Cap_04_Historia_Valencia
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Cap_04_Historia_Valencia


DisciplinaHistória e Filosofia da Quimica12 materiais119 seguidores
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4 UMA HISTÓRIA PARA A NOÇÃO DE VALÊNCIA QUÍMICA 
A noção de valência é um tema ao mesmo tempo controverso e central na história 
da química. Através das diferentes aproximações desenvolvidas para precisar o seu papel 
no desenvolvimento da química, a noção de valência demonstrou ser pelo menos uma 
estratégia metodológica bastante eficiente para aproximação do químico com o misterioso 
mundo interior da combinação química. Essa noção se atreveu a tentar explicar os antigos 
domínios da afinidade química, acabando com isso por produzir uma maneira especial de 
representar a realidade invisível dos átomos e moléculas através das chamadas fórmulas 
estruturais. Como se não bastasse, a valência provocou também o mundo periódico, 
organizando a posição dos primeiros elementos tanto no sistema russo, proposto por 
Medeleev, como no alemão, proposto por Meyer. A partir de todas essas influências, 
alguns professores de química concordam que é impossível dar os primeiros passos na 
disciplina sem ser apresentado a ela. 
Contudo a situação da noção de valência no presente é bem diferente do ponto de 
vista acadêmico. Os avanços crescentes da chamada química teórica, na verdade uma sub-
classe do macro-domínio da mecânica quântica, retiraram da valência seus atributos e 
designaram-na uma função meramente sintática. Assim, o que outrora fora encarado como 
uma teoria fundadora, agora é mormente remetido através de locuções adjetivas tais como: 
elétrons de valência, nível de valência e configuração de valência. 
Em relação a uma evolução temporal restrita, a história da valência pode ser 
dividida, grosso modo, em três períodos. O primeiro, de 1850 a 1870, sendo caracterizado 
pela emergência do conceito e seu desenvolvimento no interior do programa de pesquisa 
da química orgânica. O segundo, de 1870 até 1920, que assinala a influência da 
periodicidade química sobre ela, determinando uma ampla divulgação e utilização do 
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conceito tanto no campo acadêmico quanto no didático. E o terceiro, após 1920, que 
assinala a colisão entre os antigos referenciais da noção de valência com os resultados da 
utilização de métodos físicos modernos no estudo da estrutura das substâncias, incluindo-
se o alcance dos preceitos da mecânica quântica sobre os objetos da química. 
Esse trabalho não tratará desse terceiro período, procurando focalizar uma 
apresentação histórica voltada para o que se chama comumente de noção clássica de 
valência, em contraposição à teoria eletrônica de valência que se verifica como um efeito 
do desenvolvimento da mecânica quântica, após 1920. 
A anotação da noção clássica de valência pretendida aqui, não estará pautada pelo 
intervalo temporal indicado anteriormente, em seu lugar recorreremos como ponto de 
partida a uma investigação das origens da noção de afinidade química. Essa escolha 
decorre principalmente da identidade que a noção clássica de valência assumiu com essa 
noção ao longo de sua evolução. Por sua vez, o ponto final dessa apresentação pretende 
trazer à tona as mutuas implicações que ocorreram entre a noção de valência e a 
periodicidade química no final século XIX. A estratégia/organização é mais bem 
identificada como um mapa histórico das idéias que em diversas épocas constituíram ou 
foram constituídas pela noção de valência, preservando sempre que possível uma ordem 
cronológica. Denota-se assim, uma pretensa história das idéias que em diversas épocas 
constituíram o currículo dessa noção. 
Os critérios de escolha para a configuração desse mapa de idéias pertinente à noção 
clássica de valência foram amparados, mas não determinados, pela bibliografia consultada. 
O quadro histórico desenhado aqui é uma história e não a história da valência, ele deve 
apoiar a leitura da análise dos livros que virá posteriormente. Todavia não foi delegado a 
ela, em nenhum momento, um caráter secundário, mas sim o de uma poderosa ferramenta 
na metodologia desse trabalho e de sua proposta. 
