A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
259 pág.
A Ira dos Justos   Manel Loureiro Doval

Pré-visualização | Página 27 de 50

para Stan
Morgan aquela ideia desceu como um trago amargo.
Não gostava de perder a iniciativa, e tinha a sensação de que o estavam deixando
de lado. — Não quero nem uma queixa dos moradores. Nada de roubar, saquear
ou destruir.
Simplesmente acabem com esses monstros e voltem aqui. Combinado? Como
quiser, patrão — murmurou Grapes em tom irônico, fazendo um gesto para
reunir seus homens.
— Vamos, rapazes! Temos que chutar algumas bundas! Menos de dez minutos
depois estavam na entrada do bairro de Bluefont. A urbanização, composta por
umas trezentas casas, ficava do outro lado de um profundo canal que desaguava
nas marismas próximas, e só podia ser atravessado por duas pontes. A do lado sul,
onde se encontravam, estava guardada pelo ajudante do xerife, um rapaz com
pinta de ter saído do colégio na semana anterior e por um punhado de
cinquentões armados com fuzis de caça, com cara de quem está prestes a cagar
nas calças. — Os não mortos entraram pela ponte norte — disse um deles. — O
Muro ainda não está fechado desse lado, e eles entraram. Ted Krumble e seus
rapazes deviam estar vigiando a ponte, mas não sei que diabos aconteceu.
Estamos chamando pelo rádio há uma hora e não respondem. Ouvimos tiros e
uma explosão, mas não sabemos de mais nada. Grapes assentiu, circunspecto. —
Quem são esses... como os chamaram? Não mortos?— perguntou. Os demais
olharam para ele alucinados.
Constrangido, Malachy lhes explicou que não chegavam muitos jornais à cadeia,
e ele não tinha nem ideia do que estava acontecendo. Rapidamente informaram-
no de tudo. O ariano digeriu a informação com tranquilidade. Não que não
acreditasse naqueles velhos assustados, mas tinha certeza de que a coisa não era
para tanto. Se eram só sujeitos com raiva, ou algo do tipo, não teriam nenhum
problema. Não havia nada que não se curasse com uma injeção de chumbo de
sete gramas.
— Dizem pelo rádio que se deve atirar na cabeça — disse um dos moradores
com voz assustada.
— Vou me lembrar de seu conselho — replicou Grapes, enquanto atravessava a
ponte a passo ligeiro, seguido de seus homens. Ao chegar do outro lado logo
percebeu que alguma coisa não andava bem. Bluefont era uma típica
urbanização de periferia americana, formada por uma série de casas com
jardim, onde os brancos ricos iam morar assim que tinham oportunidade. Mas, à
medida que avançavam, não se via ninguém nas ruas. Em uma calçada, um
cortador de grama tombado de lado continuava funcionando. A cestinha havia se
soltado e a grama recém-cortada se espalhava pela calçada ao compasso de
uma suave brisa.
pequeno Subaru estava parado no meio da rua, com o motor ligado e todas as
portas abertas. Grapes se aproximou com cuidado e colocou o braço dentro do
carro. Girou a chave de contato e desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi
realmente aterrador. Só se ouviam alguns vagos gemidos, provenientes de algum
lugar ao norte, a pouca distância. — Trent, leve Bonder, Kim e mais três e
cubram essas casas. Os outros, formem grupos de três e vão entrando de casa
em casa para se assegurar de que estão vazias. Se alguém roubar alguma coisa,
nem que seja uma caneta, vou lhe arrancar os colhões a dentadas. Fui claro?
Os arianos assentiram, obedientes, e dividiram-se em grupos. Grapes continuou
avançando pelo meio da rua, com todos os sentidos em alerta. Atrás dele
caminhavam mais três arianos, Seth Fretzen, um sujeito pequeno e silencioso
chamado Crupps e um gordo de barba que chamavam de Sweet Pussy, só Deus
sabia por quê. Ao passar diante de uma casa, parou de repente. A porta estava
aberta, só encostada, e havia uma poça de sangue fresco no chão. No batente da
porta alguém havia deixado a marca de uma mão encharcada de sangue ao se
apoiar. Uma gota escorria lentamente da mancha, traçando um sinuoso caminho
na madeira branca. Alguma coisa caiu no chão dentro da casa, despedaçando-
se. Grapes olhou para seus homens e indicou que caminhassem colados a ele em
direção à entrada. Subiu os degraus lentamente, tentando não fazer barulho, mas
eles rangeram de leve. Ao chegar à porta, empurrou-a com o cano de seu M16.
