APOSTILA DE PSICOPATOLOGIA GERAL I
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APOSTILA DE PSICOPATOLOGIA GERAL I


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FMU
PSICOPATOLOGIA GERAL I
Profa. MS. Maria da Conceição Albano Ferreira
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre, ArtMed, 2000.
BARLOW, David H. Psicopatologia: uma abordagem integrada. 4ª. Ed. Revisão técnica Francisco B. Assumpção Jr. São Paulo: Congage Learning, 2011.
1. O CONCEITO DE NORMALIDADE EM PSICOPATOLOGIA
1.1 A CIÊNCIA DA PSICOPATOLOGIA 
A psicopatologia é o estudo científico dos transtornos psicológicos. O que é transtorno psicológico ou comportamento anormal? É uma disfunção psicológica que ocorre em um indivíduo e está associada com angústia e diminuição da capacidade adaptativa e uma resposta que não é culturalmente esperada. 
A disfunção psicológica refere-se a uma interrupção no funcionamento cognitivo, emocional ou comportamental. Por exemplo, sair para um encontro pode ser divertido, mas se você experimenta um forte medo toda noite e só quer voltar para casa, mesmo que não haja nada para temer, e se o medo ocorre a cada encontro, suas emoções não estão funcionando adequadamente. Entretanto, se todos os seus amigos concordam que a pessoa que convidou você para sair é perigosa, não seria \u201cdisfuncional\u201d ter medo e evitar o encontro. No entanto, apenas ter uma disfunção não é o suficiente para definir os critérios de um transtorno psicológico.
O fato de que o transtorno ou o comportamento deve estar associado com angústia adiciona um componente importante e parece claro: o critério será satisfeito se o indivíduo for extremamente perturbado. Contudo, devemos lembrar que esse critério, por si só, não define o comportamento anormal. É bastante comum ficar angustiado \u2013 por exemplo, se alguém próximo morre. Assim, definir um transtorno psicológico apenas por angústia não funciona, embora o conceito de angústia contribua para uma boa definição.
O conceito de prejuízo é útil, embora não inteiramente satisfatório. Por exemplo, muitas pessoas se consideram tímidas ou preguiçosas. Isso não significa que elas sejam anormais. No entanto, se você é tão tímido que acha impossível namorar ou mesmo interagir com outras pessoas, e se você tenta impedir as interações mesmo que goste de ter amigos, seu funcionamento social está prejudicado.
Finalmente, o critério para o qual a resposta seja atípica ou não esperada segundo o aspecto cultural é importante, mas também insuficiente para determinar a anormalidade. Às vezes, algo é considerado anormal porque não ocorre com frequência; ele se desvia da média. Quanto maior o desvio, maior a anormalidade. É possível dizer que alguém é baixo ou alto de forma anormal, significando que a altura da pessoa desvia-se substancialmente da média, mas isso não é uma definição de transtorno. Muitas pessoas estão longe da média no que se refere a seus comportamentos, mas poucas seriam consideradas perturbadas. Poderíamos chamá-las de talentosas ou excêntricas. 
Concluindo, é difícil definir \u201cnormal\u201d e \u201canormal\u201d. A definição mais aceita no DSM-IV-TR descreve como anormais disfunções comportamentais, emocionais e cognitivas que são inesperadas em seu contexto cultural e associadas com angústia e substancial inadequação no funcionamento. 
	1.2 \u2013 CONCEITOS HISTÓRICOS DO COMPORTAMENTO ANORMAL
	
	Por centenas de anos, os seres humanos têm tentado explicar e controlar o comportamento problemático. No entanto, nossos esforços sempre advieram de teorias e modelos de comportamento populares em determinada época. A finalidade desses modelos é explicar por que alguém está \u201cagindo dessa maneira\u201d. Três modelos principais nos fizeram voltar até os primórdios da civilização.
