A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
782 pág.
Gulag   Anne Applebaum

Pré-visualização | Página 35 de 50

de presos, primeiro uma vez por mês e depois uma
vez por semana, durante toda a "temporada" de 1930. Ao final do primeiro ano
da expedição, o número de presos aumentara para quase mil.
Apesar do planejamento prévio, as condições naqueles primeiros tempos, tanto
para os presos quanto para os degredados, eram horrendas, como o eram em
toda a parte. A maioria tinha de viver em tendas pois não havia barracões.
Tampouco havia roupas e botas de inverno suficientes, e a comida estava longe
de ser bastante. Chegavam farinha e carne em quantidades menores do que
haviam sido pedidas, e o mesmo acontecia com os remédios. O número de
presos doentes e enfraquecidos aumentou, como reconheceram os líderes da
expedição num relatório que enviaram depois. O isolamento não era menos
difícil de suportar. Esses novos campos ficavam tão longe da civilização - tão
longe de estradas, para nem falarmos de ferrovias -, que não se usou arame
farpado em Komi até 1937. Fugir era considerado inútil.
No entanto, continuavam chegando presos, e expedições suplementares
continuavam partindo do acampamento-base em Ukhta. Se tivesse sucesso, cada
uma delas fundava, por sua vez, outro acampamento-base (lagpunkt), às vezes
em lugares que eram bastante remotos, a vários dias ou semanas de caminhada
de Ukhta. A partir dali, estabeleciam-se novos subcampos, para construir estradas
ou fazendas coletivas que atendessem às necessidades dos presos. Dessa forma,
os campos se espalharam com rapidez, como erva daninha, pelas florestas vazias
de Komi.
Algumas das expedições se mostraram apenas temporárias. Foi esse o destino de
uma das primeiras, que, no verão de 1930, partiu de Ukhta para a ilha de
Vaigach, no oceano Ártico. Expedições geológicas anteriores já haviam
encontrado depósitos de chumbo e zinco na ilha, embora a Expedição Vaigach,
como viria a ser conhecida, também estivesse bem suprida de presos-geólogos.
Alguns destes tiveram desempenho tão exemplar que a OGPU os recompensou:
receberam permissão para trazer as esposas e filhos para ficar com eles em
Vaigach. O lugar era tão remoto que os comandantes do campo pareciam não se
preocupar com fugas e permitiam que os presos andassem por onde quisessem,
na companhia de outros condenados ou de trabalhadores livres, sem necessidade
de permissões ou passes especiais. A fim de encorajar o "trabalho-padrão no
Ártico", Matvei Berman, então o chefe do Gulag, concedeu aos presos de
Vaigach dois dias comutados das penas para cada dia de trabalho.{314} Em
1934, porém, a mina se encheu de água, e no ano seguinte a OGPU retirou da
ilha os presos e o equipamento.{315}
Outras expedições se revelariam mais permanentes. Em 1931, um grupo de 23
partiu de Ukhta para o norte, pelos rios do interior, a fim de iniciar as escavações
numa enorme jazida de carvão - a bacia carbonífera de Vorkuta -, que, no ano
anterior, fora descoberta na tundra ártica do norte de Komi. Como em todas
essas expedições, os geólogos mostraram o caminho, os presos tripularam os
barcos, e um pequeno contingente da OGPU comandou a operação, remando e
marchando através dos enxames de insetos que habitam a tundra nos meses de
verão Passaram as primeiras noites em campo aberto; depois, de algum modo
montaram acampamento, sobreviveram ao inverno e construíram, na primavera
seguinte, uma minara Rudnik 1.
Ukhtpechlag, República Komi, 1937
 