Lá dentro estava escuro e fresco. Dali ele podia ver um saguão que dava para
uma sala ao fundo. Do lado direito, uma escada para o andar superior. As
manchas de sangue salpicavam vários degraus, e quem quer que fosse fora
arrastando com seu corpo todos os quadros pendurados na parede da escada, pois
estavam no chão, espatifados. Com gestos, indicou a Seth e Crupps que subissem
as escadas. Ele, com Sweet Pussy em seus calcanhares, atravessou o saguão e
entrou na sala.
Era uma sala que dizia aos quatro ventos: "Olhe para mim, meu dono é um
sujeito podre de rico". Os móveis eram da melhor qualidade, e havia um sofá
que parecia ter sido planejado para acomodar uma dúzia de pessoas, pelo
menos. Na parede, uma tevê monstruosa, e os tapetes eram tão grossos que se
uma moeda caísse neles se perderia para sempre. Sweet Pussy puxou a manga
de Grapes e apontou para o chão. Em um canto, ao lado de um enorme
aparador, um vaso estava despedaçado. Aquilo devia ser o que haviam ouvido
cair quando passavam pela frente da casa.
Alguma coisa soou dentro da cozinha. Evitando pisar nos pedaços quebrados do
vaso, Grapes foi se aproximando lentamente da porta. E ali parou, atônito. Uma
garota de vinte e poucos anos, alta, magra, de corpo escultural, usando apenas
com urna minúscula tanga, balançava-se no meio do aposento, com o olhar
perdido. Está totalmente chapada, foi a primeira coisa que Grapes pensou,
tentando afastar o olhar dos seios operados da garota. O cabelo louro e liso caía
sobre a metade de seu rosto, ocultando sua expressão, e ela não parecia ter
notado que os dois homens haviam entrado ali. Alguma coisa não está certa aqui.
Seu cérebro lançava sinais de alarme para todo lado, mas ele não conseguia
localizar a peça que não se encaixava. Sweet Pussy entrou atrás dele e, ao ver a
garota nua, arregalou os olhos. — Caralho! Olá, linda!
— exclamou, enquanto se aproximava da garota. Você viu, Grapes? Que par de...
Tudo aconteceu em uma fração de segundo. Sweet Pussy esticou a mão para os
peitos da garota (estão cobertos de veias, de veias estouradas) com um brilho
luxurioso no olhar. A garota levantou a cabeça (os olhos, os olhos estão mortos,
caralho), e antes que ele tivesse tempo de reagir cravou os dentes no pescoço de
Sweet Pussy. O bandido soltou um rugido de surpresa, afastando a garota com
um empurrão. Com a culatra da arma, bateu na cabeça dela, arrebentando sua
boca. Grapes observou, fascinado, que em vez de cair como um pedaço de
chumbo, a garota voava de novo para cima de Sweet Pussy, como se nada
houvesse acontecido. Para Sweet Pussy, as coisas se complicaram a seguir. Ele
tentou acertar a garota de novo, mas a mordida havia cortado sua carótida, e,
embora ele ainda não soubesse, seu cérebro já estava morrendo por falta de
irrigação. Tonto, deu um golpe frouxo e desviado, mas não pôde evitar que a
garota se jogasse de novo para cima dele. Ambos rolaram pelo chão, arrastando
na queda uma montanha de pratos, que se quebraram com estrondo. Com um
empurrão, conseguiu afastá-la alguns metros e atirou na garota com seu M16. As
balas de ponta oca estouraram ao impacto contra o corpo da garota, abrindo um
enorme buraco em seu abdome. O impulso do tiro a projetou contra a parede
com violência. Seu corpo bateu com força e foi escorregando lentamente,
enquanto seus intestinos começavam a se espalhar. — Grapes... — gorgolejou
Sweet Pussy no chão, levando a mão ao pescoço. — Grapes... preciso... de
ajuda. Grapes o observou, sabendo que estava condenado. O sangue brotava em
jatos regulares, enquanto seu coração continuava bombeando sem parar,
tentando alimentar um cérebro que morria irreparavelmente. A luz da vida fugia
dos olhos de Sweet Pussy, mas Grapes não lhe prestou atenção. Porque a garota
nua havia se levantado de novo! Com um gemido