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Gulag   Anne Applebaum

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de cavalos, com seus dedos sujos
cutucando dentro da boca de Innokenty, esticando uma bochecha e depois
a outra, puxando para baixo as pálpebras inferiores, o carcereiro se
convenceu de que não havia nada escondido nos olhos nem na boca;
empurrou a cabeça para trás, de modo que as narinas ficaram
iluminadas; em seguida, examinou ambas as orelhas, puxando-as para
trás, e mandou Innokenty esticar as mãos, para mostrar que não havia
nada entre os dedos, e balançar os braços, para mostrar que não havia
nada sob as axilas. No mesmo tom monótono e peremptório, ordenou:
"Pegue o pênis na mão. Puxe o prepúcio. Mais. Certo, já basta. Mova o
pênis do alto para a direita, do alto para a esquerda. Certo, pode largar.
Fique de costas para mim. Abra bem as pernas. Mais. Incline-se e toque o
chão. Com as pernas mais abertas. Abra as nádegas com as mãos. Certo.
Agora, de cócoras. Depressa! De novo!"
Tendo cogitado sobre a detenção antes de ocorrida, Innokenty se
imaginara num duelo de obstinação até a morte. Para tanto estava
preparado, pronto para uma defesa íntegra de sua vida e de suas
convicções. Nunca presumira algo tão simples, tão deprimente e tão
imperioso como aquela realidade. As pessoas que o haviam recepcionado
eram mesquinhas - pequenas autoridades, tão desinteressadas em sua
personalidade quanto no que ele fizera.{464}
Para as mulheres, o choque de tais revistas podia ser pior. Uma se recordaria de
que o carcereiro que fazia a revista
tirou nossos sutiãs, nossas cintas-ligas e algumas outras partes de nossa
lingerie que eram essenciais a uma mulher. Seguiu-se um exame
ginecológico rápido e repulsivo. Fiquei quieta, mas senti que me privavam
de toda a dignidade humana.{465}
Em 1941, durante uma estada de doze meses na prisão Aleksandrovsky Tsentral,
a memorialista T. P. Milyutina foi revistada repetidas vezes. As mulheres das
celas eram levadas, cinco de cada vez, a uma escada sem aquecimento. Ali,
recebiam ordem de despir-se por inteiro, colocar as roupas no chão e levantar os
braços. Mãos se metiam "em nossos cabelos, nossas orelhas, debaixo de nossas
línguas, também entre nossas pernas", com as prisioneiras tanto em pé quanto
sentadas. A memorialista escreve que, após a primeira dessas revistas, "muitas
caíram em lágrimas, e muitas ficaram histéricas".{466}
Em seguida à revista, alguns presos iam para a solitária. "As primeiras horas de
prisão", continua Soljenitsin, "destinam-se a subjugar o preso isolando-o do
contato com outros detentos, para que ninguém possa animá-lo, para que sinta
que toda a força daquele aparato vasto e ramificado se exerce sobre ele, e
apenas sobre ele."{467} A cela do diplomata soviético Evgenii Gnedin, filho de
revolucionários, continha apenas uma pequena mesa, afixada ao piso, e duas
banquetas, também afixadas ao piso. A cama dobradiça na qual os presos
dormiam à noite era presa à parede. Tudo, inclusive as paredes, banquetas, cama
e teto, era pintado de azul-claro. "Tinha-se a impressão de estar dentro de um
camarote esquisito de navio", escreveria Gnedin em suas memórias.{468}
Durante as primeiras horas de detenção, ou mesmo por alguns dias, também era
bastante comum ser posto (a exemplo do que aconteceu a Alexander Dolgun)
num bok, uma cela "de mais ou menos 1,20 por 0,90 metro; uma caixa vazia com
um banco comprido".{469} O cirurgião polonês Isaac Vogelfanger viu-se numa
cela com janelas abertas no meio do inverno.{470} Outros, corno Lyubov
Bershadskaya - uma sobrevivente que depois ajudaria a liderar uma greve de
presos em Vorkuta -, ficavam isolados durante todo o período de interrogatório.
