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A Ira dos Justos   Manel Loureiro Doval

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solte uma bengala para que nos vejam! O ucraniano saiu do
estupor, abriu um compartimento e pegou a pistola sinalizadora. Ergueu-a acima
da cabeça e apertou o gatilho. A bengala saiu em disparada, com um assobio, e,
ao atingir a altura programada, explodiu em um brilhante feixe de luz vermelha
que banhou tudo com uma cor espectral. Enquanto a bengala descia lentamente
presa em seu paraquedas, corri para dentro do veleiro.
O que antes havia sido um charmoso camarote estava despedaçado. Uma
camada de água coberta de óleo, restos de comida, cartas de navegação e papeis
ocupavam todo o interior até a altura dos tornozelos. Lucía estava em um canto,
com o gato no colo, e me olhava expectante. — Como vamos subir nisso?
perguntou-me com uma calma impressionante. — Ainda não sei, mas temos que
evitar que vão embora sem nos ver. Peguei um dos dois arpões que havia a bordo
e o pendurei nas costas. Sem atender ao olhar incrédulo de Lucía, abri o
compartimento das velas, procurando um cabo suficientemente forte. O lugar
cheirava a algas podres e estava cheio de água gelada.
Eu suspeitava que a entrada da água estava muito próxima, mas não havia nada a
fazer.
O arpão. Era rudimentar, mas teria que servir. O que é isso? — Um cabo-guia;
ou, pelo menos, algo que se parece remotamente com isso respondi, voltando
para o convés.
Nesse intervalo, o petroleiro já havia avançado quase até a metade de sua
extensão. O tamanho daquele navio era tão grande que tinha a altura de um
edifício de oito andares a partir da linha da água. Com uma montanha daquelas
no meio, o veleiro ficava totalmente protegido do vento e da força das ondas que
açoitavam o outro lado.
Pisquei surpreso ao ver que o Corinto II se balançava em um pequeno remanso
de águas completamente tranquilas e sem o menor vento, tudo isso iluminado
pela luz vermelha projetada pelas bengalas que Víktor soltava sem descanso. A
poucos metros de distância, bem no limite de visão que as bengalas permitiam, o
efeito de parapeito gerado pelo petroleiro acabava, e o mar voltava a se erguer
com uma força de furacão. Só tínhamos uma chance. Levantei o arpão e o
apontei para a amurada do petroleiro que ficava escondida na negrura da noite.
Fiz uns cálculos mentais rápidos. Era o arpão mais potente que tínhamos, mas a
distância que devia percorrer era muito longa, e ainda por cima na vertical.
Também era preciso levar em conta o peso da corda e... Caralho, respire e atire.
Se não conseguir enganchar esse cabo no petroleiro, podem se dar por mortos a
vozinha pedante tornou a soar em minha cabeça. Se não for a tempestade, o
efeito de sucção das hélices fará purê de vocês, você sabe, você sabe, e só tem
esta chance... Cale-se de uma vez, espertinho do caralho! Balancei a cabeça e
atirei. O virote saiu com um estalo, e o cabo amarrado em sua ponta começou a
se desenrolar a toda a velocidade. Contei em silêncio: cinco metros, dez, quinze...
Ao chegar a vinte e cinco metros, o cabo parou em seco. Trêmulo, peguei uma
ponta e dei um puxão, suave de início e mais forte depois. O cabo não cedia.
Estávamos enganchados no petroleiro. O molinete do spinnaker onde estava
presa a outra ponta do cabo gemeu quando o veleiro deu um salto, arrastado pelo
petroleiro, mas 33 aguentou perfeitamente a investida. O Corinto II, como uma
rêmora colada a uma baleia, começou a avançar paralelamente ao enorme
navio, batendo com força no casco de aço quando a inércia nos levava contra o
outro barco. Cada choque arrancava lâminas de fibra de carbono e fazia estalar
toda a estrutura do veleiro. E, além do mais, eu não sabia como nem onde o
virote havia se enganchado. Aquilo não aguentaria multo.
De repente, alguns fachos de luz dançaram sobre o convés arrasado do veleiro.