4.1 AS PRIMEIRAS IDÉIAS SOBRE AFINIDADE QUÍMICA 
A metáfora mais antiga correspondendo a uma explicação para a transformação da 
matéria recorre aos primeiros mineradores que acreditavam que os minérios cresciam no 
solo como embriões, resultado da união do céu masculino com a terra feminina. Para eles 
os vários tipos de minerais eram uma forma passageira, de gestação natural para 
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progressão até o estado mais perfeito, o ouro, que correspondia ao estado mais raro dessa 
união. Procedimentos ritualísticos extremamente elaborados foram desenvolvidos para 
auxiliar a natureza no seu trabalho de transformar minérios simples em ouro puro. Sejam 
como lendas ou simples metáforas, a força dessas concepções pode ser verificada pela sua 
insistência em se manter presente desde a Grécia Antiga, atravessando a Idade Média, até o 
Renascimento. 
Mesmo tendo como referência o caráter místico de suas origens, pode-se inferir que 
os primeiros contatos com diferentes tipos de matéria, através de experimentos controlados 
ou não, indicaram que a ação química \u2013 algumas vezes vigorosa e outras vezes vagarosa e 
incompleta \u2013 poderia ser devida a forças ou a atrações particulares. Os primeiros químicos, 
no entanto, não estavam interessados em interpretar tais fenômenos por meio de causas 
físicas, ficando satisfeitos com a observação e considerando as causas como manifestações 
de intenções divinas, ou devidas a misteriosos poderes ocultos. Em períodos posteriores, 
chegou-se a considerar que a causa que estimularia a combinação química seria a 
semelhança entre as substâncias. A frase \u201cSimilia similibus\u201d35 (Stilmann, 1960), 
personifica um dos mais antigos simbolismos e reflete uma vontade primeira de exprimir a 
causa dos processos de transformação química. 
A palavra afinidade, quando utilizada pelos antigos praticantes da arte36, implicava, 
entre outros aspectos, também a idéia de uma semelhança ou similaridade entre os corpos 
que reagem. Durante o século XIII, Alberto Magno (1193\u20131280) utiliza a palavra 
\u201caffinitas\u201d com esse sentido quando diz que \u201co enxofre escurece a prata e queima os metais 
em geral, devido à \u201cafinidade natural que existe entre eles\u201d (propter affinitatem naturae 
metalla adurit)37. Alberto Magno foi o primeiro a demonstrar que o lapis Rubens (cinábrio 
\u2013 sulfeto de mercúrio), que se encontrava nas minas de onde se retirava mercúrio, era um 
composto de enxofre e mercúrio (Magno, 1974). Magno descreveu também, com riqueza 
de detalhes, a preparação do ácido nítrico, que nomeava água prima, ou água filosófica no 
primeiro grau de perfeição. 
 
35 Semelhante gosta de semelhante 
36 É entendida aqui como arte toda manifestação vinculada a correntes da alquimia ou tradição hermética e 
que poderia misturar os conhecimentos tanto de iniciados como de artesãos para os mais diversos fins, desde 
a cura de doenças até o charlatanismo. 
37 De Rebus metaliicis, Rouen, 1476. A obra pode ser consultada indiretamente através do site da ORB \u2013 
Online Reference Books for Medieval Studies \u2013 disponível em <http://orb.rhodes.edu/bibliographies/ 
almagnus.html> acesso em 14 de outubro de 2002. 
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Essa afinidade medieval era plena de características animadas, como se pode 
perceber também a partir da narrativa de Johann Rudolf Glauber (1604-1668) em seu livro 
Furni novi philosophici (1646), quando dizia que a areia possui uma sociedade com o sal 
de tártaro (carbonato de potássio) de modo que eles \u201cse amam tanto que não concordam 
em se separar\u201d (Glauber, 1659). 
4.2 INFLUÊNCIAS DO CORPUSCULARISMO DE ROBERT BOYLE 
Robert Boyle (1627-1691), em seu livro Químico Cético (1661), protesta contra a 
crença generalizada nas idéias de simpatia/antipatia, amizade/aversão,