História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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ancilla dominae quodam famulatus obsequio (ibid. 5).

A tese típica de Pedro Damiano é a da superioridade da omnipotência divina

nos confrontos da natureza e da história. Uma vez que as leis são atribuídas

à natureza por Deus, as coisas naturais obedecem às suas leis até que Deus o

queira; mas, quando Deus não quer, esquecem a sua natureza e obedecem a Ele.

A omnipotência divina não encontra nenhum limite, nem mesmo no passado: pois

Deus pode fazer com que as coisas que aconteceram não tenham acontecido:

portanto o pode (no tempo presente) refere-se à vontade de Deus que é eterna

e está fora do tempo; e nós devemos antes dizer que podia

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não fazê-las acontecer. A muitos dos próprios Escolásticos considerações

semelhantes parecerão implicar a tese da superioridade da omnipotência divina

em relação ao próprio princípio da contradição: aquela tese pode, com efeito,

exprimir-se com a afirmação de que Deus pode fazer com que não tenham

acontecido as coisas que aconteceram. De qualquer modo, Pedro Damiano servia-

se da tese da omnipotência divina para retirar validade autónoma ao mundo da

natureza e do homem; e mesmo no campo político (como testemunham as

considerações desenvolvidas na sua Disceptatio Sinodalis) a sua preocupação

dominante é a de retirar ao Imperador toda a dignidade de potência autónoma e

de considerá-lo como um simples delegado do Papa.

NOTA BIBLIOGRÁFICA

§ 187. As obras de Gerberto, em Patrist. Lat., vol. 139, 57-338; outra edição

de Olleris, Paris, 1867. Epistolae, ed. Havet, Paris, 1889; Opera

mathematica, ed. Bubnov, Berlim, 1899.-PICAVET, Gerbert ou le pape

philosophe, Paris, 1897; LEFLON, Gerbert, P=3,

1946.

§ 188. As obras de Berengãrio in P. L., 150.1; De sacra coena, ed. Vischer,

Berlim, 1834; ed. Beekenkamp, L'Aya, 1941.-A. J. MACDONALD, Berengar and the

Reform of Sacramental Doctrine, Londres, 1930.

As obras de Lanfranco in P. L., 150.'.-MACDONALD, Lanfrane, Oxford, 1926.

As obras de Pedro Damiano in P. L., 144.o-145.o; De divina omnipotentia e

outros opusculos, ao cuidado de Brezzi e Nardi, com trad. ital., Florença,

1943. -ENDREs, nei "Beitrãge", VLU, 3, 1910; J. GONSETTE, P. D. et Ia culture

profane, Lovaina, 1956.

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IV

ANSELMO DE AOSTA

§ 189. ANSELMO: A FIGURA HISTÓRICA

Anselmo de Aosta representa a primeira grande afirmação da investigação na

Idade Média. Mas a sua investigação tem mais um valor religioso e

transcendente do que humano. Com acentos agustinianos, abandona a Deus a

iniciativa e a orientação das suas pesquisas; e no esforço de aproximar-se da

verdade revelada não vê mais que a progressiva acção iluminadora da própria

verdade. "Ensina-me a procurar-te, diz (Pros., 1), e mostra-te a mim que te

procuro. Eu não posso procurar-te, se Tu não me ensinas, nem encontrar-te se

Tu não te mostras. Que eu te procure desejando-te, que eu te deseje

procurando-te, que te encontre amando-te e que te ame procurando-te.

Reconheço-te, Senhor, e dou-te graças por teres criado em mim esta tua imagem

para que me lembre de Ti, pense em Ti e te ame; mas esta imagem está tão

gasta pela miséria dos vícios, tão ofuscada pela acumulação dos pecados, que

não pode fazer aquilo para que foi feita se Tu não a renovares e a não

reconstituíres. Não pretendo,

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Senhor, penetrar na tua altíssima dignidade, porque não posso, de facto,

comparar a ela o meu entendimento, mas desejo entender de alguma maneira a

tua vontade que o meu coração crê e ama. Também não procuro entender para

crer mas creio para entender. E também creio nisto: que senão acreditar

primeiro, também não poderei compreendem. A -prioridade da fé sobre a

compreensão exprime claramente o carácter religioso da investigação de

Anselmo, tal como a prioridade da compreensão sobre a fé exprimirá o carácter

filosófico da investigação de Abelardo.

