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A Ira dos Justos   Manel Loureiro Doval

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orgulhosos
de sua cidade por três coisas: os Marlins, sua Feira da Abóbora e por ser uma das
bases permanentes dos Sea Bees. Os Sea Bees faziam parte do Corpo de
Engenheiros do Exército dos Estados Unidos desde os anos 1940. Haviam
ganhado o apelido por conta do trabalho titânico que tinham realizado na Segunda
Guerra Mundial, montando, praticamente do nada, bases e pistas de
aterrissagem, em qualquer atol do Pacífico onde fosse necessário, até derrotar o
Japão. Após a guerra, o corpo continuara crescendo e dotando-se de mais e
melhores recursos, até se transformar em uma das unidades mais curiosas do
exército americano. Seus homens possivelmente jamais ganhariam um concurso
de tiro (de fato, a maioria nem saberia segurar direito um rifle), porém, eram
capazes de montar a infraestrutura que fosse necessária em qualquer lugar do
mundo. E Gulfport era seu lar. Quando a praga se espalhou, metade do pessoal da
base estava no Afeganistão organizando uma rota de abastecimento até Cabul.
 Planejou-se sua repatriação urgente, mas escasseavam lugares nos aviões
naquele momento, e as unidades de combate, na situação de o mundo inteiro
afundar no caos, tinham preferência.
A verdade é que os aviões que deviam ir buscá-los jamais decolaram. Se restava
algum deles vivo, com certeza estaria perdido em uma montanha afegã, fugindo
dos talibãs, dos não mortos ou, o mais provável, das duas coisas. A outra metade
foi deslocada, em caráter urgente, para as principais cidades do país, para
colaborar na construção apressada da infraestrutura das Áreas Seguras. E não
seria necessária muita imaginação para adivinhar qual havia sido seu triste
destino. De modo que, quando Stan Morgan, prefeito de Gulfport, se associou
àquele pregador encardido que se esgoelava na periferia da cidade, na base dos
Sea Bees de Gulfport, restavam apenas duas dúzias de militares responsáveis pela
manutenção. Porém, havia material, enormes montanhas de material,
acumulado pacientemente por décadas. Stan Morgan podia ser um sujeito
teimoso e ambicioso (além de sistematicamente infiel a sua mulher havia mais
de vinte anos e curiosamente afeito a fotos de crianças asiáticas menores de treze
anos), mas, principalmente, era um sujeito esperto e engenhoso. Quando voltou
da Guerra do Vietnã, pobre como um rato, viu a oportunidade que o incipiente
mercado imobiliário representava. Promoções Imobiliárias Morgan foi seu passo
seguinte, e em menos de dois anos havia se transformado em um dos moradores
mais ricos de Gulfport. Quando Stan viu, pelo hesitante sinal da CNN, que os não
mortos estavam começando a arrasar as Áreas Seguras, percebeu que a única
possibilidade de proteger sua cidade não era defendê-la a tiros, como se fazia no
resto do país, mas criar um obstáculo em volta dela, um obstáculo tão grande e
formidável que nem sequer uma maré de não mortos pudesse atravessá-lo. E
então lembrou-se dos depósitos dos Sea Bees. O resto foi fácil. Não havia
ninguém nos armazéns militares, e milhares de toneladas de aço e cimento
esperavam pacientemente que alguém os usasse. Desde a devastação causada
 pelo Katrina, os Sea Bees haviam tido tempo para pensar num modo de evitar
que os rios transbordassem e as inundações arrasassem de novo campos e
cidades. Seus engenheiros haviam desenvolvido um engenhoso sistema para
criar diques de contenção à base de varinhas de metal e cimento Portland
modificado. Chamava-se Unidade Móvel de Criação de Diques de Contenção
Autofabricados. Os soldados da base, mais irreverentes, batizaram-na de
Cagamuros. O Cagamuros era um monstro horrível, um veículo que parecia
fruto de uma noite de loucuras entre um caminhão caçamba e uma locomotiva.
