Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
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Crítica da Filosofia do Direito de Hegel


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ao decidir o singular, ao querer realmente, é soberano; o que signi-
ficaria: a individualidade da vontade do Estado é \u201cum indivíduo\u201d, um indivíduo 
particular distinto de todos os outros? Também a universalidade, a legislação, 
tem uma \u201cconfiguração separada, real para si\u201d. Disso poderíamos concluir: 
\u201cEstes indivíduos particulares são a legislação\u201d.
O homem comum:
2) o monarca tem o poder soberano, 
a soberania.
3) a soberania faz o que quer.
Hegel:
2) a soberania do estado é o monarca.
3) a soberania é a \u201cautodeterminação 
abstrata, porque sem fundamento, da 
vontade, autodeterminação esta na 
qual reside a decisão última\u201d.
Hegel transforma todos os atributos do monarca constitucional na europa 
atual em autodeterminações absolutas da vontade. ele não diz: a vontade do 
monarca é a decisão última, mas a decisão última da vontade é... o monar-
ca. a primeira frase é empírica. a segunda distorce o fato empírico em um 
axioma metafísico.
Hegel confunde os dois sujeitos: a soberania \u201ccomo a sua subjetividade 
autoconsciente\u201d e a soberania \u201ccomo a autodeterminação sem fundamento 
Karl Marx
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da vontade\u201d, como vontade individual, para, a partir daí, construir a \u201cIdeia\u201d 
como \u201cUm indivíduo\u201d.
Compreende-se que a subjetividade autoconsciente deve querer também 
realmente, deve querer como unidade, como indivíduo. Mas quem pôde 
jamais duvidar que o Estado age por intermédio dos indivíduos? Se Hegel 
quisesse desenvolver: o estado deve ter um indivíduo como representante 
de sua unidade individual, ele não deduziria o monarca. Como resultado 
positivo desse parágrafo retemos apenas o que segue:
o monarca é, no estado, o momento da vontade individual, da autodeter-
minação sem fundamento, do arbítrio.
a nota de Hegel a esse parágrafo é tão curiosa, que devemos elucidá-la 
mais de perto.
o desenvolvimento imanente de uma ciência, a dedução de todo seu conteúdo a 
partir do simples Conceito, mostra a peculiaridade de que um único e mesmo 
conceito \u2013 aqui a vontade \u2013, que, inicialmente, porque é o começo, é abstrato, se 
conserva, mas condensa suas determinações igualmente apenas por si mesmo 
e, desse modo, ganha um conteúdo concreto. esse é o momento fundamen-
tal da personalidade primeiramente abstrata no direito imediato, momento 
que se aperfeiçoou mediante suas diferentes formas de subjetividade e que 
aqui, no direito absoluto, no estado, na objetividade da vontade plenamente 
concreta, é a personalidade do Estado, sua certeza de si mesmo \u2013 esta última, que 
suprassume todas as particularidades em seu si-mesmo simples, interrompe 
a ponderação dos argumentos e contra-argumentos entre os quais se deixa 
oscilar para cá e para lá, resolvendo-os por meio do: Eu quero e dando início 
a toda ação e realidade.
Primeiramente, não é à \u201cpeculiaridade da ciência\u201d que o conceito funda-
mental da coisa sempre retorna.
tampouco houve, em seguida, qualquer progresso. a personalidade abstrata era 
o sujeito do direito abstrato; ela não mudou; ela é novamente, como personalidade 
abstrata, a personalidade do Estado. Hegel não deveria surpreender-se com o fato 
de que a pessoa real \u2013 e as pessoas fazem o estado \u2013 reapareça em toda parte 
como a essência do estado. ele deveria, antes, e ainda mais, surpreender-se 
com o contrário, com o fato de que a pessoa, como pessoa do estado, reapareça 
sob uma abstração tão pobre como a pessoa do direito privado.
Hegel, aqui, define o monarca como \u201ca personalidade do Estado, sua 
certeza de si mesmo\u201d. O monarca é a \u201csoberania personificada\u201d, a \u201csobe-
rania feita homem\u201d, a consciência corpórea do Estado, por meio da qual, 
portanto, todos os outros estão excluídos dessa soberania, da personalidade 
e da consciência do estado. Mas, ao mesmo tempo, Hegel não sabe dar a 
esta \u201cSouveraineté Personne\u201d11 nenhum outro conteúdo senão o \u201cEu quero\u201d, 
11 \u201csoberania personificada\u201d. (N.E.A.)
