suas_trabalhosocial_vulnerabilidade_consumodedrogas-1.pdf
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a luta contra ele, o combate à angústia e ao sofrimento, 
a falta de coragem, a fome, dentre outras. 
A noção de \u201cuso de drogas\u201d envolve diferentes usos, de diferentes 
substâncias, com objetivos diversos e sentidos variados. Quando se fala nos \u201cefeitos 
das drogas\u201d, é comum que se privilegie o que se poderia chamar de \u201cefeitos 
colaterais\u201d, ou seja, o impacto do uso de uma determinada droga sobre o organismo, 
com ênfase nos riscos e danos associados. Não é apenas isso, existe ainda a dimensão 
da compreensão dos usos de drogas como desejo (vontade) do sujeito, suas intenções 
ao consumir determinada substância, deste ou daquele jeito, nesta ou naquela 
circunstância, associado ou não à dependência. 
 Segundo a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), droga \u201cé 
toda substância não produzida pelo organismo, que tem a propriedade de atuar 
sobre um ou mais de seus sistemas, produzindo alterações em seu funcionamento\u201d 
(BRASIL, 2011). A definição da OMS é adotada pela Secretaria Nacional de 
Políticas sobre Drogas no Brasil e considera que a droga pode produzir benefícios, 
por ocasião do tratamento de doenças, como os medicamentos, mas pode trazer 
malefícios à saúde, como as substâncias tóxicas e venenos. 
Ao chamar a atenção para a pluralidade dos sujeitos e das questões associadas 
ao consumo do álcool e outras drogas, é importante ressaltar as situações de 
vulnerabilidades e riscos pela fragilização de vínculos familiares, sociais e 
comunitários; dificuldades na realização de atividades cotidianas, como trabalho, 
estudos, lazer e outros papéis sociais, como ser pai, mãe, companheiro, filho, amigo; 
vivências com baixa autoestima; sensação de culpa e derrota, agressividade, 
desconfiança, delírios; privações vividas pelo não acesso às políticas públicas; 
segregação, preconceito e estigma e pela negação da cidadania, entre outros.. Neste 
contexto, a compreensão da diversidade humana possibilita a ampliação do olhar 
para a fragilização social da vida quando associada às drogas. Entender essa 
diversidade possibilita evitar ações que reproduzam efeitos estigmatizantes ou 
segregadores por vezes mais danosos que o próprio consumo da droga. 
 
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Como referenciado neste documento, existem variados usos e tipos de drogas, 
mas não existe um sujeito claramente identificável como \u201cusuário de drogas\u201d. Não há 
características que possibilitem a construção de um \u201cperfil\u201d do usuário de drogas. 
São pessoas de todas as idades, religiões, posições políticas e orientações sexuais, de 
todas as classes sociais e graus de escolaridade. 
Envolver-se com drogas não é exclusividade de uma classe social, 
de uma etnia, de um gênero, de uma orientação sexual, de uma faixa 
etária, de uma opção religiosa. É preciso ter atenção a este fato, pois a 
generalização implica diminuição do repertório de estratégias de 
atendimento a estas pessoas. 
Em relação às representações sociais relativas às questões de gênero, por 
exemplo, é importante observar a exposição a riscos sociais e pessoais nas quais os 
homens vivenciam nas sociedades, cuja masculinidade é enaltecida e exigida como 
padrão social independente das consequências advindas e da fragilidade dessa 
exposição tais como violência, tráfico, homicídio, etc. Nesse sentido, vale fazer o 
destaque também para a questão de raça, onde a vulnerabilidade é ainda maior no 
que se refere aos jovens negros, os quais ocupam o topo da lista nos índices de 
mortes violentas e em virtude do tráfico de drogas no Brasil. 
Outro recorte decorrente das questões de gênero é a vulnerabilidade social de 
mulheres com relação às drogas, por vezes, incluem a convivência com a perda de 
seus irmãos, filhos e companheiros, pessoas importantes na dimensão afetiva e, 
muitas vezes, para prover o sustento da família. Na obra \u201cFalcão: mulheres do 
tráfico\u201d, Athayde e Bill (2007) relatam seus encontros com diversas destas mães, 
esposas, filhas e irmãs. O autor mostra que, muitas vezes, as famílias pobres 
chefiadas por mulheres sofrem com a cobrança da sociedade no que se refere aos 
cuidados e proteção de seus membros, sentem-se impotentes e isoladas e com 
dificuldades para assumirem sozinhas a proteção da família. 
Neste contexto, nos serviços da Assistência Social, a escuta qualificada dos 
profissionais pode se desdobrar em uma ampliação do olhar para as vulnerabilidades 
da família, no entendimento de suas histórias de vida, dos pactos e alianças, do 
 
