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Gulag   Anne Applebaum

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sabia, Gorki estava longe de ser um visitante comum.
Naquela altura da vida, ele era o mui enaltecido e mui homenageado filho
pródigo dos bolcheviques. O escritor, um socialista militante que fora íntimo de
Lênin, nem por isso deixara de opor-se ao golpe bolchevique de 1917. Em artigos
e discursos posteriores, continuara a denunciar com veemência sincera o golpe e
o terror subseqüente, falando das "políticas doidas" de Lênin e da "cloaca" em
que Petrogrado se transformara. Em 1921, ele finalmente emigrou, trocando a
Rússia por Sorrento, onde, de início, continuou a lançar missivas condenatórias e
iradas para seus amigos na pátria.
Com o tempo, seu tom mudou, tanto que, em 1928, ele resolveu voltar, por
motivos que não estão de todo claros. Soljenitsin, de maneira um tanto
mesquinha, afirma que Gorki retornou porque não se tornara tão famoso quanto
esperava no Ocidente e então sentia-se muito infeliz no desterro e não suportava
a companhia de outros exilados russos, a maioria dos quais era muito mais
fanaticamente anticomunista do que ele.{210} Qualquer que tenha sido a
motivação, Gorki, uma vez tomada a decisão de voltar, parecia determinado a
ajudar o regime soviético o máximo possível. Quase de imediato, partiu numa
série de viagens triunfais pela URSS e, de caso pensado, incluiu Solovetsky no
itinerário. Seu duradouro interesse por prisões remontava ao próprio passado de
delinqüente juvenil.
Numerosos memorialistas recordam a ocasião da visita de Gorki a Solovetsky, e
todos concordam que se fizeram extensos preparativos de antemão. Alguns
lembram que as normas do campo foram alteradas para aquela data e que os
maridos se viram autorizados a ver as esposas, sendo de supor que isso se
destinava a deixar todo o mundo com ar mais alegre.{211} Likhachev escreveu
que se transplantaram árvores adultas em torno da colônia de trabalho, para dar-
lhe aspecto menos desolador, e que se removeram presos dos alojamentos, a fim
de que parecessem menos apinhados. Mas os memorialistas se mostram
divididos a respeito do que Gorki realmente fez quando chegou. De acordo com
Likhachev, o escritor percebeu todas as tentativas de lográ-lo. Enquanto lhe
mostravam a enfermaria do hospital, onde toda a equipe médica usava aventais
novos, Gorki soltou um desdenhoso "Não gosto de desfiles" e foi-se embora.
Passou meros dez minutos na colônia de trabalho e aí se fechou com um preso de
catorze anos, a fim de ouvir a "verdade". Quarenta minutos depois, saiu
chorando. Tudo isso segundo Likhachev.{212}
Por outro lado, Oleg Volkov, que também estava em Solovetsky quando da visita
de Gorki, afirma que o escritor "só olhou para o que o mandaram olhar".{213} E,
embora a história do menino de catorze anos apareça em outros relatos
(conforme uma versão, ele foi fuzilado tão logo Gorki partiu), outros alegam que
todos os presos que tentaram aproximar-se do escritor acabaram repelidos.{214}
Parece certo que cartas de presos a Gorki foram depois interceptadas, e, de
acordo com uma fonte, pelo menos um dos missivistas foi subseqüentemente
executado.{215} V. E. Kanen, um agente da OGPU que tinha caído em desgraça
e sido aprisionado, diz até que Gorki visitou as celas punitivas da Sekirka e ali
assinou o livro-diário da prisão. Um dos chefes da OGPU de Moscou que estava
com Gorki teria escrito: "tendo visitado a Sekirka, encontrei tudo em ordem,
exatamente como seria de esperar". Abaixo disso, segundo Kanen, Gorki
acrescentou: "Eu diria que [a prisão] é excelente".{216}
Mas, embora não possamos ter certeza do que de fato ele fez ou viu na ilha,
podemos ler o ensaio que escreveu depois, o qual assumiu a forma de impressões
de viagem. Ali, Gorki enalteceu a beleza natural das ilhas e descreveu as
construções pitorescas e seus igualmente pitorescos habitantes. Na viagem de
barco para a ilha, ele até conheceu alguns dos antigos monges de Solovetsky. "E
como a administração os trata?", pergunta-lhes. "A administração quer que todos
trabalhem", respondem. "E nós trabalhamos."{217}
Gorki também escreve com admiração sobre as condições de trabalho,
claramente pretendendo que seus leitores entendam que um campo soviético de
galés não era de modo algum a mesma coisa que um campo capitalista (ou
czarista) de galés, e sim um tipo completamente novo de instituição. Em alguns
dos cômodos, afirma, viu
quatro ou seis leitos, cada um deles adornado com objetos pessoais [...] há
flores nos peitoris. Não se tem nenhuma impressão de que a vida seja
regulada em excesso. Não, não existe nenhuma semelhança com uma
prisão. Em vez disso, é como se esses cômodos fossem habitados por
passageiros resgatados de um navio que naufragou.
