RAMOS DE AZEVEDO  -  Maria Rita Silveira de Paula Amoroso
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RAMOS DE AZEVEDO - Maria Rita Silveira de Paula Amoroso


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depois do restauro (observar também as colunas em 
ferro fundido). 
Fonte: Amoroso M.R. (2006) 
 
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O alpendre da Fazenda São Vicente possui uma laje executada com 
tijolos e trilhos de ferrovia, apresentando uma concretagem rudimentar. 
 
 
 Figura 67 \u2013 Laje em abobadilha (observar os trilhos e os tijolos nos entremeios). 
 Fonte: Amoroso M.R. (2005) 
 
O porão da sede da Fazenda São Vicente foi executado com piso de 
tijolos sobre base de terra batida. Se observarmos as paredes da casa a partir 
do porão, veremos perfeitamente o desenho dela toda se repetindo embaixo. 
Isto porque as paredes de tijolos nasciam ali no porão, não existindo vigas e 
pilares de concreto como hoje. Ela foi totalmente estruturada nas próprias 
paredes: a estrutura da casa era ela mesma. Isso foi constatado no início do 
restauro, ao se fazer a prospecção de sua fundação. As vigas de suporte do 
assoalho, juntamente com todas as madeiras de toda a casa, podem ser vistas 
e identificadas claramente, quando estamos em seu porão. Inclusive, é ali que 
também observamos a direção das tábuas corridas dos assoalhos. 
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 Figura 68 \u2013 Porão da sede. 
 Fonte: Amoroso M.R. (2007) 
 
 
Nesta obra, percebe-se um requinte no processo construtivo que revela 
a origem burguesa dos proprietários que a encomendaram. Os assoalhos que 
compõem os pisos dos cômodos, na parte superior, eram todos de peroba 
rosa, e suas janelas possuíam caixilhos de Pinho de Riga com vidros 
importados. Ainda, todo o gradil de proteção do alpendre com suas colunas 
adornadas foram trabalhados em ferro fundido e madeira no seu corrimão, 
além de receberem decoração em ferro na sua parte superior. 
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Figura 69 \u2013 Assoalhos que compõem os pisos dos cômodos, na parte superior, eram 
todos de peroba rosa. 
 Fonte: Amoroso M.R. (2007) 
 
 
Figura 70 \u2013 Janelas possuíam caixilhos de Pinho de Riga com vidros importados. 
 Fonte: Amoroso M.R. (2007) 
 
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Figura 71 \u2013 Gradil de proteção do alpendre. 
 Fonte: Amoroso M.R. (2007) 
 
 
Figura 72 \u2013 Gradil de proteção do alpendre com suas colunas adornadas foram 
trabalhados em ferro fundido e madeira no seu corrimão, além de receberem 
decoração em ferro na sua parte superior. 
 Fonte: Amoroso M.R. (2007) 
 
 
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- Pinturas murais 
 
 As pinturas murais foram encontradas, segundo Silva (2006, p. 28), 
 
 [...] nas fazendas Iracema, Mato Dentro, Recreio e São Vicente. 
Na sede da Fazenda Mato Dentro existem faixas decorativas com 
motivos florais e alguns murais representando animais e frutos. Na 
São Vicente, a decoração pictórica em faixa mostra motivos florais 
inspirados no art nouveau do início do século XX. A antiga varanda 
da residência da Fazenda Iracema conserva uma série de painéis 
parietais de inspiração acadêmica, representando natureza-morta e 
paisagem, e alguns retratam aspectos da própria fazenda. Segundo 
Pupo (1983), as pinturas murais da Fazenda Recreio foram 
executadas pelos pintores Hilarião da Cunha e José Pedro de Góis 
no ano de 1887, e representam naturezas-mortas de concepção 
acadêmica. Usou-se com parcimônia o estuque, reservado para 
algum detalhe de forro. O requinte dessas casas podia residir em 
algo fora da arquitetura propriamente: no modo de vida mais 
sofisticado, na numerosa criadagem, no mobiliário importado, nas 
festas. 
 
