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FILOSOFIA  E  VIDA

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RODRIGO, Lidia Maria. “Aprender filosofia ou aprender a filosofar: a propósito da tese kantiana”. In: Gallo, Silvio; Danelon, M.; Cornelli, G. (org.) Ensino de Filosofia: teoria e prática. Ijuí: Ed. Unijuí, 2004. 


Aprender filosofia ou aprender a filosofar: a propósito da tese Kantiana


							Lidia Maria Rodrigo*

A autoridade de Kant tem sido frequentemente invocada na definição de posicionamentos dentro do debate sobre o ensino da filosofia no nível médio. Da Arquitetônica da Crítica da Razão Pura costuma-se extrair a tese de que “não se pode aprender filosofia, mas apenas aprender a filosofar”. Esse procedimento incorre em duas dificuldades. A primeira reside no fato de que essa explicitação da tese kantiana é produto de sua redução a uma fórmula simplificada em relação ao texto integral do autor, sendo apresentada sem levar em conta as premissas que lhe dão sustentação. Tal simplificação tem suscitado interpretações discutíveis, tanto em relação ao pensamento do autor como à concepção do que seja o ensino da filosofia no nível médio. A omissão da distinção kantiana entre conhecimento racional da filosofia e conhecimento histórico da filosofia  permite a algumas pessoas concluir que, para Kant, não se pode aprender a filosofia formulada pelos filósofos, mas apenas aprender a filosofar, isto é, pensar por conta própria. Essa conclusão, por sua vez, acaba alimentando certa hostilidade em relação ao estudo da história da filosofia, substituída, muitas vezes, pela busca de fórmulas mirabolantes que teriam o condão de permitir ao estudante pensar pela sua própria cabeça, ignorando propositalmente a tradição filosófica.

A segunda dificuldade resulta da transposição para o ensino da filosofia na atualidade daquilo que se supõe ser a tese kantiana a respeito da dicotomia entre aprender filosofia e aprender a filosofar. 

O retorno ao tema justifica-se pela intenção de oferecer alguma contribuição ao debate sob dupla perspectiva: por um lado, trata-se de indagar como tal dicotomia se apresenta efetivamente no texto kantiano e, por outro, em que termos sua atualização pode ser pensada. A tentativa de esclarecimento da postura kantiana vincula-se à defesa de uma linha de trabalho para a filosofia no nível médio alicerçada na idéia da indissociabilidade entre aprender filosofia e aprender a filosofar, contrária, portanto, à dicotomização usualmente atribuída a Kant.

Para compreender a tese kantiana em sua complexidade, bem como indagar o que ela sinaliza para a o ensino da filosofia, torna-se indispensável examinar o contexto argumentativo em que é formulada na Arquitetônica da Crítica da Razão Pura.

Nesse texto Kant assegura que, quanto à sua origem, os conhecimentos podem ser considerados segundo dois pontos de vista:

- o objetivo, que se refere às condições de possibilidade do conhecimento. Sob esse aspecto os conhecimentos podem ser racionais, isto é, provenientes de princípios, ou empíricos, quando decorrem da experiência.

- o subjetivo, que tem a ver com os modos de aquisição do conhecimento.

 Na perspectiva do tema em pauta interessa examinar mais detalhadamente esse segundo ponto de vista, porque  a questão da aprendizagem filosófica situa-se precisamente nesse âmbito. 

Do ponto de vista subjetivo, os conhecimentos também podem ser de dois tipos: os racionais, ex principiis, e os históricos, ex datis. 

Do ponto de vista histórico Kant julga possível aprender filosofia, do ponto de vista racional essa aprendizagem não é possível. Vejamos por que.

O conhecimento é considerado histórico naquele que o possui, quando este só sabe aquilo que lhe é dado de fora, adquirido basicamente de três modos: por experiência imediata, por narração alheia ou por instrução de conhecimentos gerais. 

A aprendizagem filosófica insere-se nesta última modalidade, e o exemplo que Kant oferece não deixa margem a dúvidas: a aprendizagem de um sistema filosófico, como por exemplo, o de Wolff. 

