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Gulag   Anne Applebaum

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e Lunacharsky (o
primeiro ministro soviético da Cultura), tudo muito aconchegante.{146}
Usando o velho equipamento litográfico dos monges, os presos de Solovetsky
também produziam jornais e mensários que traziam cartuns, poesia
extremamente saudosa e ficção surpreendentemente franca. Na edição de
dezembro de 1925 da Solovetskie Ostrova (nome que significa "ilhas Solovetsky "),
um conto falava de uma ex-atriz que chegara à ilha principal, fora obrigada a
trabalhar como lavadeira e não se acostumara à nova vida. A história termina
com esta frase: "Solovetsky é amaldiçoada".
Em outro conto, um ex-aristocrata que freqüentara "noitadas íntimas no Palácio
de Inverno" consola-se com a nova situação só quando visita outro aristocrata e
fala dos velhos tempos.{147} Pelo visto, os clichês do realismo socialista ainda
não eram obrigatórios. Nem todas essas narrativas têm o final feliz que depois
seria obrigatório, e nem todos os prisioneiros ficcionais se adaptavam
alegremente à realidade soviética.
Os periódicos de Solovetsky também continham artigos mais eruditos, indo desde
a análise de Likhachev sobre as regras de etiqueta dos criminosos na jogatina até
trabalhos sobre a arte e a arquitetura das ruínas de igrejas de Solovetsky. Entre
1926 e 1929, a gráfica da Slon conseguiu lançar 29 edições do trabalho da
Associação de Estudos Locais de Solovetsky. Esta conduzia pesquisas sobre a
flora e a fauna do arquipélago, concentrando-se em determinadas espécies (os
cervos-boreais, as plantas locais) e publicava artigos sobre olaria, correntes
eólicas, minerais úteis e criação de animais de pele. Alguns presos ficaram tão
interessados neste último tema que, em 1927, quando a atividade econômica do
arquipélago estava no auge, um grupo deles importou algumas raposas-prateadas
"reprodutoras" para melhorar a qualidade dos rebanhos locais. Entre outras
coisas, a associação executou um levantamento geológico, o qual o diretor do
museu de história das ilhas ainda usa.{148}
Esses mesmos presos privilegiados também participavam dos novos ritos e
comemorações soviéticos, eventos dos quais uma geração posterior de detentos
dos campos seria propositalmente excluída. Na edição de setembro de 1925 da
Solovetskie Ostrova, um artigo descreve a comemoração do 1º de maio nas ilhas.
Infelizmente, o tempo estava ruim:
No 1° de maio, flores se abrem por toda a União Soviética, mas, em
Solovetsky, o mar ainda está cheio de gelo, e há muita neve. Apesar disso,
estamos nos preparando para comemorar o feriado proletário. Desde
manhã cedo, há agitação nos alojamentos. Alguns se lavam. Outros
fazem a barba. Um remenda as roupas. Outro engraxa as botas [...].{149}
Ainda mais surpreendente (da perspectiva dos anos posteriores) era a grande
persistência das cerimônias religiosas nas ilhas. Alexander V. A. Kazachkov, um
ex-condenado, lembrou a "grandiosa" Páscoa de 1926.
Não muito antes do feriado, o novo chefe da divisão exigiu que todos os
que quisessem ir à igreja lhe apresentassem uma declaração. De início,
quase ninguém o fez - as pessoas tinham medo das conseqüências. Mas,
pouco antes da Páscoa, um número enorme apresentou suas declarações
[...]. Ao longo da estrada para a igreja Onufrievskay a, a capela do
cemitério, seguia uma grande procissão, com as pessoas caminhando em
várias fileiras. Claro que nem todos coubemos na capela. Houve gente
que ficou em pé no lado de fora, e os que chegaram atrasados nem
conseguiam ouvir o ofício.{150}
Até a edição de maio de 1924 do Solovetskoi Lageram (outro periódico prisional)
trazia um editorial cauteloso, mas positivo, a respeito da Páscoa, "um antigo
feriado que comemora a chegada da primavera", o qual, "sob o estandarte
vermelho, ainda se pode celebrar".{151}
Junto com os feriados religiosos, uns poucos dentre os monges que outrora
habitavam o lugar também sobreviviam (para espanto de muitos presos) até bem
depois de 1925. Serviam na condição de "monges-instrutores", supostamente
transmitindo aos presos as habilidades necessárias para tocar os
empreendimentos rurais e pesqueiros de lá, antes bem-sucedidos (o arenque de
Solovetsky costuma ir à mesa do czar), assim como os segredos do complexo
sistema de canais que os religiosos haviam utilizado durante séculos para ligar as
igrejas da ilha principal. Com o passar dos anos, juntaram-se aos monges
dezenas de outros padres soviéticos e membros da hierarquia eclesiástica, tanto
ortodoxa quanto católica, que tinham se oposto ao confisco das propriedades da
Igreja ou violado o "decreto sobre a separação entre Igreja e Estado". O clero,
de certa maneira como os presos políticos socialistas, estava autorizado a viver à
parte, num alojamento específico do kremlin, e também tinha permissão para
realizar ofícios religiosos na capelinha do antigo cemitério, e isso até 1930-31.
