Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
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Crítica da Filosofia do Direito de Hegel


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modo que aquilo que 
se encontra mais próximo é desenvolvido como um momento real da ideia. 
(retomaremos posteriormente esta conversão necessária do empírico em 
especulativo e do especulativo em empírico.)
desta maneira, portanto, produz-se também a impressão de algo místico e 
profundo. É muito banal que o homem tenha que nascer e que esta existência, 
posta pelo nascimento físico, eleve-se ao homem social etc., até ao cidadão do 
Estado; o homem se torna, pelo nascimento, tudo o que ele se torna. Mas é 
muito profundo, é chocante que a ideia do estado nasça imediatamente e que, 
no nascimento do príncipe, ela mesma se engendre como existência empírica. 
Deste modo não se ganha nenhum conteúdo, mas apenas se modifica a forma 
do conteúdo velho. ele recebeu uma forma filosófica, um atestado filosófico.
Uma outra consequência dessa especulação mística é que uma existên-
cia empírica particular, uma única existência empírica, é concebida como a 
existência da Ideia em contraste com as demais. Produz, em seguida, uma 
impressão profunda, mística, ver uma existência particular posta pela ideia 
e encontrar em todos os níveis um deus feito homem.
se, por exemplo, no desenvolvimento da família, da sociedade civil, do 
estado etc., estes modos sociais de existência do homem fossem considerados 
como realização e objetivação de seu ser, então família etc. apareceriam como 
qualidades inerentes a um sujeito. o homem permanece sempre como o ser 
de todos estes seres; estes, no entanto, aparecem também como sua universa-
lidade real e, assim, como o comum. se, em contrapartida, família, sociedade 
civil, estado etc. são determinações da ideia, a substância como sujeito, elas 
devem, então, assumir uma realidade empírica, sendo cidadã a massa dos 
homens na qual se desenvolve a ideia da sociedade civil e, a outra, cidadã do 
estado. Como se trata, no fundo, apenas de uma alegoria, de atribuir a uma 
existência empírica qualquer o significado da ideia realizada, então é evidente 
que estes receptáculos completaram sua determinação tão logo se tornaram 
uma incorporação determinada de um momento da vida da ideia. assim, o 
universal aparece por toda parte como algo de particular, de determinado, 
enquanto o singular não atinge em lugar algum sua verdadeira universalidade.
isto aparece como necessário, portanto, do modo mais profundo e 
especulativo, quando as determinações mais abstratas \u2013 que não são de-
senvolvidas em nenhuma verdadeira realização social, as bases naturais 
do estado, como o nascimento (no príncipe) ou a propriedade privada (no 
morgadio (Majorat)) \u2013 aparecem como as ideias mais elevadas, imediatamente 
feitas homem.
e é evidente. o verdadeiro caminho a ser percorrido está invertido. o 
mais simples é o mais complexo e o mais complexo o mais simples. o que 
Karl Marx
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deveria ser ponto de partida se torna resultado místico e o que deveria ser 
resultado racional se torna ponto de partida místico.
Mas se o príncipe é a pessoa abstrata, que tem o Estado em si, isto significa 
tão somente que a essência do estado é a pessoa abstrata, a pessoa privada. Só 
no seu ápice ele exprime seu segredo. o príncipe é a única pessoa privada na 
qual se realiza a relação da pessoa privada em geral com o estado.
a hereditariedade do príncipe resulta de seu conceito. ele deve ser a pessoa 
especificamente distinta de todo o gênero, de todas as outras pessoas. Qual é, 
então, a diferença última, precisa, de uma pessoa em relação a todas as outras? 
o corpo. a mais alta função do corpo é a atividade sexual. o ato constitucional 
mais elevado do rei é, portanto, sua atividade sexual, pois por meio dela ele 
faz um rei e dá continuidade a seu corpo. O corpo de seu filho é a reprodução 
de seu próprio corpo, a criação de um corpo real.