Indo aos locais de trabalho, ele depara com "rapazes saudáveis" que usam botas
resistentes e camisas de linho. Encontra poucos presos políticos e, quando o faz,
descreve-os com desdém como "contra-revolucionários, tipos exaltados,
monarquistas". Quando lhe contam que foram presos injustamente, ele presume
que estejam mentindo. Em certa altura, parece aludir ao legendário encontro
com o menino de catorze anos. Escreve que, durante sua visita a um grupo de
delinqüentes juvenis, um deles lhe traz uma nota de protesto. Em resposta,
ouvem-se "gritos agudos" dos outros menores, que chamam o rapaz de "dedo-
duro".
Mas não eram apenas as condições de vida que, na descrição de Gorki, faziam de
Solovetsky um novo tipo de campo. Os detentos, esses "passageiros resgatados",
não apenas eram felizes e sadios, como também desempenhavam papel vital
num experimento grandioso: a transformação de personalidades criminosas e
associais em cidadãos soviéticos úteis. Gorki estava reavivando a idéia de
Dzerzhinsky de que os campos deveriam ser não meras penitenciárias, mas
"escolas do labor", especialmente concebidas para moldar o tipo de trabalhador
requerido pelo novo sistema soviético. A seu ver, a meta definitiva do
experimento era assegurar a "abolição das prisões" - e ele estava conseguindo.
"Se alguma das supostas sociedades cultas da Europa se arrojasse a realizar uma
experiência como a dessa colônia", concluía Gorki, "e se semelhante experiência
rendesse frutos como os que a nossa rendeu, tal país faria soar todas as trombetas
e se vangloriaria de seu feito." Gorki imaginava que só a "modéstia" dos líderes
soviéticos os impedira de ter a mesma atitude.
Consta que, posteriormente, Gorki disse que nem uma única frase de seu ensaio
sobre Solovetsky ficara "intocada pela pena do censor". Na realidade, não
sabemos se ele escreveu o que escreveu por ingenuidade, por um desejo
calculado de enganar os leitores ou por imposição dos censores.{218} Quaisquer
que tenham sido suas motivações, esse ensaio de 1929 sobre Solovetsky se
tornaria uma pedra fundamental para firmar as atitudes tanto públicas quanto
oficiais em face do novo e muitíssimo mais extenso sistema de campos que
estava sendo gestado naquele mesmo ano. A propaganda bolchevique anterior
defendera a violência revolucionária como um mal necessário, ainda que
temporário, uma força depuradora transitória. Gorki, ao contrário, fez a violência
institucionalizada dos campos de Solovetsky parecer um componente lógico e
natural da nova ordem e ajudou a levar o público a resignar-se ao poder
crescente e totalitário do Estado.{219}
Ao fim e ao cabo, 1929 seria lembrado por causa de muitas outras coisas além
do ensaio de Gorki. Naquele ano, a Revolução já amadurecera. Quase uma
década se passara desde o fim da Guerra Civil. Lênin morrera havia muito.
Experimentos econômicos de vários tipos - a Nova Política Econômica, o
comunismo de guerra - tinham sido testados e abandonados. Da mesma forma
que o desconjuntado campo de concentração do arquipélago de Solovetsky se
tornara a rede de campos conhecida como Slon, o terror aleatório dos primeiros
anos da URSS amainara, sendo substituído por uma perseguição mais sistemática
àqueles que o regime considerava seus opositores.