Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
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Crítica da Filosofia do Direito de Hegel


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político-estamental não 
é, precisamente, outra coisa senão a expressão fática da relação real de estado 
e sociedade civil, a sua separação.
Hegel não chamou a coisa de que aqui se trata por seu nome conhecido. É a 
controvérsia entre constituição representativa e constituição estamental. a consti-
tuição representativa é um enorme progresso, pois ela é a expressão aberta, não 
falseada, consequente, da condição política moderna. ela é a contradição declarada.
antes de adentrarmos na coisa mesma, lancemos ainda um olhar na 
exposição hegeliana.
No elemento estamental do poder legislativo, o estamento privado alcança um 
significado político.
anteriormente (§ 301, nota), dizia-se:
a determinação conceitual peculiar aos estamentos deve, por isso, ser 
procura da no seguinte fato: neles, vem à existência, em relação ao Estado ... o 
discernimento próprio e a vontade própria da esfera que, nessa exposição, foi 
denominada sociedade civil.
resumindo o que vem a seguir, tem-se: \u201cA sociedade civil é o estamento 
privado\u201d, ou o estamento privado é o estamento imediato, essencial e concreto 
da sociedade civil. somente no elemento estamental do poder legislativo ela 
adquire \u201csignificado e eficácia políticos\u201d; isso constitui algo novo, que se lhe 
acrescenta, uma função particular, pois precisamente seu caráter de estamento 
privado exprime a sua oposição ao significado e à eficácia políticos, a privação 
do caráter político, isto é, que a sociedade civil em si e para si é sem significado 
e eficácia políticos. O estamento privado é o estamento da sociedade civil, ou 
a sociedade civil é o estamento privado. Por isso, Hegel exclui coerentemente 
o \u201cestamento universal\u201d do \u201celemento estamental do poder legislativo\u201d.
Karl Marx
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o estamento universal, que se dedica mais de perto ao serviço do governo, tem 
imediatamente, em sua determinação, o universal como fim de sua atividade 
essencial.
a sociedade civil ou o estamento privado não tem isso como sua deter-
minação; sua atividade essencial não tem a determinação de ter como fim 
o universal, ou seja, sua atividade essencial não é uma determinação do 
universal, não é determinação universal. o estamento privado é o estamento 
da sociedade civil contra o estado. o estamento da sociedade civil não é um 
estamento político.
Como Hegel qualificou a sociedade civil como estamento privado, ele 
caracterizou as distinções dos estamentos da sociedade civil como distinções 
não políticas, e a vida burguesa e a vida política como heterogêneas e, até 
mesmo, opostas. Como ele prossegue daí em diante?
ora, este não pode aparecer, aqui, nem como simples massa indiferenciada, 
nem como uma multidão dissolvida nos seus átomos, mas, antes, como 
aquilo que ele já é, a saber, diferenciado no estamento que se funda na relação 
substancial e no estamento que se funda nas necessidades particulares e no 
trabalho que as mediatiza (§ 201 ss.). somente desse modo, levando-se isso em 
consideração, o elemento particular, real no estado, liga-se verdadeiramente 
ao universal. [§ 303]
Como uma \u201csimples massa indiferenciada\u201d, a sociedade civil (o estamento 
privado) não pode, certamente, aparecer em sua atividade legislativo-estamen-
tal, pois a \u201csimples massa indiferenciada\u201d existe apenas na \u201crepresentação\u201d, 
na \u201cfantasia\u201d, não na realidade. Há, aqui, somente maiores ou menores mas-
sas acidentais (cidades, vilarejos etc.). essas massas, ou melhor, essa massa, 
não só aparece, como é realmente, por toda parte, \u201cuma multidão dissolvida 
nos seus átomos\u201d e, enquanto atomística, ela deve aparecer e produzir-se em 
sua atividade político-estamental. o estamento privado, a sociedade civil, não 
pode, aqui, aparecer \u201ccomo aquilo que ele já é\u201d. Pois o que ele já é? É estamen-
to privado, isto é, oposição e separação em relação ao estado. Para alcançar 
\u201csignificado e eficácia políticos\u201d, ele deve, antes, renunciar àquilo que ele é 
já como estamento privado. Somente com isso ele adquire seu \u201csignificado e 
eficácia políticos\u201d. Esse ato político é uma completa transubstanciação. Nele, 
a sociedade civil deve separar-se de si completamente como sociedade civil, 
como estamento privado, e deve fazer valer uma parte de seu ser, aquela que 
não somente não tem nada em comum com a existência social real de seu ser, 
como, antes, a ele se opõe diretamente.