Mas ainda que tal aprendizado conduzisse a um perfeito domínio da doutrina, de seus fundamentos e demonstrações, ela não passaria de um conhecimento histórico completo da doutrina wolffiana. E o conhecimento histórico das doutrinas filosóficas caracteriza-se, para Kant, por estar baseado na faculdade de imitação, não na faculdade de invenção. Configura-se, portanto, uma formação filosófica baseada na razão alheia, quer dizer, que não resulta do uso da própria razão. Aquele que possui esse tipo de formação, diz Kant, “sabe e ajuíza apenas segundo o que lhe foi dado. Contestais-lhe uma definição e ele não sabe onde buscar outra.” (CRP, p. 659). Nesse caso a aprendizagem filosófica resulta da memória e não do exercício da razão, restringindo-se à compreensão e retenção de doutrinas filosóficas elaboradas por outros. 

Esse perfil do praticante da filosofia corresponde ao do discípulo no seu sentido mais tradicional: aquele que recebe ensino de alguém, ou que segue as idéias e doutrinas de outro. Portanto, para Kant, de certo modo é possível aprender filosofia sem ser capaz de filosofar: “Um conhecimento pode assim ser objetivamente filosófico e, contudo, subjetivamente histórico, como é o que acontece com a maior parte dos discípulos e com todos aqueles que não vêem nunca mais longe do que a escola e ficam a vida toda discípulos.” (CRP, p. 660)

No polo oposto ao do discípulo, Kant traça o perfil do mestre, o filósofo original, a rigor, o único capaz de filosofar porque possui a faculdade de invenção. Seu conhecimento é subjetivamente racional já que foi extraído de princípios hauridos nas fontes gerais da razão e não em experiências ou idéias recebidos de fora. O exercício do talento da sua própria razão, a partir de princípios, capacita o filósofo a estabelecer com a tradição filosófica uma relação diversa daquela do discípulo: seu conhecimento não se caracteriza pela absorção das doutrinas estudadas, mas, ao contrário, do exercício da razão “pode também resultar a crítica e mesmo a rejeição do que se aprendeu” (CRP, p. 660). A atividade intelectual do filósofo, contudo, vai além da postura crítica frente à tradição. Compete a ele construir o saber filosófico segundo os parâmetros exigidos pela razão pura, possibilitando à filosofia passar da simples idéia de uma ciência possível para uma ciência dada in concreto. Não é difícil entrever nesse perfil filosófico um auto-retrato.

Kant sustenta ainda que, em relação ao conhecimento matemático, não se pode fazer a mesma distinção que na filosofia. Recorde-se que, em relação a esta última, um conhecimento pode ser objetivamente filosófico e, contudo, subjetivamente histórico. Na matemática, diferentemente, ambos coincidem, porque os discípulos ao adquirirem um conhecimento histórico através do mestre estarão, simultaneamente, de posse de um conhecimento racional, visto que só podem aprender matemática conhecendo e aplicando os princípios essenciais e verdadeiros da razão, que ela contém. 

Sobre tais premissas, Kant chega à famosa conclusão:

“Entre todas as ciências racionais (a priori) só é possível, por conseguinte, aprender a matemática, mas nunca a filosofia (a não ser historicamente): quanto ao que respeita à razão, apenas se pode, no máximo aprender a filosofar.” (CRP, p.660)

As interpretações equivocadas explicam-se, em primeiro lugar, pelo isolamento e simplificação da tese Kantiana, reduzida à fórmula sintética: “Não se pode aprender filosofia, mas apenas aprender a filosofar”. Tal simplificação, ao omitir a distinção entre conhecimento racional da filosofia e conhecimento histórico da filosofia, dá a entender algo muito diverso daquilo que está efetivamente contido na formulação do autor, uma vez que exclui qualquer possibilidade de aprendizagem filosófica. Fica sugerido que não se pode aprender filosofia de forma alguma, quando o texto estabelece claramente que não se pode aprender filosofia do ponto de vista objetivo-racional, mas que se pode aprendê-la do ponto de vista histórico-subjetivo.

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