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Gulag   Anne Applebaum

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Central dos Campos de
Trabalho Correcional e das Colônias de Trabalho. Esse título canhestro acabaria
sendo encurtado para Administração Central dos Campos, ou, em russo, Glavnoe
Upravlenie Lagerei. Donde o acrônimo pelo qual o departamento, e por fim o
próprio sistema, seria conhecido: Gulag.{236}
Desde que os campos de concentração soviéticos surgiram em larga escala, seus
detentos e seus cronistas discutem os motivos por trás da criação desses
estabelecimentos. Será que apareceram por acaso, como efeito colateral da
coletivização, da industrialização e de outros processos que ocorriam no país? Ou
será que Stalin tramou o crescimento do Gulag com cuidado, planejando de
antemão prender milhões de pessoas?
No passado, alguns historiadores afirmaram que não havia nenhum grande
projeto subjacente à fundação dos campos. Um desses historiadores, James
Harris, argumentou que líderes locais, e não burocratas moscovitas, deram o
impulso para que se construíssem novos campos na região dos Urais. Estando
obrigadas a cumprir as exigências impossíveis do Plano Qüinqüenal, por um lado,
e enfrentando grave escassez de mão-de-obra, por outro, as autoridades dali
aceleraram o ritmo e a crueldade da coletivização para achar a quadratura do
círculo: toda vez que tiravam um kulak das terras dele, criavam mais um
trabalhador escravo.{237} Outro historiador, Michael Jakobson, concluiu,
seguindo vim pensamento semelhante, que as origens do sistema prisional
soviético tinham sido "banais":
Os burocratas perseguiam metas inalcançáveis de auto-sustentabilidade
das prisões e de reabilitação dos presos. As autoridades queriam mão-de-
obra e fundos, expandiam suas burocracias e tentavam cumprir metas
irreais. Os administradores e carcereiros aplicavam regras e
regulamentos. Os teóricos racionalizavam e justificavam. Depois tudo
acabava revertido, modificado ou abandonado.{238}
De fato, se as origens do Gulag houvessem sido acidentais, isso não teria sido
surpreendente. Durante toda a primeira metade da década de 1930, a liderança
soviética em geral, e Stalin em particular, mudava constantemente de rumo,
implementava políticas e então as revertia, fazendo pronunciamentos públicos
para ocultar propositalmente a verdade. Quando se lê a história daquela era, não
é fácil detectar um grandioso plano maligno que tenha sido concebido por Stalin
ou por quem quer que fosse.{239} Um exemplo: o próprio Stalin lançou a
coletivização e então, assim parece, mudou de idéia, em março de 1930, quando
atacou autoridades rurais excessivamente zelosas que estavam "embriagadas
pelo sucesso". (Qualquer que tenha sido a intenção desse pronunciamento, ele
teve pouco efeito prático, e a destruição dos kulaks continuou na mesma marcha
durante anos.)
No começo, os burocratas e os secretas da OGPU que planejaram a expansão do
Gulag também não parecem ter sido mais claros no que se refere a seus
objetivos finais. A própria Comissão Yanson tomou decisões e depois as reverteu.
A OGPU também executava políticas que pareciam contraditórias. Durante todos
os anos 1930, por exemplo, ela com freqüência decretou anistias, destinadas a
acabar com a superlotação nas prisões e campos. Invariavelmente, as anistias
eram seguidas de novas ondas de repressão, e novas ondas de construção de
campos, como se Stalin e seus sequazes nunca soubessem ao certo se queriam ou
não que o sistema crescesse - ou como se diferentes pessoas estivessem dando
diferentes ordens em diferentes momentos.