Ly ubov passou nove meses na solitária e escreveu que até ansiava por ser
interrogada, só para ter alguém com quem falar.{471}
Contudo, para o recém-chegado, uma cela superlotada podia ser ainda mais
horripilante. Na descrição de Olga Adamova-Sliozberg, sua primeira cela parece
um quadro de Hieronymus Bosch:
A cela era enorme. As paredes abobadadas pingavam. De ambos os
lados, deixando apenas uma passagem estreita, havia pranchas baixas que
serviam de camas e estavam apinhadas de corpos. Por cima, em varais,
secavam andrajos diversos. O ar se espessava com a fumaça nojenta de
fumo forte e barato e se enchia com o alarido de bate-bocas, gritos e
soluços.{472}
Outro memorialista também procurou exprimir a sensação de susto:
Era uma visão tão terrível, homens de cabelo comprido, barbados, o
cheiro de suor, nenhum lugar para sentar ou descansar. É preciso usar a
imaginação para tentar compreender o tipo de lugar em que eu estava.
{473}
A finlandesa Aino Kuusinen, mulher de Oleg Kuusinen (o líder do Comintern),
acreditava que, na primeira noite, fora proposital-mente colocada onde pudesse
ouvir os presos que iam sendo interrogados:
Mesmo hoje, passados trinta anos, mal consigo descrever o horror
daquela primeira noite na Lefortovo [prisão moscovita que leva o nome
do bairro onde fica]. De minha cela, dava para ouvir todo e qualquer
ruído que se fazia do lado de fora. Depois descobri que, perto dela, ficava
o "departamento de interrogatórios", uma estrutura separada que, na
realidade, era uma sala de torturas. Durante toda a noite, escutei urros
atrozes e o repetido som de chibata. Um animal desesperado e torturado
dificilmente produziria berros tão medonhos quanto os das vítimas que,
durante horas, eram atingidas por ameaças, golpes e xingamentos.{474}
Mas, não importando onde se encontrassem na primeira noite de detenção - fosse
numa antiga cadeia czarista, fosse num xadrez de estação ferroviária, fosse
numa igreja ou num mosteiro adaptados -, todos os presos encaravam uma
tarefa urgente e imediata: recuperar-se do susto, ajustar-se às regras específicas
da vida prisional - e lidar com o interrogatório. A velocidade com que
conseguissem fazer essas coisas ajudaria a determinar quão bem, ou quão mal,
eles se sairiam ali na detenção e, por fim, nos campos. 
De todas as etapas pelas quais os presos passavam no caminho para o gulag, o
interrogatório talvez seja aquela com a qual os ocidentais estão mais
familiarizados. Descreveram-se interrogatórios não apenas nos livros de história,
mas também na literatura do Ocidente (por exemplo. no clássico Do zero ao
infinito, de Arthur Koestler), em filmes de guerra e em outras formas de cultura
popular ou elevada. A Gestapo, assim como a Inquisição espanhola, contava com
interrogadores tristemente célebres. Suas táticas entraram para o imaginário
popular. "Temos meios de fazê-lo falar" é uma frase que as crianças ainda usam
quando brincam de guerra.
É claro que interrogatórios de presos também ocorrem em sociedades
democráticas e respeitadoras do Estado de direito, às vezes seguindo a lei, às
vezes não. A pressão psicológica e até a tortura estão longe de ser exclusivas da
URSS. A dobradinha "polícia bonzinho e polícia malvado" (na qual o primeiro,
simpático e cortês, faz perguntas e se alterna com o segundo, irado) se
incorporou não apenas a vários idiomas, mas também a manuais de polícia
americanos (hoje ultrapassados). Durante interrogatório, em uma ou outra
época, presos se viram pressionados em muitos países, quando não na maioria
deles; aliás, tal pressão levou a Suprema Corte dos Estados Unidos, no caso
Miranda versus Arizona (1966), a determinar que os suspeitos de atos criminosos
devem ser informados, entre outras coisas, de seu direito a permanecer calados e
contatar advogado.{475}
Ainda assim, as "investigações" realizadas pela polícia secreta soviética eram
únicas, se não nos métodos, pelo menos no caráter "maciço". Em alguns
períodos, os "casos" envolviam rotineiramente centenas de pessoas, que eram
capturadas em toda a URSS. Típico de sua época era um relatório elaborado pelo
departamento regional da NKVD em Orenburg sobre "Providências operacionais
para a liquidação de grupos clandestinos de trotskistas e bukharinistas, assim como
de outros grupos contra-revolucionários,