Olhamos para cima e vimos que da amurada do petroleiro quatro ou cinco
lanternas apontavam para nós. Estavam muito longe, e não conseguíamos ouvir
as conversas, mas tenho certeza de que, fosse quem fosse que estivesse ali em
cima, devia estar se perguntando naquele momento quem diabos éramos nós e
como havíamos chegado até ali. Eu simplesmente torcia para que, pelo menos,
não pensassem demais. Depois de dois intermináveis minutos, uma rede de
abordagem se desenrolou pela lateral do petroleiro para permitir que subíssemos.
Imaginei o esforço titânico que devia ter requerido transportar aquela pesada
rede pelo convés do petroleiro, no meio da tempestade, que lá em cima devia
estar açoitando em toda a sua plenitude. Fosse quem fosse, tinha interesse em que
subíssemos a bordo, evidentemente. — Vamos subir, antes que mudem de ideia!
— gritou Víktor, decidido. O ucraniano se agarrou à rede de abordagem e
começou a subir com a agilidade de um macaco, sem olhar para trás. Lucia
ajeitou Lúcuo em meus braços e, após me dar um alegre beijo na boca, segurou-
se na rede e seguiu Pritchenko. Fiquei no convés do veleiro, com uma sensação
estranha no estômago. A última vez que havia subido em um barco desconhecido
foi no porto de Vigo, muitos meses antes, e a experiência não tinha sido muito
gratificante. Pelo menos espero desta vez não ver o cano de uma arma assim que
tocar o convés, pensei, enquanto colocava Lúcuo dentro da parte superior de meu
impermeável e fechava bem os zíperes. Meu gato se remexeu dentro daquele
saco improvisado até encontrar uma abertura por onde tirar a cabeça, bem ao
lado do meu pescoço.
Com um último olhar, eu me despedi do veleiro e comecei a subir pela rede de
abordagem, envolvido por um penetrante aroma de pelo de gato molhado. Só
muitas horas depois, percebi que havíamos deixado toda a nossa bagagem a
bordo da pequena balandra. Tanto fazia. Engatinhando como um Spiderman de
quinta categoria por aquela rede de abordagem, também não poderia levar muita
coisa comigo. Quando finalmente cheguei à amurada do petroleiro, aconteceram
várias coisas simultaneamente. A primeira foi que o vento me acertou com tal
força que quase caí de costas, em uma pirueta que teria sido necessariamente
mortal. A segunda foi que dois braços fortes me pegaram e me ergueram a
bordo, enquanto outras mãos cobriam minhas costas com uma manta,
protegendo-me da chuva. E a terceira, e mais surpreendente, foi ver um
elegante oficial de aspecto nórdico e um impecável sorriso esmaltado se
aproximar de mim e me estender a mão. Vocês são os peixes mais estranhos que
já pescamos, garanto disse-me em um inglês correto e acadêmico, com um
sotaque que não fui capaz de identificar. Permitam-me que lhes dê as boas-
vindas a bordo. Qual é o nome deste navio? Onde estamos? O oficial fez um gesto
amplo com a mão, abarcando toda a superfície do petroleiro, enquanto a cortina
de chuva nos ensopava sem parar. — Bem-vindos a bordo — disse com um
sorriso. — Bem-vindos ao Ithaca.
Quando o Edna tocou em terra ao sul do Marrocos, começou a perder força
rapidamente. Os violentos ventos se transformaram em rajadas fortes no início e
em uma suave brisa depois de vinte e quatro horas. As nuvens, por sua vez,
depois de ter descarregado um dilúvio sobre o oceano, transformaram-se em
farrapos assim que chegaram à costa, e o sol de agosto tornou a cair a prumo
sobre a superfície do mar. Menos de quarenta e oito horas depois de o Edna
açoitar a costa, havia se transformado em uma inofensiva borrasca que
atravessava o estreito de Gibraltar em direção ao Mediterrâneo central.
Nós, evidentemente, não vimos nada disso.
Quando acordei, minha primeira reação foi segurar o HK que descansava ao
lado de minha cama. Estava em um camarote desconhecido, pintado de azul-
claro, e pela portinhola aberta entrava um luminoso facho de luz. Meus dedos
apalparam em vão durante um tempo, até que a bruma em minha cabeça se
dissipou um pouco. O HK não estava ali, naturalmente. Havia ficado a bordo do
veleiro, que com certeza a essa hora já devia estar no fundo do mar, afundado
pela tempestade. Levantei-me rápido e imediatamente lamentei tê-lo feito. Cada
músculo de