Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
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Crítica da Filosofia do Direito de Hegel


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Hegel só pode afirmá-lo mediante um sofisma. Pois 
isso só poderia ser concluído se os mandantes tivessem a escolha de deliberar 
e decidir eles mesmos sobre os assuntos universais; ou de deputar indivíduos 
determinados para a sua execução; ou seja, precisamente se a deputação, a 
representação não pertencesse essencialmente ao caráter do poder legislativo da 
sociedade civil, o que, como foi exposto, constitui justamente a sua essência 
particular no estado construído por Hegel.
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Eis um exemplo significativo de como Hegel, quase deliberadamente, 
abandona a coisa no interior de sua própria particularidade e lhe imputa, 
em sua forma limitada, um sentido oposto a essa limitação.
Hegel dá, ao final, o verdadeiro fundamento: os deputados da sociedade 
civil se constituem numa \u201cassembleia\u201d, e somente essa assembleia é a existência 
política real e o querer da sociedade civil. a separação entre estado político 
e sociedade civil aparece como a separação entre os deputados e seus man-
dantes. a sociedade simplesmente deputa de si mesma os elementos para a 
sua existência política.
a contradição aparece duplamente:
1) formal: os deputados da sociedade civil são uma sociedade cujos mem-
bros não se encontram vinculados aos seus constituintes por meio da forma 
da \u201cinstrução\u201d, do mandato. Eles são constituídos formalmente, mas, tão 
logo o são realmente, eles não são mais comissionados. eles devem ser deputados 
e não o são.
2) material: em relação aos interesses. sobre isso a seguir. aqui, tem lugar 
o contrário: eles são comissionados como representantes dos assuntos uni-
versais, mas eles representam assuntos realmente particulares.
É significativo que Hegel qualifique, aqui, a confiança como a substância da 
deputação, como a relação substancial entre representantes e representados. 
Confiança é uma relação pessoal. No adendo, lê-se ainda sobre isso:
A representação se funda na confiança, mas confiança é algo diferente de eu 
dar, enquanto tal, o meu voto. a maioria dos votos é igualmente contrária ao 
princípio segundo o qual eu devo estar presente naquilo que deve me obrigar. 
Tem-se confiança num homem, quando nele se observa a intenção de tratar 
minha causa como sua, segundo sua melhor consciência e conhecimento.
§ 310. a garantia das qualidades e da disposição correspondentes a esse 
fim \u2013 pois o patrimônio independente, já na primeira parte dos estamentos, 
exige o seu direito \u2013 mostra-se, na segunda parte, que provém dos elementos 
móveis e mutáveis da sociedade civil, principalmente na disposição, habili-
dade e conhecimento das instituições e interesses do estado e da sociedade 
civil \u2013 adquiridos por meio da efetiva administração das funções nos ofícios da 
magistratura ou do Estado, e confirmados pela ação \u2013 e no sentido de autoridade e 
no sentido do Estado, assim educado e experimentado.
Primeiramente, a primeira câmara, a câmara da propriedade privada indepen-
dente fora construída como garantia, para o príncipe e o poder governamental, 
contra a disposição da segunda câmara, como a existência política da univer-
salidade empírica; e, agora, Hegel exige novamente uma nova garantia, que 
deve garantir a disposição etc. da própria segunda câmara.
Primeiro, a garantia dos deputados era a confiança, a garantia dos 
mandantes. Agora, essa confiança necessita, também ela, de uma garantia 
de sua validade.
Karl Marx
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a Hegel não agradaria fazer da segunda câmara a câmara dos funcioná-
rios estatais aposentados. Ele não exige apenas o \u201csentido do Estado\u201d, mas 
também o sentido da \u201cautoridade\u201d, o sentido burocrático.
o que ele realmente exige, aqui, é que o poder legislativo deva ser o real 
poder governativo. ele expressa isso de tal forma que exige a burocracia duas 
vezes: uma como representação do príncipe, outra como representação do povo.
se, nos estados constitucionais, os funcionários também são admitidos como 
deputados, isso só se dá porque, em geral, faz-se abstração do estamento, da qua-
lidade civil, e a abstração da qualidade de cidadão do Estado é o preponderante.