o que é a lei geral se mostra, aqui, no indivíduo. sociedade civil e estado 
estão separados. Portanto, também o cidadão do estado está separado do 
simples cidadão, isto é, do membro da sociedade civil. o cidadão deve, pois, 
realizar uma ruptura essencial consigo mesmo. Como cidadão real, ele se en-
contra em uma dupla organização, a burocrática \u2013 que é uma determinação 
externa, formal, do estado transcendente, do poder governamental, que não 
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tangen cia o cidadão e a sua realidade independente \u2013 e a social, a organi-
zação da sociedade civil. Nesta última, porém, o cidadão se encontra, como 
homem privado, fora do Estado; ela não tangencia o Estado político como tal. 
a primeira é uma organização estatal, para a qual ele sempre dá a matéria. a 
segunda é uma organização social, cuja matéria não é o estado. Na primeira, o 
Estado se comporta como oposição formal ao cidadão; na segunda, o cidadão 
se comporta como oposição material ao estado. Portanto, para se comportar 
como cidadão real do Estado, para obter significado e eficácia políticos, ele 
deve abandonar sua realidade social, abstrair-se dela, refugiar-se de toda 
essa organização em sua individualidade; pois a única existência que ele 
encontra para sua qualidade de cidadão do estado é sua individualidade nua 
e crua, já que a existência do estado como governo está completa sem ele e 
que a existência dele na sociedade civil está completa sem o estado. apenas 
em contradição com essas únicas comunidades existentes, apenas como indiví-
duo, ele pode ser cidadão do Estado. sua existência como cidadão do estado é 
uma existência que se encontra fora de suas existências comunitárias, sendo, 
portanto, puramente indivi dual. O \u201cpoder legislativo\u201d, como \u201cpoder\u201d, é, 
de fato, apenas a organização, o corpo comum que ela deve adquirir. Antes do 
\u201cpoder legislativo\u201d, a sociedade civil, o estamento privado, não existe como 
organização estatal, e a fim de que ele, em tal condição, chegue à existência, sua 
organização real, sua vida social real deve ser posta como não existente, pois o 
elemento estamental do poder legislativo tem precisamente a determinação 
de pôr como não existente o estamento privado, a sociedade civil. a separação 
da sociedade civil e do estado político aparece necessariamente como uma 
separação entre o cidadão político, o cidadão do estado, e a sociedade civil, a 
sua própria realidade empírica, efetiva, pois, como idealista do Estado, ele é 
um ser totalmente diferente de sua realidade, um ser distinto, diverso, oposto. 
a sociedade civil realiza, aqui, dentro de si mesma, a relação entre estado e 
sociedade civil, que, por outro lado, existe já como burocracia. No elemento 
estamental, o universal se torna realmente para si o que ele é em si, a saber, 
o oposto do particular. o cidadão deve abandonar seu estamento, a sociedade 
civil, o estamento privado, para alcançar significado e eficácia políticos, pois 
precisamente este estamento se encontra entre o indivíduo e o Estado político.
se Hegel já opõe o conjunto da sociedade civil, como estamento privado, ao 
estado político, então é evidente que as distinções no interior do estamento 
privado, os diferentes estamentos da sociedade civil, têm apenas um significado 
privado, nenhum significado político em relação ao Estado. Pois os diferentes 
estamentos da sociedade civil são simplesmente a realização, a existência do 
princípio, do estamento privado como princípio da sociedade civil. Mas se o 
princípio deve ser abandonado,