A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
259 pág.
A Ira dos Justos   Manel Loureiro Doval

Pré-visualização | Página 38 de 50

e enferrujados de uma bicicleta
que apodrecia lentamente no alambrado. — É por aqui — disse. — Atravesse.
Lucía olhou em volta e não viu como atravessar. Já tinha passado duas vezes por
esse ponto e nada daquele lugar havia lhe chamado a atenção. A margem estava
totalmente deserta, e a beira do canal descia em um ângulo suave até a água, que
formava remoinhos em volta das pedras depositadas na margem por uma cheia.
O que tenho que fazer? — perguntou, confusa. — Mantenha-se firme e
simplesmente caminhe — replicou Alejandra, com paciência. Lucía caminhou
para a beira do canal, até o ponto onde a água lambia a ponta de seus sapatos.
Levou alguns segundos para ver uma série de tábuas debaixo da água, a uns vinte
centímetros da superfície. — É uma ponte vietnamita. Alejandra se sentou na
beira do canal e apontou para a água. É como uma ponte normal, mas em vez
de ficar na superfície, fica dois palmos abaixo d'água. É melhor tirar os sapatos
para atravessar. Lucía se descalçou e pôs os pés na água. Estava gelada, e a
corrente era muito forte, mas mesmo assim o caminho sobre a ponte submersa
 parecia surpreendentemente fácil. Quando estava na metade do percurso, Lucía
compreendeu que jamais poderia ter atravessado a nado. A força da água era
muito intensa. De repente, um galho arrastado pela corrente acertou seu
tornozelo.
Lucía, surpresa, oscilou, tentando manter o equilíbrio. Esticou as mãos tentando
se segurar em alguma coisa, mas era tarde demais. Com um sonoro mergulho,
caiu na água de cabeça. A corrente do canal a empurrou contra a estrutura
submersa da ponte com tanta força que um dos pilares se cravou em suas
costelas. Lucía soltou um grito abafado e imediatamente engasgou com a água
que inundou sua boca. Na escuridão, por um momento perdeu o senso de
orientação e durante intermináveis segundos não soube onde ficava a superfície.
A jovem sentiu o pânico subindo por sua garganta. Se não saísse rápido à
superfície, Lucía se afogaria. Não quero morrer assim.
Não quero morrer afogada em um canal sujo no meio da noite. Dando um
pontapé, tomou impulso para a superfície. Tirou a cabeça d'água e respirou
ansiosamente, tossindo incontrolavelmente por causa de toda a água suja que
havia engolido. Agarrou-se à ponte, e depois de afastar o cabelo molhado do
rosto, olhou para a margem do gueto.
Para sua surpresa, a jovem mexicana tinha desaparecido, como se a terra a
houvesse engolido. Antes que pudesse pensar em mais nada, o rugido de um
motor se aproximando soou na margem que acabava de abandonar.
Aterrorizada, viu um veículo patrulha seguir a beira do canal, passando o refletor
pelo alambrado e o leito de água. Estavam a menos de quinhentos metros. Não
teria tempo de subir de novo na ponte, e muito menos de chegar até qualquer
uma das margens. Tinha só uma alternativa. Inspirou profundamente várias
vezes seguidas para hiperventilar e, quando o facho de luz chegou a menos de
cinco metros de sua cabeça, mergulhou de novo. Os primeiros dez segundos
passaram muito lentamente. A água estava tão gelada que sentia suas veias
doerem ao se contrair. A corrente arrastava todo tipo de dejetos, que batiam
 nela quando passavam ao seu lado. Alguma coisa de textura viscosa roçou seu
rosto, e Lucía quase se deixou levar pelo pânico. Quando já não podia mais
aguentar, subiu de novo à superfície, tentando fazer o menor barulho possível. O
carro patrulha se afastava lentamente, corrente abaixo. Foi por pouco. Esgotada
física e emocionalmente, tentou de novo subir na ponte. Sua roupa molhada
parecia pesar uma tonelada, e ela teve que fazer três tentativas antes de
conseguir se apoiar de joelhos na superfície submersa. Gachupina! Fique
esperta, vão voltar em menos de três minutos! — Alejandra havia se
materializado de novo nas sombras e lhe fazia gestos urgentes para que se
apressasse. Apoiando os pés com cuidado, percorreu o resto do caminho. Ao
chegar ao outro lado, escalou a encosta até alcançar o alambrado.