Dentre os temas importantes da arqueologia histórica, ligados ao 
povoamento do território e os seus ciclos econômicos, aqueles relativos às 
tradicionais mansões dos plantadores de café revelam que a quantidade de 
informações criadas nas últimas décadas já ultrapassou os estudos sobre os 
núcleos urbanos para se ocupar também dos rurais, o que permite a 
consolidação do conhecimento sobre os patrimônios do país. Neste contexto, 
os trabalhos técnicos de restauro permitem uma contribuição fundamental para 
visualizar o que a história oficial ainda não valorizou, mas que são 
fundamentais para o conhecimento da formação da sociedade brasileira. 
No processo de restauro é possível, ainda, através do uso de novas 
técnicas e enfoques, elaborar um trabalho de campo minucioso garantindo a 
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preservação dos sítios. Adotando-se uma combinação entre métodos de 
restauro e métodos de pesquisa histórica tradicional, este trabalho se propõe a 
discutir as pinturas murais artísticas originadas da fase paulista do ciclo 
cafeeiro, especialmente na região de Campinas com estudo de caso da 
Fazenda São Vicente, um antigo complexo cafeeiro. 
O processo de restauro da sede desta fazenda, concluído em 2006, 
permitiu uma observação minuciosa sobre as técnicas de pintura e sobre os 
motivos decorativos utilizados que podem revelar alguns aspectos da 
sociedade e da cultura burguesa no auge do ciclo econômico do café no estado 
de São Paulo. Os vestígios presentes nas faixas decorativas da casa sede da 
fazenda, onde se constatou o recurso a uma pintura mural a seco e o uso da 
técnica da estampilha abre pistas para investigações sobre a mão de obra 
utilizada no processo de decoração da residência, sobre a paisagem e meio-
ambiente da região, no passado, em função dos motivos florais ali aplicados e 
sobre as técnicas de pintura adotadas no contexto de uma arquitetura eclética 
paulista e suas referências à cultura decorativa européia. 
 Esta decoração mural era utilizada, principalmente, na sala de jantar e 
na sala de visitas, considerada um dos ambientes mais importantes da casa 
rural. No processo de restauração da Fazenda São Vicente, buscou-se deixar à 
mostra toda a riqueza das faixas e do seu uso de cores, que antes estavam 
encobertas pelas sucessivas camadas de tinta que as paredes receberam ao 
longo dos anos. O uso de cores nas paredes, nas portas, nas faixas, nos 
gradis, nos forros e nas fachadas nos mostra a importância da estética na 
construção rural desse período. Ramos de Azevedo soube tirar partido da 
decoração mural tanto ao projetar seus palacetes no meio urbano como na 
arquitetura rural, levando a esse meio um pouco de civilidade. 
 
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Figura 73 \u2013 Sala de jantar, onde se deixou à mostra toda a riqueza das faixas e do seu uso de 
cores. 
Fonte: Amoroso M.R. (2006) 
 
Nos cômodos, o uso de cores, com recurso aos pigmentos coloridos, e o 
trabalho realizado nas faixas decorativas, com a utilização da técnica de tromp-
oiel, deram às casas rurais um aconchego maior, uma nobreza similar às salas 
européias, como podemos notar na Fazenda São Vicente. A decoração de 
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suas paredes internas, todas com decoração pictórica superiores, denota a 
preocupação em estar atualizado aos modelos decorativos europeus. 
No processo de restauração da Fazenda São Vicente, concluído em 
2006, buscou-se deixar à mostra toda a riqueza das faixas decorativas e do 
seu uso de cores que antes estavam encobertas nas sucessivas camadas de 
tintas que as paredes receberam ao longo dos anos. A decoração dos 
cômodos destinados à parte social da casa, em contraposição às partes 
íntimas, limitadas estas ao uso da família e serviçais, recebiam uma decoração 
mais destacada, como é o caso da sala de visitas, do escritório e da sala de 
jantar. 
Nas faixas decorativas das paredes desta sala da sede da Fazenda São 
Vicente observa-se uma quantidade significativa de motivos decorativos: flores 
do brejo, mini bouquet de hortência ou violeta, desenho geométrico. 
Provavelmente, pelas pesquisas de cores realizadas durante o restauro, essa 
deve ter sido a primeira sala a ser pintada (sala de visitas), pois todas as cores 
encontradas nas outras faixas da casa parecem derivadas da mesma palheta 
de cores, a qual, como tudo indica, foi