CHOQUE
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CHOQUE


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Faculdade de Zootecnia, Veterinária e Agronomia \u2013 PUCRS 
Curso de Medicina Veterinária 
Clínica Cirúrgica Veterinária 
 
 
 
 
Prof. Daniel Roulim Stainki 
 
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II) C H O Q U E 
 
 
 
 1) CONCEITO 
 
 Síndrome caracterizada por acentuada insuficiência da perfusão capilar, tornando 
incapaz a manutenção da função normal das células, principalmente, por uma inadequada 
respiração celular. Pode ocorrer por uma diminuição significativa do volume sangüíneo 
ou por distúrbios do funcionamento cardíaco e/ou vascular. 
 
 2) CLASSIFICAÇÃO 
 
 Diferentes fatores interferem com a dinâmica circulatória, classificando o choque 
em três tipos principais: hipovolêmico, vasculogênico e cardiogênico. 
 
 2.1) Choque hipovolêmico: 
 
 Ocorre por diminuição aguda do volume sangüíneo circulante, por perdas para 
fora do espaço vascular. Estas perdas podem ser por: 
 
 a) hemorragia (choque hemorrágico) - é ocasionado pela perda de sangue. Uma 
perda de sangue de 20 a 35% está associada com a síndrome clínica do choque 
hipovolêmico, enquanto que, perdas maiores que 40% são fatais, caso a terapia 
apropriada não seja instituída. 
 As hemorragias podem se apresentar de duas formas: hemorragia externa ou 
hemorragia interna. 
 No primeiro caso a ocorrência é comum nos ferimentos traumáticos na superfície 
externa e nas cirurgias cruentas prolongadas, já no segundo, a perda de sangue ocorre 
para determinada cavidade ou para a intimidade de grandes massas musculares. Ex. 
ruptura de vísceras, ruptura de grandes vasos e fraturas. 
 
 b) hemoconcentração - deve-se à diminuição do plasma circulante, como ocorre 
nas queimaduras (+ 20% da superfície corporal), onde é observada intensa exsudação na 
superfície destruída, ocasionando aumento na viscosidade sangüínea e agregação de 
hemácias e plaquetas. A perda de plasma ocorre também em peritonites e pleuris, com 
efusões cavitárias. 
 A perda de líquido extracelular (desidratação) ocorre principalmente nos casos de 
vômitos e diarréia, onde são eliminados água e eletrólitos. Em eqüinos a sudoração 
excessiva pode ser fator determinante, um eqüino adulto com enterite séptica, pode 
desenvolver uma diarréia severa com perdas de 50 a 100 litros de líquido em 24 horas. 
 
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 Nos casos de falência da adrenocortical pode ocorrer uma diminuição crítica da 
aldosterona, acarretando em perdas de sódio e conseqüentemente perda de água, com 
depleção severa na volemia. 
 
 2.2) Choque vasculogênico: 
 
 Neste choque não ocorre a perda do volume circulante, e sim um aumento agudo 
no espaço do leito vascular (vasodilatação), por incapacidade de manter a resistência 
periférica. Os fatores etiológicos são: 
 a) paralisia vasomotora (choque neurogênico) - desenvolvido por paralisia do 
sistema nervoso simpático (traumatismos na medula oblonga e tóraco-lombar) e 
intoxicação por fármacos hipotensores e envenenamento por produtos químicos 
vasodilatadores (anestésicos gerais). 
 b) agentes anafiláticos (choque anafilático) - ocorre por falência circulatória 
periférica pela liberação aguda de histamina, devido uma reação antígeno-anticorpo-
complemento. Ex: picada de insetos, transfusões de sangue incompatível, sensibilidade à 
fármacos (penicilina). 
 c) toxinas bacterianas (choque séptico ou endotóxico) - é a forma mais comum de 
choque, principalmente nos grandes animais. É freqüentemente desencadeado por 
bactérias gram negativas (endotoxinas), mas pode também ocorrer por bactérias gram 
positivas (exotoxinas) e por fungos. As fontes de infecções incluem o trato 
gastrointestinal, origem nosocomial (cateter, cirurgias), feridas e infecções dos tratos 
respiratório e urinário. As causas mais comuns do choque séptico são: queimaduras 
contaminadas, traumatismos extensos, peritonite, obstrução intestinal, isquemia 
intestinal, enterite, pericardite, abscessos, osteomielite, enfermidades hepáticas, 
meningite, mastite e choque hemorrágico. 
 