A mexicana já havia aberto um vão engenhosamente escondido por entre o
arame farpado, suficientemente grande para que Lucia passasse se arrastando
por ele. Assim que chegou do outro lado, Alejandra soltou a mola que mantinha o
vão aberto, e o alambrado se fechou atrás dela como se ali jamais houvesse
existido uma passagem.
A mexicana a observou de cima a baixo, com as mãos na cintura. Mesmo com
sua baixa estatura, emanava determinação e caráter. — Bem-vinda ao inferno,
gachu pina.
Não sei que diabos a trazem a este lado, mas espero que valha a pena. Acho que
não vai cruzar este rio nunca mais.
Bethsaida, Mississipi, cinco meses antes — Ali vai um! Atire! Atire, filho da
mãe! Carlos Mendoza voltou-se a toda a velocidade, seguindo as indicações do
Chino Cevallos. Pela outra calçada da rua principal daquela cidade surgira de
repente um não morto cambaleando. Era um homem de uns quarenta anos, de
jeans e uma camiseta com um bom pedaço faltando. No peito, perto da base do
pescoço, uma enorme ferida, onde o haviam mordido. Pelo menos a mordida
deveria estar ali, mas, na verdade, a ferida estava coberta por uma massa
peluda de fungos alaranjados que não deixavam ver a pele. Parte dos fungos já
havia se ramificado e subia ansiosamente pelo pescoço do sujeito até suas fossas
nasais. O conjunto era meio repulsivo, meio hipnótico. Cada vez era mais
comum ver não mortos cobertos de fungos, mas Mendoza e seu colega não
sabiam por quê. Carlos levantou seu rifle de caça. Como fazia sempre, molhou o
dedo polegar, passou-o pela mira e a seguir apontou cuidadosamente. O não
morto ocupou todo seu ponto de mira durante alguns segundos, até que apertou o
gatilho. Um instante depois, um lado da cabeça do sujeito se abriu ao meio e o
não morto caiu no chão, liquidado. — Com este, são quinze — murmurou o Chino
Cevallos, aproximando-se.
Haviam entrado naquela cidadezinha perdida havia duas horas e puderam
saqueá-la tranquilamente, até que nos últimos dez minutos os não mortos, atraídos
por sua presença, haviam cercado a pequena loja onde estavam refugiados.
Tinham acabado com todos, mas a aventura estava sendo um desastre. A cidade
já havia sido saqueada antes por algum bando, e os dois só tinham encontrado
duas latas de sopa Campbell vencidas, escondidas debaixo de uma prateleira.
Após um breve debate, decidiram correr o risco de consumi-las, apesar do
perigo do botulismo. Haviam visto várias pessoas morrerem por comer alimentos
estragados, mas a fome apertava. Com aquele, já eram seis dias sem pôr nada
na boca, e estavam começando a ficar fracos. Duas latas de sopa vencida,
pensou Mendoza, e metade de nossa reserva de munição desperdiçada.
Mais dois dias como este e podemos nos dar por mortos. Fernando Chino Cevallos
e ele estavam juntos havia mais de um ano. Não sabiam quanto tempo haviam
passado daquele lado da fronteira americana, mas tinham certeza de que nessa
ocasião haviam se internado em território gringo muito mais que em qualquer
incursão anterior.
Sua busca de alimentos era cada vez mais desesperada, e, por outro lado, as
fronteiras já não significavam nada naquele momento. Quando a pandemia
estourou, Carlos Mendoza se arrolara como voluntário em um dos grupos
armados que se dedicava à "caça ao güero" ao longo da fronteira. Durante três
longas semanas, grupos de civis e voluntários patrulharam incessantemente a
fronteira entre o México e os Estados Unidos, interceptando todos os americanos
que tentavam escapar do TSJ fugindo para o país vizinho. Atirar primeiro e
perguntar depois era o lema. E como o haviam aplicado! Mas aquilo não serviu
de nada. O TSJ venceu, e o México, como o resto do mundo, foi para o caralho
duas semanas depois. Mendoza, o Chino Cevallos e mais cem homens armados
de repente se viram isolados, sem ordens e sem uma missão a cumprir. Pelo
menos metade Güero: louro, em espanhol mexicano. Por extensão, toda pessoa
de raça branca e daqueles voluntários abandonou