A rota da Expedição Ukhtinskay a, República Komi, 1929
Usando picaretas, pás e carroças de madeira, sem nenhum equipamento
mecanizado, os presos começaram a extrair carvão. Em apenas seis anos, a
Rudnik 1 cresceria até se tornar a cidade de Vorkuta e a sede do Vorkutlag, um
dos maiores e mais duros campos de todo o sistema Gulag. Em 1938, o Vorkutlag
já contava 15 mil presos e produzira 188.206 toneladas de carvão.{316}
Em termos estritos, nem todos os novos habitantes de Komi eram presos. A partir
de 1929, as autoridades também começaram a enviar "degredados especiais"
para a região. De início, eram quase todos kulaks, que chegavam com as
mulheres e filhos, e esperava-se que começassem a viver da terra. O próprio
Yagoda declarara que se deveria conceder aos degredados "tempo livre" para
que cultivassem hortas, criassem porcos, pescassem e construíssem suas casas:
"De início, viverão das rações de nosso campo; depois, à própria custa".{317} Na
realidade, embora tudo isso pareça bem róseo, quase 5 mil dessas famílias de
degredados (mais de 16 mil pessoas) chegaram em 1930 e, como de hábito, não
encontraram quase nada. Até novembro daquele ano, construíram-se 268
barracões, quando pelo menos setecentos teriam sido necessários. Três ou quatro
famílias dividiam cada cômodo. Não havia quantidade suficiente nem de
comida, nem de roupas, nem de botas de inverno. As aldeias dos degredados não
tinham banhos, estradas, serviços postais nem cabos telefônicos.{318}
Embora alguns tenham morrido e muitos outros tenham tentado fugir (344 já no
final de julho), os degredados de Komi se tornaram extensão permanente do
sistema de campos da região. Posteriormente, ondas repressivas levaram mais
deles para lá, em especial poloneses e alemães. Donde as referências locais a
algumas das aldeias de Komi como "Berlim". Os degredados não viviam
cercados pelo arame farpado, mas tinham as mesmas tarefas que os presos, às
vezes nos mesmos lugares. Em 1940, um campo madeireiro foi transformado
em aldeia de degredo - prova de que, de certa maneira, os dois grupos eram
intercambiáveis. Muitos degredados também acabariam trabalhando como
guardas ou administradores dos campos.{319}
Com o tempo, esse crescimento geográfico se refletiria na nomenclatura dos
campos. Em 1931, a Expedição Ukhtinskay a foi rebatizada Campo de Trabalho
Correcional Ukhto-Pechorsky, ou Ukhtpechlag. Ao longo das duas décadas
subseqüentes, o próprio Ukhtpechlag seria rebatizado (e reorganizado e dividido)
muitas vezes mais, para refletir sua geografia mutável e seu império e
burocracia crescentes. Aliás, no final da década, o Ukhtpechlag não seria mais
um mero campo prisional. Ele dera origem a toda uma rede de campos, duas
dúzias ao todo, incluindo o Ukhtpechlag e o Ukhtizhemlag (petróleo e carvão), o
Ustvy mlag (madeira), Vorkuta e Inta (mineração de carvão) e o Sevzheldorlag
(ferrovia).{320}
No decorrer dos anos seguintes, o Ukhtpechlag e seus descendentes também se
tornaram mais densos, adquirindo novas instituições e novos edifícios de acordo
com suas necessidades sempre maiores. Precisando de hospitais, os
administradores dos campos os construíam e ainda implantavam sistemas para
treinar presos como farmacêuticos e enfermeiros. Precisando de comida,
estabeleciam suas fazendas coletivas, seus armazéns e seus sistemas de
distribuição. Precisando de eletricidade, instalavam usinas de força. Precisando
de material de construção, criavam olarias.
Precisando de trabalhadores qualificados, treinaram os que tinham. Boa parte da
mão-de-obra que fora kulak era analfabeta ou semi-alfabetizada, o que
acarretava enormes problemas quando se lidava com projetos de relativa
complexidade técnica. Assim, a administração montou escolas técnicas, que por
sua vez exigiam novos edifícios e novos quadros: professores de matemática e
física, bem como "instrutores políticos" para supervisionar o trabalho desses
docentes.{321} Na década de 1940, Vorkuta - uma cidade construída sobre o
permafrost, onde todo ano as estradas tinham que ser repavimentadas e as
tubulações, consertadas - já ganhara um instituto geológico, uma universidade,
teatros e cinemas, teatros de marionetes, piscinas e creches.
No entanto, se a expansão do Ukhtpechlag não era muito divulgada, tampouco se
fazia a esmo. Sem dúvida, os comandantes do campo desejavam que o projeto
crescesse, e seu prestígio pessoal junto com ele. A necessidade premente, e não o
planejamento central levava à criação de muitos novos departamentos no
campo. Mas havia clara simbiose