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o momento do arbítrio na vontade. A \u201crazão de Estado\u201d e a \u201cconsciência de 
Estado\u201d são uma \u201cúnica\u201d pessoa empírica, a exclusão de todas as outras, 
mas esta razão personificada não tem nenhum conteúdo além da abstração 
do \u201cEu quero\u201d. L\u2019état c\u2019est moi12.
Mas, além disso, a personalidade e a subjetividade em geral, como relação 
infinita consigo mesma, tem pura e simplesmente verdade, e precisamente sua 
verdade imediata mais próxima, apenas como pessoa, sujeito que é para si 
mesmo, e o que é para si mesmo é igualmente pura e simplesmente Uno.
É evidente que, na medida em que a personalidade e a subjetividade são 
somente predicados da pessoa e do sujeito, elas existem, portanto, apenas 
como pessoa e sujeito, e, de fato, a pessoa é Una. Mas Hegel deveria acrescen-
tar: o Uno tem verdade somente como muitos Unos. o predicado, a essência, 
jamais esgota as esferas da sua existência em um Uno, mas em muitos Unos.
ao invés disso, Hegel conclui:
a personalidade do estado é real somente como uma pessoa, o monarca.
assim, porque a subjetividade é real apenas como sujeito, e o sujeito ape-
nas como Uno, a personalidade do Estado só é real como uma pessoa. Bela 
conclusão. Hegel poderia concluir, do mesmo modo: pelo fato de o homem 
singular ser um Uno, o gênero humano é apenas Um único homem.
a personalidade exprime o Conceito como tal, a pessoa contém simultanea-
mente a realidade deste último, e o Conceito só é Ideia, verdade, com essa 
determinação.
a personalidade, sem a pessoa, é certamente apenas uma abstração; mas 
a pessoa só é a ideia real da personalidade em sua existência genérica, como 
as pessoas.
o que se denomina uma pessoa moral, sociedade, comunidade, família, por 
mais concreta que ela seja em si mesma, tem a personalidade apenas como 
momento, nela abstrato; ela não chegou, aí, à verdade de sua existência, mas 
o estado é precisamente essa totalidade, na qual os momentos do Conceito 
alcançam a realidade segundo a sua verdade peculiar.
Nesta frase reina uma grande confusão. a pessoa moral, a sociedade etc. 
é dita abstrata, logo precisamente as formações genéricas nas quais a pessoa 
real traz seu conteúdo real à existência, se objetiva e abandona a abstração 
da \u201cpessoa quand même\u201d13. em vez de reconhecer essa realização da pessoa 
como o que há de mais concreto, o estado deve ter o privilégio de que nele \u201co 
momento do Conceito\u201d, a \u201csingularidade\u201d, alcance uma \u201cexistência\u201d mística. O 
12 \u201cO Estado sou eu\u201d. (N.E.A.)
13 \u201ccomo ela mesma\u201d. (N.E.A.)
Karl Marx
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racional não consiste em que a realidade seja alcançada pela razão da pessoa 
real, mas sim pelos momentos do Conceito abstrato.
o conceito do monarca é, por isso, o mais difícil para o raciocínio, ou seja, para 
a reflexão do entendimento, porque o raciocínio permanece nas determinações 
isoladas e, assim, só conhece razões, pontos de vista limitados e o deduzir das 
razões. desse modo, ele representa a dignidade do monarca como algo deduzido, 
não somente segundo a forma, mas segundo sua determinação; ao contrário, 
seu conceito não é o de ser algo deduzido, mas o de ter início simplesmente por 
si mesmo. Mais próxima da verdade (sem dúvida!) é, por isso, a representação 
que concebe o direito do monarca como fundado na autoridade divina, pois 
aí se encontra seu elemento incondicional.
\u201cTer início simplesmente por si mesmo\u201d vale, em certo sentido, para toda 
existência; sob esse ponto de vista, tanto para o piolho do monarca quanto 
para o monarca. Com isso, Hegel não disse nada de especial sobre o monarca. 
Mas é uma real insanidade querer dizer sobre o monarca algo especificamente 
diferente de todos os outros objetos da ciência e da filosofia do direito; isto 
só é correto, sem dúvida, enquanto a \u201cIdeia-de-uma-única-pessoa\u201d é algo que 
deva deduzir-se somente da imaginação, e não do entendimento.
a soberania pode ser dita popular no sentido de que um povo em geral seja 
autônomo