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A Ira dos Justos   Manel Loureiro Doval

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— Comecei a jogar pastas no
chão com fúria, à medida que as ia descartando. — Tenho certeza de que vi por
aqui algo parecido com um passe, caralho! Pritchenko pôs a mão em meu braço
e eu parei, arfando. Sentia algo parecido com pânico. Se acontecesse alguma
coisa com Lucía por minha culpa, eu jamais me perdoaria. Além do mais, todos
os alarmes que haviam me mantido vivo até aquele momento estavam zunindo a
todo o volume. Algo ruim estava para acontecer enquanto eu perdia a cabeça.
— Não se preocupe com o passe — disse ele com tranquilidade. Nossa garotinha
é muito esperta, e se ela conseguiu passar sem ajuda para o outro lado do
alambrado, eu também vou conseguir. Não pode ser pior que na Tchetchênia. —
Pode ser pior, Víktor, acredite repliquei, sombrio. Víktor olhou para mim com
surpresa, mas não disse mais nada. O ucraniano confiava plenamente em mim, e
sabia que o tempo das explicações viria mais tarde. Trocamos um forte e longo
 abraço antes de nos despedirmos. Por um momento nos olhamos, consternados.
Sabíamos que aquela era a primeira vez que nos separávamos desde que
havíamos nos conhecido.
Tenha cuidado — disse eu. — Saiba que estarei ao seu lado para salvar seu rabo
se você pisar na bola. — Tenha cuidado você — replicou ele com um sorriso que
transmitia mais confiança que a que realmente devia sentir. — Afinal de contas,
não sei com que estou me preocupando. Você só tem que roubar um naviozinho.
Isso até minha tia Ludmila faria, mesmo estando meio cega e só ouvindo de
manhã.
Apertamos as mãos com força e eu sorri, adivinhando a intenção de Víktor de
me tranquilizar. O telefone da mesa começou a tocar de repente, quebrando o
feitiço.
Enquanto eu pegava o fone e desligava sem atender, o ucraniano se dirigiu para a
porta, mas quando já ia sair, voltou-se. Olhamo-nos, e por um instante senti uma
 sombra escura planar sobre o gabinete. Estava com um mau pressentimento,
mas não queria preocupar desnecessariamente meu amigo. Assim que Víktor
saiu, vesti o paletó e saí, sem prestar atenção em minha secretária, que sacudia
um monte de papeis em uma mão e uma xícara de café na outra. Se tudo
corresse bem, à noite Víktor já estaria de volta com Lucía, e, enquanto isso, eu
teria arranjado um navio. Desde o início eu havia descartado o transporte
terrestre, por ser muito perigoso, e o aéreo porque eu não sabia onde ficava o
aeroporto, se é que havia um; além do mais, os helicópteros estariam seriamente
vigiados. Isso me deixava apenas doze horas e um monte de coisas para fazer. A
primeira coisa era cobrir meu rastro. Dei a volta, e após beber um gole do café
(que era tão ruim quanto o outro, e ainda por cima estava morno), disse a Anne
Sue que estava me sentindo mal e ia para casa descansar. Era uma desculpa
 muito fraca, mas para umas poucas horas seria suficiente, caso alguém
resolvesse procurar por mim no escritório. A seguir, saí e comecei a percorrer os
corredores lotados da prefeitura, atentando para as placas nas portas. Levei três
minutos para chegar a um gabinete cuja porta dizia "Serviço de Transportes".
Bati, mas ninguém respondeu. Cauteloso, girei a maçaneta e coloquei a cabeça
para dentro. Era hora do almoço (por isso há tanta gente nos corredores, idiota), e
não parecia haver ninguém ali. Era a hora perfeita. Sentindo-me como um
ladrão, fui para trás da mesa maior daquele gabinete compartilhado por pelo
menos quatro pessoas. Sentei-me em frente ao computador e suspirei aliviado ao
contemplar a tela. Todo o sistema estava protegido por senhas pessoais, mas o
usuário daquele terminal, como a maior parte das pessoas que trabalham
habitualmente diante de um computador, havia abandonado sua cadeira sem se
preocupar em fechar a página. Naveguei pela base de dados de Gulfport
procurando um meio de transporte que pudesse solucionar nosso problema.
Depois de um instante, um sorriso ladino surgiu em meu rosto.