De modo semelhante, o sistema de campos passaria por muitos ciclos: ora mais
repressivo, ora menos, ora mais repressivo de novo. Mesmo depois de 1929,
quando os campos já haviam sido colocados firmemente no rumo da eficiência
econômica, subsistiam algumas anomalias no sistema. Em 1937, por exemplo,
muitos presos políticos ainda eram mantidos em celas, explicitamente proibidos
de trabalhar - uma prática que pareceria contradizer o impulso geral de
eficiência.{240} Diversas mudanças burocráticas tampouco eram lá muito
significativas. Embora a divisão formal entre campos da polícia secreta e
campos da polícia comum tenha mesmo chegado ao fim na década de 1930
continuou a haver uma divisão residual entre os campos, que supostamente se
destinavam aos criminosos e elementos políticos mais perigosos, e as "colônias",
que seriam para os contraventores com penas mais curtas. Na prática, porém, a
organização do trabalho, da alimentação e do cotidiano era muito parecida tanto
nos campos quanto nas colônias.
E no entanto... Hoje, há também um consenso crescente de que o próprio Stalin
tinha, se não um plano cuidadosamente preparado, pelo menos uma crença
muito grande nas enormes vantagens da mão-de-obra prisional, crença em que
ele se manteve até o fim da vida. Por quê?
Alguns, como Ivan Chukhin - historiador do sistema inicial de campos e ex-
membro da polícia secreta - especulam que Stalin fomentou as primeiras e
superambiciosas obras de construção dos campos para reforçar seu prestígio
pessoal. Na época, ele ainda estava apenas surgindo como líder do país, após
uma longa e renhida luta pelo poder. Talvez tenha imaginado que novas façanhas
na frente industrial, realizadas com uso da mão-de-obra escrava do sistema
prisional, o ajudassem a consolidar sua autoridade.{241}
Stalin pode também ter-se inspirado em precedentes históricos mais antigos.
Robert Tucker, entre outros, já demonstrou fartamente o interesse obsessivo de
Stalin por Pedro, o Grande - mais um governante russo que empregou de
maneira maciça a mão-de-obra de servos e condenados para realizar enormes
feitos de engenharia e construção. Em 1928, num discurso ao plenário do Comitê
Central, feito justamente quando se preparava para lançar seu programa
industrial, Stalin observou com admiração:
Quando Pedro, o Grande, fazendo negócios com os países do Ocidente, mais
avançados, freneticamente construía fábricas para suprir o Exército e fortalecer
as defesas do país, tratava-se de um esforço especial para dar um salto à frente e
livrar-se das restrições do atraso.{242}
O grifo é meu, para enfatizar o vínculo entre a "Grande Guinada" de Stalin e as
políticas de seu antecessor setecentista. Na tradição histórica russa, Pedro é
lembrado como líder tão grande quanto cruel, e não se acha que isso constitua
contradição. Afinal, ninguém recorda quantos servos morreram durante a
construção de São Petersburgo mas todo o mundo admira a beleza da cidade.
Stalin pode muito bem ter levado a peito o exemplo de Pedro.
Entretanto, o interesse de Stalin em campos de concentração nem precisa ter tido
uma causa racional: o fato de ser obcecado por gigantescos programas de obras
e por turmas de galés mourejadores se relacionava, de algum modo, a seu tipo
especial de loucura megalomaníaca. Certa vez, Mussolini disse de Lênin que este
era "um artista que trabalhou os homens como outros trabalharam o mármore ou
o metal".{243} Talvez a descrição se aplicasse melhor a Stalin, que gostava
mesmo de ver grande número de corpos humanos marcharem ou dançarem em
perfeita sincronia.{244} Ficava encantado com o balé, com as exibições
orquestradas de ginástica e com os desfiles em que apareciam gigantescas
pirâmides construídas de figuras humanas anônimas e contorcidas.{245} Ele,
assim como Hitler, também era obcecado pelo cinema, em especial pelos
musicais de Hollywood, com seus enormes elencos de cantores e dançarinos em
uníssono. É possível que ele tenha fruído um prazer diferente, mas correlato, ante
o espetáculo das vastas turmas de presos que escavavam canais e construíam
ferrovias a uma ordem sua.
Qualquer que tenha sido a inspiração dele, política, histórica ou psicológica, fica
claro que, desde os primeiros tempos do Gulag, Stalin demonstrou profundo
interesse pessoal pelos campos e exerceu enorme influência no desenvolvimento
destes. Um exemplo: a decisão crucial de transferir todos os campos e prisões
para a OGPU,