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sofrimento compartilhado e da necessidade de uma intervenção mais ampla, 
considerando a complexidade das relações familiares e das variáveis que ali 
interferem, participando ativamente dos cuidados coletivos, contribuindo para 
atenuar sofrimentos, restabelecer vínculos e ampliar as redes de proteção social, 
independência e autonomia no território. 
Esta perspectiva reconhece a amplitude das vulnerabilidades e dos riscos 
pessoais e sociais quando associadas ao consumo de álcool e outras drogas, 
percebendo que não se trata de questões passíveis de serem conduzidas com 
intervenções unilaterais, tampouco desprotegendo os indivíduos e famílias 
envolvidas. As estratégias construídas pelo Estado para fazer frente a estas questões 
precisam ser intersetoriais, envolvendo as áreas de saúde, assistência social, 
educação, esporte, cultura, lazer, trabalho, habitação, qualificação profissional, 
segurança pública, dentre outras, como direito de cidadania, com o objetivo de 
garantir o acesso a bens e serviços em igualdade de oportunidades, contribuindo para 
ampliar aquisições e condições para a superação ou enfrentamento das situações 
apresentadas. 
 
1.2 Conhecendo um pouco mais sobre o álcool e outras drogas para qualificar as 
ações do SUAS com indivíduos e famílias 
 
Conhecer, mesmo que basicamente, sobre os vários tipos de drogas; os efeitos 
esperados; as condições pessoais, sociais e de convivência cotidiana de famílias e 
indivíduos no território, e que podem ampliar as situações de vulnerabilidade e risco, 
é muito importante não só para a estruturação dos serviços, como para a garantia da 
atuação qualificada dos seus profissionais. 
Para compreender o consumo de drogas em suas várias modalidades (uso, 
abuso e dependência) é fundamental refletir sobre algumas questões: por que as 
pessoas procuram as drogas? Os efeitos de uma droga são os mesmos para qualquer 
pessoa? Por que algumas pessoas consomem drogas de forma moderada e outras de 
forma abusiva? Por que será que sob o efeito da mesma quantidade de droga algumas 
pessoas ficam alegres, outras ficam agressivas ou mesmo violentas? 
 
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Vários estudos apontam que os efeitos de uma droga dependem de três 
elementos: 
 
1. Suas propriedades farmacológicas (estimulantes, depressoras ou 
perturbadoras); 
As depressoras são conhecidas por causar diminuição da realização de atividade, da 
capacidade motora, da reação à dor e à ansiedade e podem produzir euforia inicial e 
sonolência, por exemplo, o álcool e os solventes. As estimulantes costumam induzir 
ao aumento da atividade, alerta exagerado, insônia, aceleração dos processos 
psíquicos, dentre elas, a cocaína. Por ultimo, as drogas consideradas perturbadoras, 
que podem desencadear alucinações, perturbações e delírios, dentre elas, a maconha. 
(SENAD, 2011. p. 18) 
2. A pessoa que a usa, suas condições físicas e psíquicas, inclusive suas 
expectativas; 
3. O ambiente e o contexto de uso dessa droga, tais como as companhias, o 
lugar de uso e o que representa esse uso socialmente. 
Olhando com cuidado, entretanto, os três elementos acima convergem para 
um deles, apenas: o usuário. O mesmo ambiente e o mesmo contexto influenciam 
diferentemente