Esta religiosidade encontra a sua melhor expressão no ponto culminante da

investigação de Santo Anselmo, a prova ontológica da existência de Deus. Como

o próprio Anselmo reconhece, na sua resposta a Gaunilon, o pressuposto da -

prova é a fé. Só a fé transforma em afirmação indubitável a possibilidade de

pensar o ser maior de todos. Se se pode pensar este ser, deve-se pensá-lo

como existente; mas não se pode pensá-lo verdadeiramente apenas com a fé. A

prova ontológica é a própria fé que esclarece o seu princípio e se converte

em certeza intelectual.

§ 190. ANSELMO: VIDA E OBRA

Anselmo nasceu em 1033 em Aosta, no Piemonte. Entrou para o mosteiro de Bec,

na Normandia, foi prior em 1063 e abade em 1078. A maior parte das suas obras

são o resultado das discussões que dirigia no mosteiro. De 1093 até

1109, ano da sua morte, foi arcebispo de Cantuár@a.

O seu secretário, Eadmer, dá-nos uma pormenorizada descrição da sua vida. De

natureza dócil e contemplativa, Anselmo foi impelido para a vida do claustro

por necessidade de recolhimento e de

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meditação. A sua fama de santo atribuiu-lhe bem cedo poderes sobrenaturais.

Curou e levou à penitência um velho monge, de quem previu a morte, que se

verificou na altura e da forma que havia predito. Apagou um incêndio numa

casa vizinha do mosteiro fazencio o sinal da cruz sobre as chamas. E uma vez

que estava na sua cela meditando sobre o dom da profecia viu através, das

paredes, os frades que preparavam na igreja o ofício da meia-noite. Afastado

contra a sua vontade da vida contemplativa, teve que ocupar-se de negócios e

política, primeiro como abade de Bec e depois como arcebispo de Cantuária. Na

qualidade de arcebispo viu-se envolvido na vida agitada da Igreja inglesa nos

tempos de Guilherme o Vermelho que pretendia subordinar à sua vontade o cloro

inglês e subtrair-se à vontade papal. Anselmo dirigiu-se a Roma para buscar

apoio e conforto junto de Urbano 11. Regressado a Inglaterra teve novos

desentendimentos com Henrique 1, que queria conservar o direito de

investidura dos bispos com o anel e a cruz. Conseguiu um compromisso pelo

qual o rei renunciava a conferir a investidura e os bispos rendiam-lhe

homenagem (1106). Alguns anos depois, Anselmo, que nunca abandonara as suas

meditações, morria, quando procurava concluir as suas investigações sobro a

origem da alma.

Entre os anos 1070 e 1078 Anselmo compôs o Monologion, cujo primeiro capítulo

era Exemplum meditandi de ratione fidei; em seguida o Proslogion, que

primeiramente se intitulava Fides quarens intellectum e o apêndice polémico

Liber apologeticus contra Gaunilonem; em continuação, compôs quatro diálogos,

De veritate, De libero arbítrio De casu diabuli, De gramatico. Nos últimos

anos da sua vida escreveu o Cur Deus homo e o seu apêndice De conceptu

virginali. Outras obras suas: De fide

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TritWatis, De concordia praescientiae et praedestinationis, Meditationes, e,

além disso, homilias, discursos e cartas.

§ 191. ANSELMO: FÉ E RAZÃO

A frase que exprime a posição de Anselmo, sobre o problema escolástico é a

seguinte: Credo ut inielligum (Pros., 1). A fé é o ponto de partida da

investigação filosófica. Nada se pode compreender se não se tem fé; mas a fé

por si só não basta, é preciso confirmá-la e demonstrá-la. Esta confirmação é

possível. "0 que nós cremos pela fé sobre

* natureza divina e as pessoas da mesma, excepto

* encamação, pode ser demonstrado com razões necessárias, sem se recorrer à

autoridade das Escrituras" (De fide Trin., 4). E, uma vez que isso é

possível, passa a ser um dever: "É negligência não intentar compreender o que

se crê, depois de havermos sido confirmados pela fé" (Cur Deus homo,

12). A própria encarnação é apresentada por Anselmo, na obra que dedicou a

este tema, como uma verdade que a razão pode alcançar por si própria; não

existe dúvida, com efeito, de que os

homens não teriam podido salvar-se, se o próprio Deus