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A Ira dos Justos   Manel Loureiro Doval

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observei o ucraniano. Mal havia envelhecido nos dois anos
que tinham se passado desde que nos conhecêramos, e, exceto por aqueles dedos
perdidos da mão direita e algumas rugas em volta dos olhos, continuava sendo o
mesmo indivíduo rabugento e meio louco que havia me acompanhado nas ruínas
do porto de Vigo. — Obrigado, Prit — murmurei, com lágrimas nos olhos. Era
um russo meio maluco, mas mesmo assim uma das melhores pessoas que eu
havia encontrado na vida.
Passamos metade da noite falando dos velhos tempos, rindo de todas as vezes que
havíamos burlado a morte e das coisas que faríamos se um dia os não mortos
desaparecessem para sempre. Por fim adormecemos, enquanto a lenha
crepitava na lareira. Quando me levantei, Pritchenko roncava feito uma
locomotiva, deitado no sofá, com Lúculo aninhado em suas pernas. Arrastei-me
até o banheiro e tomei um longo banho de água bem quente. Ao sair, fiz a barba
e vesti um dos ternos que havia em um armário. Era um número maior que o
meu, mas me caía bastante bem. Ao me ver de terno e gravata pela primeira vez
depois de tanto tempo, eu me senti um pouco estranho.
Fui até a porta do quarto de Lucía. Estava trancada. Bati suavemente, mas ela
não respondeu. Lucía — disse junto à porta fechada. — Só quero que saiba que
lamento muito se eu disse alguma coisa que pudesse tê-la ferido ontem à noite.
Tudo o que faço é para garantir que tenhamos um futuro. Eu... Calei-me, sem
saber como seguir. Esta noite, quando eu chegar, vamos conversar de novo. E
então vamos ajeitar tudo. Te amo, meu amor.
Saí de casa sentindo um enorme vazio. Havia um lindo Lexus na garagem, com
as chaves no contato. Imaginei que estava incluído no pacote da casa; a
prefeitura ficava longe para ir andando de terno e gravata, de modo que entrei e
liguei o motor. Enquanto circulava pelas ruas vazias, percebi que era a primeira
vez em muito tempo que eu dirigia um carro sem estar fugindo de algo ou de
alguém. Apesar de tudo, de vez em quando eu me surpreendia virando a cabeça
desesperadamente ou acelerando nos pontos mais estreitos, como se temesse me
ver cercado por uma multidão de não mortos a qualquer momento. O
Apocalipse havia me modificado. Eu me perguntava se todas essas mudanças
eram boas. E se durariam para sempre.
Quando cheguei à prefeitura, a senhora Compton me esperava em meio a uma
confusão de funcionários que chegavam para trabalhar. —Bom dia disse ela. —
Espero que tenha descansado bem, porque hoje um monte de trabalho o espera.
O senhor Wilcox era encarregado da gerência do Gabinete de Hilotas
Hispânicos, mas morrera há três meses de um aneurisma enquanto jogava golfe.
O senhor Talbot, do Gabinete de Hilotas Negros, assumiu provisoriamente os dois
departamentos, mas não entende nada de espanhol, e, na verdade, acho que
deixou tudo uma bagunça. Espero que seja capaz de se achar em meio a toda
essa papelada. Papelada? — perguntei, meio confuso.
Já vai ver — respondeu a mulher. Siga-me, por aqui. A senhora Compton me
conduziu a um amplo gabinete situado no canto noroeste do edifício. Quando
abriu a porta, quase desfaleci. Havia montanhas de pastas e arquivos empilhados
em quase qualquer superfície sólida à vista, alguns deles em um equilíbrio tão
precário que ameaçavam desabar sobre nós. Anne Sue será sua secretária
particular. — A senhora Compton apontou para uma garota loura, de uns vinte e
poucos anos e expressão bovina, que me olhava com um sorrisinho nervoso de
uma mesa próxima. — Não hesite em lhe pedir qualquer coisa. Ela está aqui
para servi-lo. Após cinco minutos de papo com Anne Sue, eu me convenci de
que seria melhor não pedir àquela garota nada que fosse mais complicado que
fazer fotocópias ou me trazer um café. Embora tivesse inquestionável aspecto
ariano, o que a tornava perfeita para aquele trabalho segundo a escala de valores
de Gulfport, o Criador havia se esquecido de dotá-la de cérebro quando a
concebera. — Bem disse eu —, vamos começar classificando um pouco toda
essa montanha de papéis, para descobrir quais são os temas prioritários e os que
podem esperar. Preciso que anote o título de todas as pastas e crie um índice.