Aos outros presos, tal luxo só era concedido em ocasiões especiais.
Esses privilégios parecem ter causado algum ressentimento, e havia tensões
ocasionais entre os clérigos e os presos comuns. Uma detenta, removida para
uma colônia materna especial na ilha de Anzer após ter dado à luz, recordou que
as freiras dali "mantinham-se afastadas de nós, as descrentes [...], eram bravas,
não gostavam das crianças e nos detestavam". Outros clérigos, conforme
repetem várias memórias, tinham justamente a atitude oposta, dedicando-se à
evangelização e às obras sociais ativas, tanto entre os criminosos como entre os
presos políticos.{152}
Para quem o tinha, o dinheiro também podia comprar a dispensa do trabalho nas
florestas e servir de seguro contra a tortura e a morte. Solovetsky contava com
um restaurante que podia atender (ilegalmente) os presos. Quem tinha condições
de pagar o suborno necessário também trazia de fora a própria comida.{153}
Em certa altura, a administração do campo até estabeleceu "lojas" nas quais os
presos podiam adquirir itens de vestuário a preços duas vezes mais altos que nos
estabelecimentos soviéticos normais.{154} Uma pessoa que teria conseguido
livrar-se do sofrimento pagando era o "conde Violaro", uma figura de aventureiro
cujo nome aparece (com ampla variedade de grafias) em várias memórias. O
conde, em geral descrito como o "embaixador mexicano no Egito", cometera o
erro de, logo após a Revolução, ter ido visitar a família da mulher na Geórgia
soviética. Tanto ele quanto a esposa foram presos e deportados para o extremo
norte. Embora de início ficassem encarcerados (com a condessa tendo de
trabalhar como lavadeira), a lenda do campo conta que, pela quantia de 5 mil
rublos, o conde comprou o direito de morarem numa casa em separado, com
cavalo e serviçal.{155} Outros se recordam da presença de um rico comerciante
indiano de Bombaim, o qual depois foi embora com a ajuda do consulado
britânico em Moscou. Posteriormente, as memórias desse indiano seriam
publicadas pela imprensa dos exilados.{156}
Esses e outros exemplos de presos ricos que viviam bem (e se iam embora logo)
eram tão notáveis que, em 1926, um grupo de detentos menos privilegiados
escreveu carta ao Presidium do Comitê Central do Partido Comunista,
denunciando "o caos e a violência que dominam o campo de concentração de
Solovetsky ". Usando frases que pretendiam influenciar a liderança comunista,
queixavam-se de que "quem tem dinheiro consegue arranjar-se, dessa maneira
jogando todas as dificuldades nos ombros dos operários e camponeses sem
tostão". Alegavam que, enquanto os ricos compravam tarefas mais fáceis, "os
pobres trabalham de catorze a dezesseis horas por dia".{157} No fim das contas,
não seriam eles os únicos descontentes com as práticas irregulares dos
comandantes de campo de Solovetsky.
Se a violência fortuita e o tratamento injusto incomodavam os presos, quem
estava em escalões mais altos da hierarquia soviética se inquietava com questões
um tanto diferentes. Na metade da década de 1920, já ficara claro que a Slon,
assim como o sistema prisional