Dano existencial - zeno simm
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Dano existencial - zeno simm


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fundamentales. p. 87.
108 SARLET. I. W. Direitos fundamentais... op. cit. p. 85-6.
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corresponde mais e melhor com as novas necessidades
empresariais, as novas formas de organização de trabalho e a
flexibilização normativa, mesmo que em determinadas ocasiões
possa entrar em contradição com os interesses empresariais.109
É ainda Ingo Sarlet que salienta que dentro de um modelo de Estado
democrático e social de Direito, no caso das relações privadas caracterizadas
pela desigualdade \u201co particular mais \u2018poderoso\u2019 se encontra diretamente
vinculado aos direitos fundamentais do outro particular (embora ambos sejam
titulares de direitos fundamentais)\u201d e tal vinculação deve ser reconhecida na
ordem jurídica, asseverando que \u201cquanto mais sacrificadas a liberdade e a
igualdade substanciais, maior haverá de ser o grau de proteção exercido pelo
Estado no âmbito dos seus deveres gerais e específicos de proteção\u201d, devendo
atuar positivamente para compensar as desigualdades, \u201cmediante intervenção
na esfera da autonomia privada e da liberdade contratual\u201d, lembrando, por fim,
que a Constituição brasileira de 1988 \u201cexpressamente albergou em seu texto
normas de direitos prestacionais tendo como destinatários em primeira linha
sujeitos privados, como ocorre com o direito ao salário mínimo, à gratificação
natalinas, ao adicional de insalubridade e de periculosidade\u201d, por exemplo.110
Também é certo que outros fenômenos contribuíram para a extensão
dos direitos fundamentais no âmbito das relações laborais.
Por diversas razões (especialmente de ordem social e econômica,
aliadas ao fenômeno da globalização), o Direito do Trabalho passou a sofrer
profundas transformações, dentre as quais uma diminuição das normas de
origem estatal. Com efeito, as tendências de flexibilização e
desregulamentação mostram que o Estado assumiu um novo papel nas
relações laborais, delas afastando-se para dar lugar a uma maior atuação dos
sindicatos, daí porque se observou uma diminuição das normas estatais111 e
um aumento das normas originárias das negociações coletivas. Todavia, os
sindicatos também foram perdendo força e tiveram diminuídos seus poderes de
pressão e de barganha. Os trabalhadores, então, perceberam que perderam o
referencial legislativo, mas igualmente ficaram sem a referência sindical, e, por
109 CASAS BAAMONDE, Maria Emília. ¿Una nueva constitucionalización del Derecho del
trabajo? p. 7.
110 SARLET. I. W. Direitos fundamentais... op. cit.. p. 87-8.
111 Atualmente, parece mesmo que há mais leis de matéria procedimental, sobre negociação,
políticas de emprego etc., e menos legislação criando direitos substantivos.
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isso, foram procurar seus direitos na Constituição, buscando os direitos
fundamentais para restabelecer o equilíbrio entre seus direitos e os poderes
empresariais, invocando com maior intensidade os direitos fundamentais como
seus direitos de ser humano e de limitação do poder empresarial.112
Outro fator que igualmente fomentou a aplicação dos direitos
fundamentais no âmbito laboral foi, segundo Salvador del Rey Guanter, a
coincidência que existe entre direitos fundamentais e contrato de trabalho, por
seu caráter eminentemente antropocêntrico. Como justifica o professor de
Barcelona,
o ser humano, e mais concretamente a proteção de sua dignidade e o
potencial do desenvolvimento de sua personalidade, estabelecem um
vaso comunicante direto entre a Constituição e o ordenamento
trabalhista. O trabalho é um âmbito essencial para a dignidade do
homem e transcendental para o livre desenvolvimento da
personalidade, de forma que o trabalho está constitucionalmente
condicionado pelos valores e princípios que servem de fundamento
aos direitos fundamentais.113
Por isso, como salienta Jesús R. Mercader Uguina, houve um renovado
interesse (em verdade, nunca perdido) sobre matérias como a intimidade do
trabalhador dentro e fora do local de trabalho, a proteção da sua imagem física,
a tutela das inspeções médicas dos trabalhadores, dos exames psicológicos, a
proteção contra o assédio sexual, os efeitos que sobre a relação laboral marca
a liberdade religiosa e ideológica do trabalhador e outras.114
II.2 \u2013 DIREITOS FUNDAMENTAIS DE APLICAÇÃO ESPECÍFICA NA
RELAÇÃO DE EMPREGO NO BRASIL
Dentre o vasto rol de direitos fundamentais reconhecidos pela ordem
jurídica em favor do ser humano, há alguns que não têm aplicação no marco
das relações de trabalho, outros se aplicam em várias situações e também no
112 VALDÉS DAL-RÉ, F. Informação verbal em aula administrada no curso de doutorado em
Derechos Sociales (Anamatra-UCLM), Universidad de Castilla-La Mancha, Ciudad Real,
Espanha, em 13 set. 2004.