Ok?
Anne Sue olhou para mim com expressão confusa, como se eu lhe houvesse
pedido que mijasse dentro de um copo e depois o desse à senhora Compton para
beber. Até parou de mascar o chiclete que tinha na boca. Você sabe o que é um
índice, não é, Anne Sue? É um tipo de música, não? — respondeu assentindo,
muito segura de si. —Música índice. Minha prima Norma adora. — Deixa para
lá, querida — suspirei desanimado. É melhor ir buscar um café que seja um
pouco melhor que este lixo. Quando Anne Sue saiu (oh, Deus, faça que o café
seja algo muito, muito difícil de encontrar, por favor), eu me sentei no meio do
gabinete e comecei a organizar as pastas. No início foi meio confuso, mas logo
peguei a mecânica da coisa. Depois de uma hora, eu tinha três montes
claramente diferenciados em cada canto do gabinete. De um lado estavam todas
as fichas relativas às altas e baixas dentro do grupo de hilotas de origem
hispânica. Depois havia o monte referente aos abastecimentos e condições de
vida dos hilotas dentro do gueto de Bluefont; e, por último, o monte que fazia
referência ao abastecimento regular de Cladoxpan. À medida que eu classificava
 as pastas, ia fazendo uma clara imagem mental do verdadeiro funcionamento de
Gulfport. Havia vinte e três mil pessoas de raça branca morando em Gulfport, e
no bairro de Bluefont, no gueto dos hilotas, vivia a incrível quantidade de sete mil
pessoas. Um rápido cálculo me permitiu comprovar que em cada uma das
aproximadamente trezentas casas do bairro cercado vivia uma média de 25
pessoas. Isso era demais, mesmo para casas tão grandes e espaçosas como as
que se costumavam construir naquele antigo subúrbio. Bluefont ficava dentro do
Muro, mas separado do resto da cidade por um alambrado e um braço de água
só cruzado por aquela ponte onde eu havia negociado com Carlos Mendoza.
Todas as semanas, os hilotas se apresentavam na ponte sul, onde a Guarda Verde
de Greene lhes entregava o armamento necessário. Depois, saíam da cidade pela
ponte norte e se dirigiam, em expedições móveis de vários dias de duração, a
todos os núcleos de população em um raio de duzentos quilômetros, para
carregar seus caminhões com todo tipo de suprimentos para a insaciável e
opulenta Gulfport. Quando voltavam, tinham que deixar os caminhões
carregados nos armazéns da cidade, onde entregavam as armas. Em troca,
recebiam uma quantidade justa de Cladoxpan, que lhes permitia manter sua
humanidade e não se transformarem em mais um podre ambulante. Cada
 uma daquelas expedições acarretava, inevitavelmente, um determinado número
de baixas. O TSJ não representava problema algum (praticamente cem por cento
dos hilotas já estavam infectados), mas as terríveis feridas que os não mortos
causavam eram letais em muitas ocasiões.
Porém, apesar das constantes baixas, o número de hilotas se mantinha mais ou
menos estável, pois a cada certo tempo, como um gotejar constante, apareciam
indivíduos solitários ou grupos de poucas pessoas, como o meu, que chegavam a
Gulfport ou cruzavam com alguma expedição que procurava alimentos. Apesar
da certeza de ter que viver em um regime de semiescravidão se fossem negros,
índios, chicanos ou asiáticos, a possibilidade de dormir em um refúgio seguro
quase todas as noites e, principalmente, poder compartilhar seu destino com mais
gente e não ter que continuar errando sozinho era uma tentação muito grande, de
modo que a maioria acabava ficando em Bluefont. Só uns poucos escolhidos,
como Lucía, Víktor e eu, engrossávamos a população do outro lado do
alambrado. Tudo dependia da cor da pele. Apesar de tudo, o número de hilotas
era elevado, muito elevado, tendo em conta que a segurança de Gulfport estava
a cargo da Guarda Verde de Greene, composta por uns quarenta arianos e uma
milícia branca