Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
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Crítica da Filosofia do Direito de Hegel


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governamental o é do lado do príncipe. a mediação parece, portanto, estar 
completamente constituída. os dois extremos abdicaram de sua rigidez, 
enviaram um ao outro o fogo de seu ser particular e o poder legislativo, cujos 
elementos são precisa mente tanto o poder governamental quanto os estamen-
tos, parece não somente ter de permitir que a mediação venha à existência, 
mas que ele mesmo já seja a mediação que veio à existência. Hegel também já 
qualificou o elemento estamental, em comum com o poder governamental, como o 
termo médio entre povo e príncipe (assim como o elemento estamental como 
o termo médio entre sociedade civil e governo etc.). a relação racional, o si-
logismo, parece, portanto, estar concluída. o poder legislativo, o termo médio, 
é um mixtum compositum37 dos dois extremos, do princípio monárquico e da 
sociedade civil; da singularidade empírica e da universalidade empírica, 
do sujeito e do predicado. Hegel concebe, em geral, o silogismo como termo 
médio, como um mixtum compositum. Pode-se dizer que, em seu desenvol-
vimento do silogismo racional, toda a trans cendência e o místico dualismo 
de seu sistema tornam-se evidentes. o termo médio é o ferro de madeira, a 
oposição dissimulada entre universalidade e singularidade.
Observemos, primeiramente, a propósito de todo esse desenvolvimento, que 
a \u201cmediação\u201d que Hegel quer estabelecer aqui não é uma exigência que ele deduz 
a partir da essência do poder legislativo, de sua própria determinação, mas antes 
por consideração a uma existência que reside fora de sua determinação essencial. 
É uma construção da consideração. o poder legislativo, preferen cialmente, é cons-
truído somente em consideração a um terceiro. É, portanto, preferencialmente a 
construção de sua existência formal que absorve toda a atenção. o poder legislativo 
é construído muito diplomaticamente. isso decorre da posição falsa, ilusória, \u3c7\u3b1\u3c4\u2019 
\u3b5\u3be\u3bf\u3c7\u3b7\u3bd38 política, que tem o poder legislativo no estado moderno (do qual Hegel 
é intérprete). disso se depreende, por si, que este estado não é um verdadeiro 
estado, pois nele as determinações estatais, entre elas o poder legislativo, têm 
que ser consideradas não em si e para si, não teoricamente, mas praticamente; 
não como forças independentes, mas como forças em oposição; não a partir da 
natureza da coisa, mas segundo as regras da convenção.
Portanto, o elemento estamental deveria propriamente ser, \u201cem comum 
com o poder governamental\u201d, o termo médio entre a vontade da singularidade 
empírica, o príncipe, e a vontade da universalidade empírica, a sociedade 
civil; porém, na verdade, realmente, \u201csua posição\u201d é uma \u201cposição primeira-
mente abstrata, a saber, do extremo da universalidade empírica contra o princípio 
do soberano ou do monarca em geral, na qual reside somente a possibilidade do 
37 \u201cmistura\u201d. (N.E.A.)
38 \u201cprincipal, por excelência\u201d. (N.E.A.)
``
Karl Marx
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acordo e, com isso, igualmente a possibilidade da oposição hostil\u201d, uma \u201cposição 
abstrata\u201d, como Hegel observa corretamente.
antes de mais nada, parece que aqui nem o \u201cextremo da universalidade 
empírica\u201d, nem o \u201cprincípio do soberano ou do monarca\u201d, o extremo da sin-
gularidade empírica, se contrapõem.
Pois os estamentos são delegados da sociedade civil, assim como o poder 
governamental é delegado do príncipe. do mesmo modo que, no poder gover-
namental delegado, o princípio soberano deixa de ser o extremo da singulari-
dade empírica, e, mais ainda, nele abandona a sua vontade \u201csem fundamento\u201d, 
rebaixa-se à \u201cfinitude\u201d do saber, da responsabilidade e do pensamento, assim 
também, no elemento estamental, a sociedade civil não parece ser mais a 
universalidade empírica, mas um todo bem determinado, que tem tanto \u201co 
sentido e a disposição do estado e do governo, quanto os interesses dos cír-
culos particulares e dos singulares\u201d (§ 302). A sociedade civil, em sua edição 
estamental em miniatura, deixou de ser a \u201cuniversalidade empírica\u201d. Ela se 
rebaixou, muito mais, a uma comissão, a um número bem determinado; e, 
se o príncipe se deu uma universalidade empírica no poder governamental, 
também a sociedade civil se deu, nos estamentos, uma singularidade empírica 
ou particularidade. ambos se tornaram uma particularidade.
