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A subordinação reiterada

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significava a libertação dos grilhões que prendiam a economia brasileira à economia 
européia (VALLA, 1978: 45). Em outra ocasião, discursando sobre a questão pan-
americana, declarou “. . . nós, o povo da América, somos todos de certo modo filhos de 
Washington. . .”. E creditava grandes vantagens comparativas com a adesão do Brasil à 
essa política imperialista. Admirador dos Estados Unidos, Nabuco assumia uma atitude de 
subordinação consentida ao pan-americanismo, reconhecendo aquele país como guia 
natural e a posição secundária ocupada pelo Brasil. Enquanto o embaixador brasileiro assim 
se colocava, o norte-americano J. F. Normano era de opinião que, mesmo trazendo algumas 
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vantagens para os países membros, essa política internacional das Américas era benéfica 
principalmente aos Estados Unidos (apud VALLA, 1978: 54). 
O advento da grande guerra de 1914 a 1918 trouxe conseqüências danosas à 
economia brasileira, eliminando o comércio significativo com alguns países europeus – 
Alemanha, Bélgica, Áustria e Rússia – e diminuindo o volume tanto das exportações 
quanto das importações. O comércio foi afetado em função das longas distâncias que 
separavam os mercados brasileiro e europeu e do esforço de guerra em si. O resultado 
imediato para o Brasil: queda na receita orçamentária, desvalorização cambial, diminuição 
do crédito e do investimento externo. Mas, o país também pôde se beneficiar com aquela 
situação. Os altos preços que alcançaram os gêneros alimentícios e de primeira necessidade 
no mercado mundial estimularam a produção para a exportação. O país, que antes da guerra 
exportava apenas produtos como café, borracha, couros e peles (SINGER, 1982), 
incrementava sua pauta de exportações com gêneros como arroz, carne, feijão, e outros que 
até então experimentavam franco declínio, como o algodão e o açúcar, recuperaram-se 
rapidamente. Vale ressaltar que o mercado de carne congelada no país foi um dos principais 
setores atingidos pelo investimento direto norte-americano, que aqui montou frigoríficos 
com o objetivo de produção unicamente para a exportação. Investiram também no setor 
madeireiro, explorando o pinho do Paraná (VALLA, 1978). Com o fim da guerra, a 
exportação de algodão e de produtos de pecuária sofreu sensível retração com a volta dos 
grandes produtores mundiais. 
 Os Estados Unidos, por sua vez, devido a sua entrada tardia na guerra, dela só 
participando efetivamente em 1917, aproveitaram-se dessa situação, seja como 
fornecedores de produtos manufaturados para os países em conflito, seja como credores dos 
grandes empréstimos que puderam ser feitos. 
 A aceleração do processo de industrialização brasileira veio a ocorrer somente após 
a Primeira Guerra Mundial. A industrialização brasileira era devida, em grande medida, ao 
mercado consumidor interno de produtos alimentares. Tal foi conseguido, entretanto, mais 
às custas da capacidade ociosa existente que da ampliação da capacidade produtiva. O país 
não soube adquirir uma base industrial suficiente para almejar um desenvolvimento 
autônomo. 
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 O conflito mundial deu aos Estados Unidos a chance de consolidar seus interesses 
na América do Sul, através da criação da I Conferência Financeira Pan-americana,80 cujo 
objetivo não declarado oficialmente era a expansão comercial norte-americana, em busca 
de vantagens advindas com a guerra na Europa. À necessidade de capital relativamente 
barato nos países latinos, para custear obras públicas e particulares, correspondia a 
existência de um mercado ampliado para os empréstimos, abrindo o caminho para a 
ampliação do comércio norte-americano com os países ao sul do continente. 
 As incursões que os Estados Unidos fizeram no Brasil em setores importantes – 
importações, exportações, transportes e outros tipos de investimento – demonstraram a 
tendência de domínio sobre nossa economia. 
 No final da década de 1910, a incipiente indústria no Brasil tendia a continuar 
concentrada na produção e exportação de um pequeno número de gêneros tropicais. A 
produção de café para a exportação continuou a receber a mesma atenção de sempre. Mas, 
o sucesso da produção de café resultava numa atitude antiindustrial por parte dos 
agricultores que acusavam a indústria brasileira de ser “artificial, onerosa e, às vezes, 
injusta” (apud VALLA, 1978: 136). 
No início do século XX, os Estados Unidos importavam a maior parte da borracha e 
do café brasileiros. Tal situação concedia ao império norte-americano, junto aos outros 
intermediários estrangeiros, o poder de manipulação dos preços dos produtos brasileiros. 
De fato, a ameaça de impor barreiras tarifárias ao café do Brasil foi uma das formas que os 
americanos encontraram para fortificar a sua posição de supridores do mercado nacional de 
produtos industrializados (ibid.). 
Essa atitude foi criada devido ao temor da retaliação dos países importadores de 
café e que exportavam para cá os produtos industrializados. Esse processo, contrário à 
industrialização brasileira, privilegiou a entrada de capital estrangeiro, particularmente dos 
Estados Unidos, devido aos seus saldos positivos de guerra. 
 A manutenção, com ligeiras atenuantes, de políticas de favorecimento aos países 
centrais serviram aos objetivos do imperialismo. As políticas econômica e cambial, a 
estrutura produtiva do tipo primário-exportadora, o significado do mercado interno, 
 
80
 Este evento reuniu ministros e representantes do movimento financeiro dos Estados Unidos e dos demais 
países do continente, com uma pauta de discussão que incluía desde aspectos relacionados às finanças 
públicas até a questão dos transportes marítimos (VALLA, 1978: 87). 
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delineavam a forma como o país iria interagir diante da reordenação econômica mundial 
nos anos 1930 e definiam a posição brasileira na nova configuração mundial. O país 
reafirmava seu destino rumo à periferia de onde ainda não retornou. 
 
2.4.2 No caminho da industrialização de marca não original 
 
 A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918 produziu na economia brasileira um 
tipo de industrialização que buscava substituir importações, reforçada com a crise mundial 
de 1929, que obrigou o país a manter em nível baixo a sua capacidade de importar e 
acelerou, mais ainda, o processo de industrialização. Merece destaque o fato de que o 
mercado interno potencial brasileiro – que mesmo com a depressão sofreu apenas uma 
queda de menos de 10% em sua capacidade operacional – apresentava-se bastante estável e 
já em 1933 começa a mostrar sinais de recuperação (FURTADO, 1998: 198). O aumento da 
rentabilidade do setor interno da economia é concomitante com a queda nos lucros do setor 
exportador. 
 Apenas parte do mercado interno brasileiro era abastecido com produtos de 
subsistência, gerados em processos produtivos arcaicos e de baixa produtividade, que 
somente satisfazia parte das necessidades reais da população monetariamente incorporada 
aos mercados consumidores, sendo a outra parte suprida com as importações. A alta 
concentração da propriedade da terra e do capital, sobretudo no setor exportador, 
significava uma concentração da renda e da riqueza nas mãos da classe proprietária. Essa 
classe, pequena em termos quantitativos, se apropriava de grande parte da renda nacional e 
participava com padrões de consumo que se assemelhavam e se assemelham, até hoje, aos 
grande centros mundiais de onde, inclusive, importam parte dos produtos que consomem 
(TAVARES, 1978). 
 O mercado interno foi o fator dinâmico principal da economia brasileira nos anos 
1930. Seu pequeno parque industrial quase não foi afetado durante a depressão mundial, e a 
produção agrícola para o mercado interno superou com rapidez os efeitos da crise. 
Problema houve com a importação de equipamentos