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TRIGGER, Bruce - História do Pensamento Arqueológico

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natureza, e o fizeram de maneira irreversível - a menos que 
se abandone de todo o método científico". E completa seu pensamento: 
"O fato de que a Arqueologia pode gerar um número cada vez maior de 
idéias sobre o que aconteceu no passado sugere que ela pode construir 
uma base cada vez mais eficaz para a compreensão da mudança social". 
Um livro tão denso, tão profundamente fundamentado em vasta 
erudição, só poderia ser obra de Bruce G. Trigger, cujo perfil científico 
como grande conhecedor da história da Arqueologia se revela não só 
nos vários capítulos do livro como também no "Ensaio bibliográfico" e 
nas "Referências bibliográficas" que encerram o volume. 
 
Prefácio do autor 
 
Este livro é o resultado combinado de aprendizagem através da leitura, 
experiência arqueológica e tradição oral. Construiu-se a partir do curso 
de História da Teoria Arqueológica, que leciono anualmente desde 
1975. Desde que comecei a ministrar o curso, eu tencionava escrever 
um livro sobre o assunto. Meus primeiros esforços nesse sentido 
resultaram nos ensaios originais publicados em Times and Tradition 
(Trigger, 1978a) e Gordon Childe: Revolutions in Archaeology (Trigger, 
1980a). Embora eu continuasse a escrever estudos sobre vários aspectos 
da história da arqueologia, duas outras tentativas de começar este livro 
deram em nada, por várias razões. Uma delas foi minha percepção de 
que o tempo não era propício. Já na primavera de 1986, fiz uma terceira 
tentativa e descobri que o livro estava a "escrever-se a si mesmo". 
Acredito que esta mudança deveu-se a minha satisfação crescente com 
os avanços contemporâneos na interpretação arqueológica. Muitos 
arqueólogos (não apenas no Ocidente, mas também na União Soviética 
aparentemente) têm mostrado preocupação com o que vêem como a 
fragmentação teórica da disciplina. Quanto a mim, ao contrário, 
acredito que o desenvolvimento contemporâneo ajuda os arqueólogos a 
transcender os limites de enfoques sectários muito estreitos, o que 
resulta em interpretações mais holísticas e frutíferas dos dados 
arqueológicos. Há também um realismo crescente na constatação das 
limitações dos dados arqueológicos, ao mesmo tempo em que se verifica 
maior flexibilidade na busca de superá-las. Esses avanços decorrem de 
façanhas arqueológicas tanto do passado como do presente. E, portanto, 
tempo oportuno para uma revisão do pensamento arqueológico em uma 
perspectiva histórica. 
Cabe aqui uma breve declaração de minha posição teórica. Sempre 
considerei o enfoque materialista mais apto a produzir uma 
compreensão do comportamento humano do que qualquer outra 
abordagem. Aplicado com inteligência, não diminui, de modo algum, a 
apreciação das características que tornam única a mente humana, e 
facilita a inserção da teoria social em uma compreensão biológica mais 
ampla das origens e do comportamento humano. Contudo, nunca achei 
que o determinismo ecológico, a teoria neo-evolucionista ou o 
materialismo cultural fornecessem explicações satisfatórias para todo o 
espectro de variações que podem ser encontradas na conduta humana, 
ou para as muitas complexidades presentes em seqüências concretas de 
mudança cultural. Em toda a minha carreira, tentei conciliar um 
enfoque materialista com o empenho de levar em conta a diversidade 
histórica que caracteriza o registro arqueológico. Isso nutriu meu 
apreço cada vez maior pelo materialismo histórico, para o qual fui 
inicialmente atraído por obra de meus esforços para entender o passado, 
e não por conta de convicções políticas dogmáticas. Em particular, 
sempre achei o marxismo de Gordon Childe, de orientação histórica e 
contextual, infinitamente preferível às formas mais deterministas do 
marxismo evolucionista, ou ao namoro com o idealismo característico 