Hegel esquece, com isso, que fez a representação provir das corporações 
e que elas se opõem diretamente ao poder governamental. ele vai tão longe 
nesse esquecimento, coisa que volta a esquecer já no parágrafo seguinte, a 
ponto de criar uma distinção essencial entre os deputados das corporações e 
os deputados estamentais.
Na nota a esse parágrafo, lê-se:
A opinião subjetiva de si com facilidade acha superficial, e até mesmo algo 
ofensiva, a exigência de tais garantias, quando é feita ao assim chamado povo. 
Porém, o estado tem por sua determinação o que é objetivo e não uma opinião 
subjetiva e sua autoconfiança; os indivíduos só podem ser, para o Estado, 
aquilo que neles é objetivamente reconhecível e comprovado; e o Estado, nessa 
parte do elemento estamental, tem de cuidar tanto mais para ver, na medida 
em que esse elemento tem suas raízes nos interesses e atividades dirigidos ao 
particular, em que a contingência, a mutabilidade e o arbítrio têm o direito 
de passear.
Aqui, a inconsequência irrefletida e o sentido de \u201cautoridade\u201d de Hegel 
se tornam realmente repugnantes. Na conclusão do adendo ao parágrafo 
precedente, está escrito:
Que o deputado a realize (sua tarefa descrita mais acima) e a faça avançar, 
para isso é necessário a garantia para os eleitores.
essa garantia para os eleitores se transformou, sub-repticiamente, numa ga-
rantia contra os eleitores, contra sua \u201cautoconfiança\u201d. No elemento estamental, a 
\u201cuniversalidade empírica\u201d devia alcançar o momento da \u201cliberdade subjetiva, 
formal\u201d. Nele, \u201ca consciência pública\u201d deveria chegar \u201cà existência\u201d \u201ccomo 
universalidade empírica dos pontos de vista e pensamentos dos muitos\u201d (§ 301). 
Agora, esses \u201cpontos de vista e pensamentos\u201d devem dar, previamente, uma 
prova ao governo de que eles são \u201cseus\u201d pontos de vista e pensamentos. Hegel 
fala aqui, de uma maneira especialmente tola, do estado como uma existência 
acabada, embora, no elemento estamental, o estado acabado esteja apenas por ser 
construído. ele fala do estado como sujeito concreto, que \u201cnão se perturba com 
a opinião subjetiva e sua autoconfiança\u201d, para quem os indivíduos se deixaram 
\u201creconhecer\u201d e \u201ccomprovar\u201d. Falta apenas que Hegel exija que os estamentos 
prestem um exame ao digníssimo governo. aqui, Hegel beira a servilidade. 
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Vê-se que ele é completamente contagiado pela soberba miserável do mundo 
do funcionalismo prussiano, que, nobre em sua limitação de gabinete, olha de 
cima a \u201cautoconfiança\u201d da \u201copinião subjetiva do povo sobre si mesmo\u201d. O 
\u201cEstado\u201d é, por toda parte, para Hegel, idêntico ao \u201cgoverno\u201d.
Certamente, em um Estado real, a \u201cmera confiança\u201d, a \u201copinião subjetiva\u201d 
não bastam. Mas, no estado construído por Hegel, a disposição política da so-
ciedade civil é uma mera opinião, precisamente porque sua existência política 
é uma abstração de sua existência real; precisamente porque o todo do Estado 
não é a objetivação da disposição política. Quisesse Hegel ser consequente, então 
ele teria, muito mais, que empregar todos os meios para construir o elemento 
estamental segundo sua determinação essencial (§ 301), como o ser-para-si do 
assunto universal nos pensamentos etc. dos muitos, portanto, completamente 
independente dos outros pressupostos do estado político.
Assim como Hegel anteriormente qualificara o ponto de vista da plebe 
como se este pressupusesse a má vontade no governo etc., agora o ponto de 
vista da plebe tende, e ainda mais, a pressupor a má vontade no povo. se 
garantias são exigidas de que a disposição da burocracia seja a disposição do 
Estado, Hegel não pode, nesse caso, achar nem \u201csuperficial\u201d, nem \u201cofensiva\u201d, 
nos teóricos por ele desprezados, a exigência de garantias \u201cao assim