ARTIGO SOBRE ESCRAVIDÃO CONTEMPORÂNEA - Paulo Marcelo Scherer
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ARTIGO SOBRE ESCRAVIDÃO CONTEMPORÂNEA - Paulo Marcelo Scherer


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no Brasil, inicialmente escravo e, após a abolição da 
escravidão, nas relações de emprego, permite considerar que no país o trabalhador 
manteve-se em condições precárias, com a anuência do Estado, que se posicionava 
ao lado dos senhores ou empregadores. Percebe-se que durante longo período 
esteve ausente da vida do país a consciência de direitos das classes operárias. 
Ponderando-se sobre o contingente de trabalhadores e a força do capital, é 
possível perceber a importância da regulação deste setor e do impacto que provoca. 
Conforme Delgado (2008, p. 1.161), \u201c[...] o direito do trabalho consumou-se como 
um dos mais eficazes instrumentos de gestão e moderação de uma das mais 
importantes relações de poder existentes na sociedade contemporânea, a relação 
de emprego\u201d, permitindo que se utilize o mundo do trabalho na consecução do 
projeto político dominante. 
 
 
77
Pode-se observar que a inclusão de tratados internacionais, no caso os 
tratados da OIT, no ordenamento interno, tem a possibilidade de ampliar os direitos 
dos trabalhadores colocando-os em condições similares aos trabalhadores de outros 
países que também observam estas normas. 
Se analisadas as Convenções da OIT e o processo de recepção destas no 
ordenamento brasileiro, percebe-se que elas não foram recepcionadas em sua 
totalidade e que, mesmo as recepcionadas, não receberam esta condição 
imediatamente após a sua elaboração. 
Os dados analisados103 demonstram que o país é membro da OIT desde a 
sua fundação em 1919. Observa-se que até o início do ano de 2014 o Brasil havia 
recepcionado 96 Convenções, mas 15 delas foram denunciadas, ou seja, deixaram 
de fazer parte das normas que o país se propõe a cumprir. Esta denúncia, em parte, 
se deu pela adoção de outra Convenção que tratava do tema. Hoje, 81 Convenções 
vigoram no país. 
A importância da construção de direitos fundamentais nas relações sociais do 
trabalho como forma de efetivação da dignidade da pessoa humana, presente nos 
tratados internacionais, é apresentada por Ingo Wolfgang Sarlet (2011, p. 109): 
 
Em verdade, cuida-se \u2013 em boa parte \u2013 de direitos fundamentais de 
liberdade e igualdade outorgados aos trabalhadores com o intuito de 
assegurar-lhes um espaço de autonomia pessoal não mais apenas em face 
do Estado, mas especialmente dos assim denominados poderes sociais, 
destacando-se ainda, a circunstância de que o direito ao trabalho (e a um 
trabalho em condições dignas!) constitui um dos principais direitos 
fundamentais da pessoa humana. 
 
Se a relação capital e trabalho pode resultar em condições indignas aos 
trabalhadores e pelas normas oriundas dos Estados ainda não se superou 
totalmente esta condição, deve-se garantir, além da autonomia dos trabalhadores, 
fundamentadas na liberdade e igualdade, também um conjunto de direitos sociais 
que estabeleça o trabalho de forma decente. 
 
 
103
 Os elementos analisados estão disponíveis no site da OIT Brasil. Foram consideradas as 
Convenções recepcionadas até o mês de março de 2014. 
 