b) O poder governamental
§ 287. diferentes da decisão são a execução e a aplicação das decisões do 
soberano e, em geral, o prosseguimento e a manutenção do que foi decidido 
anteriormente, das leis, das disposições, das instituições existentes para fins co-
muns etc. esta função de subsunção em geral compreende o poder governamental 
em si, no qual estão, do mesmo modo, compreendidos os poderes judiciário e 
policial, que têm mais diretamente relação com a particularidade da sociedade 
civil e fazem valer nestes fins o interesse universal.
a explicação ordinária do poder governamental. o que se pode indicar 
como peculiar a Hegel é, apenas, que ele coordena poder governamental, poder 
policial e poder judiciário, enquanto geralmente os poderes administrativo e 
judiciário são tratados como poderes opostos.
§ 288. os interesses particulares em comum que recaem na sociedade civil e 
que se encontram fora do universal em si e para si do Estado (§ 256) têm a 
sua administração nas corporações (§ 251) das comunas e demais ofícios e 
estamentos, em suas autoridades, diretores, administradores e semelhantes. 
Na medida em que estas questões, das quais eles se ocupam, são, por um lado, 
a propriedade privada e o interesse dessas esferas particulares e que, segundo este 
lado, sua autoridade repousa na confiança de seus colegas de estamento e 
concidadãos e que, por outro lado, esses círculos têm de ser subordinados aos 
mais altos interesses do estado, a ocupação destes cargos resultará, em geral, 
de uma mistura de eleição pública desses interessados e de uma confirmação 
e determinação superiores.
simples descrição da situação empírica em alguns países.
§ 289. a manutenção do interesse universal do estado e da legalidade nestes direi-
tos particulares e a recondução destes àquele exige uma gestão da parte dos 
delegados do poder governamental, dos funcionários estatais executivos e das 
superiores autoridades consultivas enquanto colegialmente constituídas, que 
convergem para as instâncias supremas que tocam o monarca.
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Hegel não desenvolveu o poder governamental. Mas mesmo supondo-se que 
o tenha feito, ele não demonstrou que esse poder é mais do que uma função, 
uma determinação do cidadão do Estado em geral; considerando-o como um 
poder particular, separado, ele deduziu apenas que ele considera os \u201cinteresses 
particulares da sociedade civil\u201d como interesses \u201cque se encontram fora do 
universal em si e para si do Estado\u201d.
Como a sociedade civil é o campo de batalha do interesse privado indivi-
dual de todos contra todos, então tem lugar, aqui, o conflito desse interesse 
com as questões comuns particulares e o conflito destas, juntamente com 
aquele, contra os mais elevados pontos de vista e disposições do estado. o 
espírito corporativo, que se produz na legitimação das esferas particulares, 
converte-se em si mesmo, simultaneamente, no espírito do estado, visto 
que ele tem, no Estado, o meio de conservação dos fins particulares. Este é o 
segredo do patriotismo dos cidadãos no sentido de que eles sabem o estado 
como sua substância, porque ele conserva as suas esferas particulares, a sua 
legitimidade e a sua autoridade, assim como o seu bem-estar. No espírito 
corporativo, na medida em que ele contém imediatamente o enraizamento do 
particular no universal, encontra-se, portanto, a profundidade e a força que o 
estado tem na disposição.
isso é estranho
1) pela definição da sociedade civil como bellum omnium contra omnes19;
2) porque o egoísmo privado é revelado como o \u201csegredo do patriotismo dos 
cidadãos\u201d e como \u201ca profundidade e a força do Estado na disposição\u201d;
3) porque o \u201ccidadão\u201d, o homem do interesse particular em oposição ao 
universal, o membro da sociedade civil, é considerado como \u201cindivíduo fixo\u201d, 
do mesmo modo que o Estado se opõe, em \u201cindivíduos fixos\u201d, aos \u201ccidadãos\u201d.
Hegel, pode-se dizer, teria de conceber a \u201csociedade civil\u201d, assim como 
a \u201cfamília\u201d, como determinação de cada indivíduo do Estado, do mesmo 
modo, portanto, as ulteriores \u201cqualidades estatais\u201d