a única oposição que ainda é possível aqui parece ser aquela entre os dois 
representantes das duas vontades do estado, entre as duas emanações, entre 
o elemento governamental e o elemento estamental do poder legislativo; parece 
ser, portanto, uma oposição no interior do próprio poder legislativo. a mediação 
\u201ccomum\u201d parece, também, bastante apropriada para que os elementos agarrem 
uns aos outros pelos cabelos. No elemento governamental do poder legis-
lativo, a inacessível singularidade empírica do príncipe tomou forma terrena 
em um certo número de personalidades limitadas, palpáveis, responsáveis; 
no elemento estamental, a sociedade civil tomou forma celeste em um certo 
número de homens políticos. os dois lados perderam sua intangibilidade. o 
poder soberano perdeu o seu inacessível, exclusivo, Uno empírico; a sociedade 
civil perdeu seu inacessível, vago, Todo empírico; um a sua rigidez, a outra sua 
fluidez. No elemento estamental, de um lado, e no elemento governamental 
do poder legislativo, de outro, que pretendiam juntos mediar sociedade civil 
e príncipe, a oposição parece, portanto, ter se tornado primeiramente uma 
oposição belicosa, mas também uma contradição irreconciliável.
essa \u201cmediação\u201d, tal como Hegel desenvolve corretamente, tem necessidade 
apenas de \u201cque sua mediação venha à existência\u201d. Ela é muito mais a existência 
da contradição do que a existência da mediação.
Que essa mediação seja realizada pelo lado do elemento estamental, Hegel 
parece afirmá-lo sem fundamento. Ele diz:
assim como, do lado do poder do príncipe, o poder governamental (§ 300) já 
tem essa determinação, assim também, do lado dos estamentos, um momento 
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deles tem de estar voltado para a determinação de existir essencialmente como 
o momento do termo médio.
Já vimos, porém, que Hegel opõe, aqui, de forma arbitrária e inconsequente, 
príncipe e estamentos como extremos. a mesma determinação que o poder 
governamental possui do lado do poder do príncipe, o elemento estamental a 
possui do lado da sociedade civil. os estamentos não se situam apenas, em co-
mum com o poder governamental, entre príncipe e sociedade civil, mas também 
entre o governo em geral e o povo (§ 302). eles fazem, do lado da sociedade 
civil, mais do que o poder governamental o faz do lado do poder soberano, 
uma vez que é propriamente este último que se contrapõe ao povo como seu 
oposto. eles chegaram ao cúmulo da mediação. Por que, então, sobrecarregar 
este asno com mais sacos ainda? Por que o elemento estamental deve, pois, 
constituir, por toda parte, a ponte de asnos39, justamente entre ele e seu opo-
nente? Por que é ele, por toda parte, o próprio sacrifício? Deve ele cortar uma 
de suas mãos, a fim de que não possa enfrentar com as duas seu antagonista, o 
elemento governamental do poder legislativo?
acrescente-se, ainda, que Hegel fez com que os estamentos resultassem 
das corporações, distinções estamentais etc., a fim de que eles não fossem 
uma \u201cmera universalidade empírica\u201d, e que agora, ao contrário, ele os trans-
forma em mera \u201cuniversalidade empírica\u201d, para fazer com que deles resulte 
a distinção estamental! Do mesmo modo que, por meio do poder governa-
mental, o príncipe, como o Cristo desse poder, estabelece sua mediação com 
a sociedade civil, assim também a sociedade civil estabelece sua mediação 
com o príncipe por meio dos seus padres, os estamentos.
Parece, antes, que o papel dos extremos, do poder soberano (singularidade 
empírica) e da sociedade civil (universalidade empírica), deva ser o de servir 
de mediador \u201cde sua mediação\u201d,