tem conseguido provar que não há,
com exceção do câmbio, outra causa para a abundância ou a
escassez, mas nem sequer que o câmbio seja uma das causas, o
que, porém, não seria suficiente, visto que na primeira parte
desta obra ficou plenamente elucidado que a causa da
abundância ou escassez de moeda num reino é outra e que, de
maneira alguma, o câmbio deve ser incluído entre as causas,
mas tido apenas como condição, e não das mais fortes.
O próprio De Santis admite isso quando atribui a causa
da entrada do dinheiro no Reino à exportação de produtos e
assinala a alta taxa de câmbio como impedimento de que chegue
em moedas, e a baixa como causa oposta, coisa que também
vimos, no capítulo anterior, não ser verdade. Além do quê,
não se faz menção dos obstáculos, a não ser quando são tão
poderosos que, necessariamente, causam ou impedem o efeito.
Mas se, como eu disse, está provado que não é a alta taxa de
câmbio que impede que entre dinheiro vivo no Reino em troca
dos produtos exportados, segue que, da mesma forma, não é
necessário que a taxa seja baixa para que entre, devendo-se
concluir, portanto, que a experiência observada, ainda