Podia fabricar um módulo de cimento de três metros de altura por dois metros e
meio de comprimento no impressionante tempo de quinze minutos, e o melhor
era que o muro já saía meio endurecido. Menos de vinte e quatro horas depois de
ter sido depositado em seu lugar pelo Cagamuros, o módulo era uma parede de
cimento rochosa e dura, como tivesse sido colocada ali havia anos. E na base de
Gulfport existiam nada menos que vinte Cagamuros. Os operários de Stan,
trabalhadores com muitos anos de experiência em construção, não demoraram
mais de seis horas a aprender a manejar aqueles monstros (com a impagável
ajuda dos manuais e de um dos técnicos que felizmente ainda permanecia na
base), e em mais seis os vinte Cagamuros estavam traçando um enorme
perímetro de aço e cimento em volta de toda a cidade.
Assim, em apenas setenta e duas horas, Gulfport estava totalmente cercada por
uma sólida muralha de concreto de três metros de altura, totalmente
infranqueável para qualquer não morto. Era tosca, feia, cinza e parecia a irmã
bastarda do Muro de Berlim, mas cumpria perfeitamente sua missão: vivos
dentro e não mortos fora. E esse, para Stan Morgan, era o objetivo. Além do
Muro, os habitantes de Gulfport contavam com vários fatores adicionais que
ajudavam a defender sua vida. O sul de Mississípi não era um lugar
excessivamente habitado, e embora a região fosse bastante plana, muitas partes
estavam cobertas por pântanos e lodaçais tão impenetráveis que nem mesmo um
não morto com muita força de vontade poderia cruzá-los. Strangãrd ia nos
explicando tudo isso enquanto os Hummers percorriam as ruas da cidade a toda
a velocidade. A bandeirola verde que ondulava no capô do carro que abria a
marcha parecia nos dotar de um poder especial para evitar as normas de trânsito,
pois não diminuíamos a velocidade nem mesmo quando passávamos por um
cruzamento, apesar de haver bastante trânsito. Quase não podíamos acreditar no
que víamos. A cidade tinha um aspecto normal, extraordinariamente tranquilo e
próspero. As pessoas passeavam pelas ruas, limpas e arrumadas, e quando se
cruzavam paravam para se cumprimentar e conversar, rindo e brincando como
se o inferno jamais houvesse caído sobre a Terra. As lojas estavam abertas, os
jardins limpos e cuidados e, para minha surpresa, até os cafés e restaurantes
estavam funcionando com total normalidade. Tudo era limpo, impecável, bonito
e perfeito. Exceto pelo pequeno detalhe de que só se viam pessoas de raça
branca, não importa para onde se olhasse. — Isto... parece... balbuciei, tentando
digerir a cena. — É incrível, não é? — disse Strangãrd com um meio sorriso.
— É como o cenário de um seriado de tevê. Este lugar já era um bairro
residencial branco de qualidade antes do Apocalipse, mas agora o é mais que
nunca. A maioria das pessoas que vocês veem é de aposentados, profissionais
liberais com suas famílias ou divorciados ricos que fugiam da vida estressante de
Biloxi para vir morar aqui e que tiveram a sorte de assistir à derrocada final do
lado bom dessa parede de cimento. Franziu a expressão em uma careta. — E
agora são o germe da sociedade do futuro. Engraçado, não é? Se era engraçado,
eu não conseguia achar graça. Todas as pessoas que eu via, jovens, adultos e
velhos, tinham um aspecto próspero, saudável de gente bem alimentada, a anos-
luz do aspecto famélico e depauperado dos sobreviventes de Tenerife. Claro que
em Gulfport não devia haver mais de trinta mil pessoas, chutando alto, ao passo
que em Tenerife amontoavam-se vários milhões de refugiados chegados de toda
a Europa, que haviam levado a capacidade de abastecimento da ilha ao limite.
Mas não era só isso. Todas aquelas pessoas tinham um aspecto descontraído e
displicente, muito longe do espírito fatalista e atemorizado que tinham aqueles
que haviam enfrentado pessoalmente a fome, a destruição e os não mortos
durante algum tempo. Tinham cara de gente de bem, que havia dado um jeito
para continuar dentro de sua Arcádia feliz enquanto o resto do planeta escorria
pelo ralo de Satanás. — Há uma coisa que não entendo — eu disse. — Como é
possível que essa gente tão... tão... clássica tenha aceitado como guardiões da lei
e da ordem esses sujeitos durões? Apontei para Malachy Grapes