 2.3) Choque cardiogênico: 
 
 Neste caso, estão incluídas as causas que interfiram com a repleção e 
esvaziamento das cavidades cardíacas. Estes fatores desencadeantes podem ser divididos 
em dois grupos: 
 a) interferência com o débito cardíaco devido a uma obstrução ou restrição do 
fluxo sangüíneo (choque obstrutivo). Ex: volvo gástrico (compressão da veia porta e cava 
caudal), retículo pericardite traumática (tamponamento cardíaco) e pneumotórax. 
 b) interferência com o esvaziamento ventricular. Ex: ruptura de cinta tendinosa, 
depressão do miocárdio provocada por acidose, distúrbios eletrolíticos ou fármacos 
depressores do miocárdio. 
 
 3) DIAGNÓSTICO 
 
 Para uma avaliação adequada do paciente em choque, deve-se incluir a 
verificação dos chamados sinais vitais. Na rotina da clínica médica, são fundamentais os 
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dados de anamnese e os sinais clínicos, principalmente quando não se dispõe de apoio 
laboratorial. 
 
 3.1) Anamnese: 
 Quando bem orientada, a anamnese proporciona informações sobre os fatores 
desencadeantes do choque e orienta a sua terapia. 
 Deve-se questionar com o proprietário sobre a possibilidade de traumatismo, 
perda de sangue (volume aproximado), presença de diarréia e/ou vômito, se já foi 
prestado ao paciente algum tipo de auxílio (físico ou medicamentoso). 
 O choque por hemorragia aguda ou insuficiência respiratória é desencadeado em 
poucas horas, enquanto que nas infecções ou perdas hidroeletrolíticas ocorre após várias 
horas ou dias de evolução. O choque anafilático instala-se em minutos. 
 
 3.2) Avaliação clínica: 
 
 3.2.1) textura da pele e temperatura - uma avaliação aproximada da perfusão 
cutânea pode ser estimada através da observação da elasticidade e temperatura da pele. 
Pele elástica e morna nas extremidades indica que a circulação nestas áreas esta 
adequada. Com o aumento da resistência vascular periférica, resultando em pobre 
perfusão, as extremidades tornam-se frias, pouco elásticas e úmidas. Ao mesmo tempo, as 
veias superficiais podem colapsar tornando-se difíceis de serem observadas. 
 
 3.2.2) membranas mucosas - membranas mucosas secas e pálidas podem indicar 
hipovolemia, enquanto membranas cianóticas (escuras) podem refletir em pobre 
oxigenação. O tempo de refluxo e a coloração das gengivas são úteis para a avaliação da 
perfusão dos tecidos. Se a reperfusão gengival for acima de 1 segundo e se a coloração 
não estiver rosa brilhante, importantes anormalidades cardiodinâmicas e de oxigenação 
estão em processo. 
 
 3.2.3) reflexo e função mental - no paciente chocado, os reflexos corticais, 
medulares e vestibulares estão deprimidos. Nos animais submetidos a traumatismos o 
exame deve incluir a verificação da integridade do esqueleto axial além da função 
nervosa. 
 
 3.2.4) pulso e pressão - o paciente em choque, freqüentemente, apresenta um 
pulso rápido, fraco (filiforme) e arrítmico. A freqüência cardíaca deverá estar aumentada 
(taquicardia) e arrítmica, devido à liberação de catecolaminas endógenas e pelo 
comprometimento do miocárdio pela hipóxia e acidose sistêmica. A pressão sistólica 
encontra-se baixa (<70 mmHg). 
 
 3.2.5) movimentos respiratórios - haverá aumento na freqüência respiratória em 
resposta à acidose metabólica. 
 
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 3.2.6) temperatura corporal - ocorre detrimento no metabolismo dos pacientes em 
choque, reduzindo a quantidade de calor produzido. A temperatura