do neomarxismo. 
Embora esse livro tenha sido escrito como uma unidade, eu extraí 
muito do que aqui se encontra de meus escritos prévios. O esboço do 
estudo de história da arqueologia que se acha no ensaio bibliográfico do 
primeiro capítulo apoia-se fortemente em Trigger, 1985a. Muitas das 
idéias de que me vali para estruturar os capítulos 4 e 5 haviam sido 
desenvolvidas em Trigger, 1978a e 1984a, ao passo que as seções que 
tratam de Childe nos capítulos 5 e 7 baseiam-se em Trigger, 1980a, e 
mais particularmente em Trigger, 1984b e 1986c. O capítulo 6 baseia-se 
parcialmente em Trigger, 1984c, embora os pontos de vista que exprimo 
a respeito da arqueologia soviética naquele escrito tenham sido 
consideravelmente modificados. Algumas das referências citadas no 
capítulo 6 foram assinaladas por Rose Marie Bernard em sua tese de 
mestrado "Arqueologias marxistas: uma história de seu 
desenvolvimento na União Soviética, na Europa e nas Américas" (1985), 
apresentada na Universidade McGill. Sou grato também a Peter 
Timmins por suas ponderações relativas ao esboço da seção do capítulo 
9 que trata de processos de formação de sítios. No tocante a informações 
factuais e apoio bibliográfico, agradeço a Chen Chun, Margareth Deith, 
Brian Fagan, Norman Hammond, Fumiko Ikawa-Smith, June Kelley, 
Philip Kohl, Isabel McBryde, Mary Mason, Valerie Pinsky, Neil 
Silberman, Robert Vogel, Alexander von Gernet, Michael Woloch e 
Alison Wylie, assim como a muitos outros colegas de todo o mundo que 
me mandaram cópias de seus escritos. 
A história da arqueologia não é assunto novo. Portanto, quem quer que 
escreva um estudo geral a esse respeito ergue-se sobre os ombros de 
seus predecessores. Por essa razão, sempre que me pareceu adequado 
fazê-lo, citei fontes secundárias de autoridades reconhecidas, em vez de 
anexar uma bibliografia extensa e gigantesca com referências a fontes 
primárias cada vez mais remotas e inencontráveis na maioria das 
bibliotecas. Sempre que possível, entretanto, consultei as fontes 
primárias, e onde encontrei discrepâncias abandonei as fontes 
secundárias defectivas, ou chamei a atenção sobre suas deficiências. As 
obras antigas reeditadas (e traduzidas para o inglês) são sempre citadas 
segundo a reedição, com a data da primeira edição entre colchetes. 
A pesquisa necessária para a elaboração deste livro foi possível, em 
grande medida, graças a uma licença sabática concedida pela 
Universidade MacGill e uma bolsa concedida pelo Canada Council, em 
1983. A todos os alunos, tanto de graduação como de pós-graduação, 
que fizeram comigo o curso "História da teoria arqueológica", quero 
agradecer por suas muitas contribuições para o desenvolvimento das 
idéias expostas neste livro. Agradeço também a minhas irmãs, Isabel e 
Rosalyn, por sua ajuda na verbalização das idéias e por estimular-me à 
busca da máxima clareza de expressão. Por fim, dedico esse livro a 
minha esposa, Barbara. 
 
Capítulo 1 
A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA 
 
Embora haja uma indústria acadêmica principal... dizendo aos cientistas 
sociais... como eles podem tornar-se verdadeiros cientistas, há uma 
outra, de produção igualmente vigorosa, supostamente a confirmar que 
o estudo dos homens e da sociedade não pode ser científico. 
Ernest Gellner, Relativism and the Social Science (1985), p. 120 
 
A partir da década de 1950, a arqueologia, sobretudo na América do 
Norte, passou da ortodoxia histórico-cultural (em que parecia 
comprazer-se) a inovações teóricas ambiciosas. A última delas, ao invés 
de inaugurar um novo consenso, levou a crescentes divergências no 
tocante aos objetivos da disciplina e ao modo como esses objetivos 
podem ser alcançados (Dunnel, 1983: 535). Em número cada vez maior, 
muitos arqueólogos, na esteira de historiadores e sociólogos, 
abandonaram a certeza positivista e passaram a ter dúvidas acerca