113 DEL REY GUANTER, S. Op. cit., p. 201.
114 MERCADER UGUINA, Jesús R. Derecho del Trabajo, nuevas tecnologías y sociedad de la
información. p. 98.
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âmbito das relações laborais e outros, finalmente, são típicos e específicos do
mundo trabalhista.
Para Siqueira Neto, neste contexto apresentam-se como estandartes
essenciais dos ordenamentos jurídicos os direitos concernentes à proibição de
discriminação, à liberdade ideológica e religiosa, o direito à intimidade e as
liberdades de expressão e informações. \u201cEsses direitos, liberdades e garantias
são a base dos Direitos Fundamentais, verdadeiros pontos de partida para a
concretização de todos os demais direitos e garantias. Por mais diferenças e
especificidades que possam conter os distintos sistemas jurídicos e suas
normas, todos os países averiguados contam com dispositivos ou regras de
segurança que tecem os direitos em foco.\u201d 115
Vale dizer, ao lado de direitos fundamentais tipicamente laborais, ou
específicos da área trabalhista (como a liberdade sindical116 e o direito de
greve117, ou mesmo todos os arrolados nos arts. 7º. a 11 da Constituição),
aplicam-se também às relações laborais os chamados \u201cdireitos fundamentais
inespecíficos\u201d (que se destinam indistintamente à generalidade das pessoas).
Estes últimos, embora de titularidade genérica, ganham uma feição laboral por
sua utilização no âmbito do contrato de emprego. Ou, como diz Salvador del
Rey Guanter, citando Manual Carlos Palomeque López,
são direitos atribuídos com caráter de generalidade aos cidadãos,
que são exercidos no seio de uma relação jurídica trabalhista por
cidadãos que, ao mesmo, tempo são trabalhadores e, por isso se
convertem em verdadeiros direitos trabalhistas em razão dos sujeitos
e da natureza da relação jurídica em que incidem. Em resumo, são
direitos do cidadão trabalhador que os exercita como trabalhador
cidadão.118
Dentre os direitos fundamentais do indivíduo aplicáveis no âmbito das
relações de trabalho, destacam-se: a) o que assegura o princípio da igualdade,
115 SIQUEIRA NETO, J. F. Op. cit., p. 172.
116 Constituição federal brasileira, artigo 5º.: \u201cXVII - é plena a liberdade de associação para fins
lícitos [...]\u201d; \u201cXVIII - a criação de associações [...] independem de autorização, sendo vedada a
interferência estatal em seu funcionamento\u201d; \u201cXX - ninguém poderá ser compelido a associar-se
ou a permanecer associado\u201d; artigo 8º.: \u201cÉ livre a associação profissional ou sindical [...]\u201d.
117 Constituição federal, artigo 9º.: \u201cÉ assegurado o direito de greve, competindo aos
trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por
meio dele defender\u201d.
118 DEL REY GUANTER, S. Op. cit., p. 195 (grifos do original).
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vedando a discriminação sob suas mais variadas formas119; b) os direitos de
personalidade (a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem)120; c) a
liberdade de expressão e de informação121; d) a liberdade de crença e de
ideologia122; e) o sigilo de correspondência e de comunicações em geral123; f) a
proteção à saúde e à integridade física no local de trabalho124; g) o acesso ao
Judiciário