Aí está, pensei. Exatamente o que precisamos. Como eu suspeitava, em uma
cidade de residentes bem de vida como tinha que haver um monte de veleiros de
recreio amarrados em cais esportivo. Diante de mim, havia uma lista de meia
dúzia de bar, qualificados como "veleiros auxiliares de vigilância", ancorados no
 cais. Isso ficava muito perto de onde o Ithaca estava ancorado. Um deles, o
White Swan, parecia perfeito. Era um enorme iate de 20 metros, muito maior
que qualquer outro navio que eu já a conduzido, mas perfeito para navegar pelas
traiçoeiras águas do Caribe. Na ficha havia uma senha de dez dígitos, que batia
com os documentos de autorização. "Imprescindível acompanhar os
documentos ;om a permissão", dizia o aviso da tela. Praguejei. Sem os
documentos, os guardas do porto não nos permitiriam chegar até o barco.
Evidentemente, poderíamos tentar chegar força, mas isso inevitavelmente
chamaria a atenção. E isso contando que íamos conseguir abrir caminho a tiros.
Eu tinha que localizar aqueles papéis de qualquer jeito. Com o suor escorrendo
pelas costas, revirei todas as gavetas das mesas. De vez em quando dava uma
olhada na porta, temendo que a qualquer momento alguém a abrisse e me
pegasse com a mão na massa. Seria muito difícil explicar o que estava fazendo
 ali se me surpreendessem. Depois de um tempo, bufei furioso. Havia aberto
todos os arquivos e gavetas, e, embora houvesse encontrado os papéis de
permissão e o carimbo correspondente, ainda faltavam os documentos de
autorização do barco. Por um momento temi que estivessem guardados em outro
lugar (quem sabe, no gabinete do próprio Greene), mas aquilo não tinha nenhum
sentido. Havia muitos veículos na cidade para que o reverendo cuidasse daquele
assunto menor pessoalmente. De repente, meu olhar parou em um cofre
embutido na parede. É claro, seu burro. Pus a mão no puxador do cofre. Era um
modelo moderno, não muito grande, mas com jeito de ser bastante robusto.
 Depois de fazer uma oração silenciosa, girei o puxador. Evidentemente, estava
fechado.
Uma bola de gelo se formou em meu estômago. Embora eu soubesse como abrir
fechaduras simples com um arame e umas radiografias, aquela fechadura
estava muito além de minhas possibilidades. De repente, uma ideia absurda se
materializou em minha mente. Voltei à mesa maior e revirei gavetas e papéis,
procurando algo que nem sequer sabia se existia. Quando levantei o teclado do
computador e o virei, tive que fazer um esforço para conter um grito de alegria.
Ali, colada, havia uma tira de papel com uma combinação. Típico de um
funcionário muito atarefado, sem tempo para se incomodar em memorizar uma
senha. Com o teclado debaixo do braço, postei-me de novo em frente ao cofre e
introduzi a combinação. Um estalo seco soou de dentro da porta, quando o
circuito eletrônico desbloqueou os barrotes e a porta se abriu. Dentro do cofre
havia um monte de papéis cuidadosamente plastificados e organizados. Levei
apenas alguns segundos para localizar os documentos do White Swan. E então,
 bem quando estava acabando de colocá-los no bolso e fechando o cofre, a
maçaneta da porta girou e alguém entrou no gabinete. Tive o tempo exato de
correr até o pequeno banheiro do gabinete antes que um homem calvo, de uns
cinquenta anos, entrasse. O sujeito tinha um hambúrguer gorduroso em uma das
mãos, enquanto com a outra segurava um celular, no qual não parava de falar.
— Eu sei, eu sei. Ouça, meu bem, assim que eu chegar em casa prometo que a
levo para jantar por aí. É que... sim, claro que estou ouvindo.
O homem mantinha uma conversa banal, enquanto se sentava a uma das mesas
e procurava alguma coisa. De repente, percebi que ainda estava com o teclado
do computador da outra mesa debaixo de meu braço. Se aquele sujeito
resolvesse levantar a vista e olhar para a mesa de seu colega, possivelmente se
surpreenderia ao ver que um teclado havia saído para dar uma volta. Felizmente,
o homem parecia estar bastante ocupado falando com a pessoa do outro