	Os seres humanos sempre supuseram que os agentes externos a nossos corpos e o ambiente influenciavam nosso comportamento, pensamento e emoções. Esses agentes, como os campos magnéticos ou a lua e as estrelas, são as forças dirigentes por trás do modelo sobrenatural. Além disso, desde a Grécia antiga, a mente tem sido denominada alma ou psique e considerada uma parte separada do corpo. Embora muitas pessoas tenham pensado que a mente pudesse influenciar o corpo e este, por sua vez, pudesse influenciar a mente, a maioria dos filósofos procurava por causas do comportamento anormal em um ou outro. Essa separação fez que surgissem duas correntes de pensamento sobre o comportamento anormal, resumidas em modelo biológico e modelo psicológico.
	Esses três modelos \u2013 o sobrenatural, o biológico e o psicológico \u2013 são muito antigos, mas são utilizados até hoje.
	( A TRADIÇÃO SOBRENATURAL	
	Em grande parte de nossa história, o comportamento desviante tem sido considerado um reflexo da batalha entre o bem e o mal. Quando confrontadas com o inexplicável, com o comportamento irracional e com o sofrimento e a revolta, as pessoas percebiam o mal.
	DEMÔNIOS E FEITICEIRAS \u2013 Uma forte corrente de opinião colocou, de maneira forçada, as causas e o tratamento dos transtornos psicológicos no domínio do sobrenatural. Durante o último quartel do século XIV, religiosos e autoridades laicas apoiaram as superstições populares, e a sociedade passou a acreditar na realidade e no poder dos demônios e das feiticeiras. A Igreja Católica se dividiu, e um segundo centro completo com um papa, surgiu no sul da França para competir com Roma.
	As pessoas recorriam cada vez mais à mágica e à bruxaria para resolver seus problemas. Durante essa época turbulenta o comportamento bizarro das pessoas atormentadas pelos transtornos psicológicos era visto como ação do diabo ou das bruxas. Os tratamentos incluíam exorcismo, em que diversos rituais religiosos eram desenvolvidos para livrar a vítima dos maus espíritos. A convicção de que as bruxas e a bruxaria eram as causas da loucura e de outros males continuou pelo século XV afora, mesmo após a formação dos Estados Unidos, como ficou evidenciado pelos julgamentos das bruxas de Salém.
	ESTRESSE E MELANCOLIA \u2013 Uma opinião igualmente forte, mesmo durante esse período, refletiu a visão esclarecida de que a insanidade era um fenômeno natural, causado pelo estresse mental ou emocional, e que ela era curável. A depressão e a ansiedade foram reconhecidas como doenças, embora os sintomas, como desespero e letargia, fossem frequentemente identificados pela Igreja como o pecado da apatia ou preguiça. Tratamentos comuns eram o repouso, o sono e o ambiente alegre e saudável. Outros tratamentos incluíam banhos, ungüentos e diversas poções. Durante o século XIV e XV, o insano, juntamente com o deformado ou incapacitado, eram transferidos de casa em casa nos vilarejos medievais, de forma que os vizinhos alternavam-se no cuidado deles.
	TRATAMENTOS PARA A POSSESSÃO \u2013 Pela conexão entre as proezas do mal e o pecado de um lado, e os transtornos psicológicos do outro, é lógico concluir que o sofredor é responsável pelo transtorno, que poderia bem ser uma punição por más ações. Isso parece familiar? Nos anos 1990, a síndrome epidêmica da AIDS este associada a uma crença similar entre algumas pessoas. Muitas pessoas acreditavam ser isso uma punição divina para os homossexuais praticantes, por considerarem esse comportamento repugnante.
	A possessão, entretanto, nem sempre é relacionada ao pecado, pode ser vista como involuntária, e o indivíduo possuído, como um inocente. Na Idade Média, se o exorcismo falhasse, algumas autoridades pensavam em quais passos seriam necessários para fazer o corpo inabitável para os espíritos maus, assim muitas pessoas eram submetidas ao confinamento, a açoitamento e a outras formas de tortura. 
	A LUA E AS ESTRELAS \u2013 Paracelso, um médico suíço que viveu de 1943 a 1541, rejeitou as noções de possessão demoníaca, sugerindo que, em vez disso, os movimentos da lua e das estrelas tinham profundos efeitos sobre o funcionamento psicológico das pessoas. Essa teoria de influência inspirou a palavra lunático, derivada da palavra latina luna, lua. A crença de que os corpos celestes ainda afetam o comportamento humano ainda existe, embora não haja nenhuma evidência