 
78
Este trabalho decente é condicionado por um conjunto de direitos, entendidos 
como mínimos necessários para o trabalhador, e contempla a existência do trabalho, a 
liberdade de sua realização, a igualdade em suas condições e a justiça na 
remuneração, e ainda que preservem a saúde e a segurança do trabalhador, além da 
proibição do trabalho infantil, liberdade sindical e proteção social (BRITO FILHO, 2010). 
Nesta perspectiva, ao analisar as condições supradescritas para que se tenha 
um trabalho decente, considerando os tratados internacionais e a Carta Magna 
brasileira, percebe-se que estes propósitos já estão presentes, seja pela recepção 
de normas da OIT que tratam destes temas, seja pela incorporação na Constituição 
dos direitos que, juntos, afirmam a dignidade mínima ao trabalhador. 
Se no preâmbulo da OIT, quando da sua criação, é registrado que a \u201cpaz para 
ser universal e duradoura deve assentar sobre a justiça social\u201d,104 este propósito 
deve ser objeto de permanente busca. A Constituição Brasileira observa esta 
condição também em seu preâmbulo, quando institui como propósito do país, dentre 
outros, \u201cassegurar o exercício dos direitos sociais e individuais\u201d105 e, 
especificamente, quando se refere como fundamento do Brasil, \u201cos valores sociais 
do trabalho\u201d,106 em clara sintonia com o propósito comum aos povos de estabelecer 
uma sociedade justa, considerando a importância social do trabalho. 
Também o artigo 170 da Constituição Magna institui que a \u201cordem econômica, 
fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim 
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social\u201d, 
reforçando o compromisso expresso de que o trabalho deve ser justo, assegurando 
aos envolvidos a necessária dignidade. 
A existência destes ordenamentos Constitucionais, que seguem os valores 
produzidos pela Organização Internacional do Trabalho, possui importância para a 
efetividade das propostas, orientando as esferas públicas e os empresários, 
conforme explica Marrero: 
 
104
 Preâmbulo da OIT. Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/decent-
_work/doc/constituicao_oit_538.pdf>. Acesso em: 5 dez. 2013. 
105
 Preâmbulo \u2013 [...] destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a 
segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de 
uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e 
comprometida, na ordem interna e internacional [...]. 
106
 Constituição Federal Brasileira. Artigo 1, IV. 
 
 
79
Él derecho constitucional al trabajo proyecta su eficacia hacia un doble 
destinatario: los poderes públicos, como garantes de una legislación 
orientada a su pleno desarrollo y fiscalizador de los posibles 
incumplimientos y el empresario, que si bien no puede ser compelido a la 
asignación directa de un puesto de trabajo en la fase precontractual, una 
vez perfeccionado el contrato ha de abstenerse de cualquier actuación 
contraria al derecho comentado (1993, p. 25). 
 
Além da previsão Constitucional do valor social do trabalho, com todos os 
fatores que a permeiam, dentre elas condições dignas, salário justo, jornada 
razoável, não descriminação e isonomia, também se encontram elencados no artigo 
7 da Lei Maior especificidades sobre os direitos dos trabalhadores.107 
O legislador constituinte instituiu vários mecanismos de aproximação do 
ordenamento interno com normas internacionais. Inicialmente estabelece na 
Constituição princípios gerais que norteiam as relações sociais do trabalho. Também 
inclui normas específicas acerca das condições para a realização das atividades 
laborais, além de constituir a recepção dos tratados internacionais, que asseguram 
aos trabalhadores os direitos presentes nos tratados recepcionados, resguardando-
se condições melhores já existentes na ordem jurídica interna, com a prevalência do 
princípio da norma mais benéfica.108 
A presença de valores sociais do trabalho na Constituição Federal Brasileira 
não introduziu no país os preceitos da OIT. Este processo é resultado histórico, 
principalmente durante o século 20, porém em nenhum momento esteve tão 
presente quanto na Carta Magna Brasileira de 1988, o que amplia a sua afirmação, 
conforme destaca Piovesan: 
 
Logo, se os direitos implícitos apontam para um universo de direitos 
impreciso, vago, elástico e subjetivo, os direitos expressos na Constituição e 
nos tratados internacionais de que o Brasil seja parte compõem um universo 
claro e preciso de direitos. Quanto a estes últimos, basta examinar os 
tratados internacionais de proteção dos direitos humanos ratificados pelo