História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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não tivesse

encarnado e não tivesse morrido por eles (ibid. prol.). Deste modo, Anselmo

considera o acordo entre a fé e a razão intrínseca e essencial. Certamente

que, se uma contradição se produzisse, não seria necessário admitir a verdade

do raciocínio, mesmo quando este parecesse irrefutável (De concordia

praescientiae, 6); mas Anselmo está intimamente seguro de que não pode haver

uma

verdadeira contradição, porque a inteligência está iluminada pela luz divina,

exactamente como a fé.

O que não implica, por outro lado, que a verdade se encontre inteiramente ao

alcance do homem. "Seja o que for que o homem possa dizer sobre o saber,

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afirma Anselmo, as razões supremas, os mistérios da fé, -permanecem sempre

escondidos" (Cur Deus homo, 1, 2). O que investiga uma realidade

incompreensível, como é a Trindade, deve bastar-lhe alcançar com a

inteligência o conhecimento de que isso exista, ainda que não compreenda de

que modo exista. (Mon., 64). Anselmo afirmou desta forma, em limites

extensos, o valor da investigação.

Distingue a verdade do conhecimento, a verdade do querer e a verdade da

coisa. A verdade do conhecimento consiste na conformidade do conhecimento com

a coisa e consegue-se quando se conhece a coisa tal como é. Esta verdade

define-a Anselmo como rectitudo cognitionis. A verdade da vontade é,

analogamente, rectitudo voluntatis. Agir segundo a verdade, significa fazer o

bem, fazer o que se deve fazer. Mas também aqui o critério é objectivo; a

medida está no objecto, isto é, na coisa. O fundamento de toda a verdade é a

verdade da coisa, a rectitudo rei. Mas esta verdade, por sua vez, está

fundada na verdade eterna, que é Deus: as coisas são verdadeiramente aquelas

que estão na mente de Deus, na qual subsistem as suas ideias ou exemplares. O

próprio Deus é, portanto, a absoluta verdade, que é norma e condição de

qualquer outra verdade (De verit., 2-10). Anselmo segue aqui os passos da

especulação de Santo Agostinho na sua De vera religione. No âmbito do

pensamento platónico-agustiniano movem-se também as suas investigações sobre

a existência de Deus.

§ 192. ANSELMO: A EXISTÊNCIA DE DEUS

O Monologion é um conjunto de reflexões sobre a essência divina que conduzem

a uma demonstração da existência de Deus. Anselmo parte do pressuposto de que

o bem, a verdade, e em geral

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todo o universal, subsiste independentemente das coisas particulares e não

apenas nelas. Há muitas coisas boas, quer sejam meios, isto é, por utilidade,

quer sejam fins, isto é, pela sua bondade ou beleza intrínseca. Mas todas são

mais ou menos boas e não de forma absoluta; pressupõem, portanto, um bem

absoluto, que seja a sua medida e do qual obtenham o grau de bondade ou

verdade que possuem. Este sumo bem é Deus. Da mesma maneira, tudo o que é

perfeito e, em geral, tudo o que existe, existe por participação de um Ser

único e sumo. O sumo bem, o sumo ser, o sumo grau, tudo o que no mundo tem

verdade e valor, coincidem em Deus.

O Monologion desenvolve uma argumentação cosmológica que vai do particular ao

universal e do universal a Deus. O Proslogion desenvolve, pelo contrário, uma

argumentação ontológica que começa no simples conceito de Deus para chegar à

demonstração da sua existência. Está dirigido contra a negação pura e simples

da existência de Deus, contra o néscio do Salmo XIII "que disse em seu

coração: Deus não existe". Evidentemente, mesmo o que nega a existência de

Deus deve pensar no conceito de Deus, pois é impossível negar a realidade de

algo que nem sequer se pensa; a prova que vai do conceito à realidade é,

portanto, a que não pode ser negada de modo nenhum. Portanto o conceito de

Deus é o de um Ser maior de que não se pode pensar nada maior (quo maius

cogitari nequit). Mesmo o néscio deve admitir que o Ser, a respeito do qual

nada maior pode ser pensado. existe no intelecto, mesmo que não exista na

realidade. Com efeito, uma coisa é existir na nossa inteligência, e outra

coisa existir na realidade; a imagem que o pintor quer pintar não existe

ainda na realidade, mas existe certamente no seu pensamento. Posto isto,

aprova de Anselmo é a seguinte:

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"Certamente, aquilo de que não se pode pensar nada maior, não pode existir

apenas no intelecto. Porque se existisse apenas no intelecto, poder-se-ia

pensar que existe também na real-idade e que, portanto, era maior. Assim, se

aquilo em relação ao qual nada maior se pode pensar existe apenas no

intelecto, aquilo em relação ao qual nada maior se pode pensar é, por sua

vez, aquilo de que se pode pensar algo de maior. Mas isto é, certamente,

impossível. Portanto, não há dúvida de que aquilo do qual nada maior se pode

pensar existe tanto no intelecto como na realidade. "(Prosl., 2). O argumento

baseia-se em dois pontos: 1.o que o que existe na realidade é "maior", ou

mais perfeito do que o que existe apenas no intelecto; 2.o que negar que

existe realmente aquilo em relação ao qual nada maior pode pensar-se,

significa contradizer-se, porque significa admitir que se pode pensá-lo

maior, isto é, existente na realidade. À objecção de que então não se vê como

é possível pensar que Deus não existe, Anselmo responde que a palavra

pensar tem dois significados: pode pensar-se a palavra que indica a coisa e

pode pensar-se a própria coisa. No primeiro sentido pode pensar-se que

Deus não existe, como, por exemplo, se pode pensar que o fogo é água; no

segundo sentido, não se pode pensar que Deus não existe (Prosl., 4).

Ao argumento ontológico, o monge Gaunilone, do mosteiro Mar-Montier, no seu

Liber pro insipiente, opôs que, em primeiro lugar todo aquele que

decididamente nega a existência de Deus começaria por negar que tivesse o Seu

conceito (que é o ponto de partida do argumento ontológico); e, em segundo

lugar, mesmo admitindo que se tenha o conceito de Deus como o de um ser

perfeitíssimo, deste conceito não pode deduzir-se a existência de Deus, da

mesma maneira que não pode deduzir-se

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a realidade de uma ilha perfeitíssima a partir do conceito de tal ilha.

Anselmo replicou com o Uber apologeticus. É impossível negar que se pode,

pensar em Deus: para demonstrax esta impossibilidade basta a mesma fé de que

tanto Anselmo como Gaunilonern estão dotados; e se se pode pensar em Deus,

deve-se reconhecê-lo como existente, sendo impossível negar a existência

àquilo que se pode pensar como a maior de todas as coisas. De uma ilha

fantástica, ainda que se a conceba perfeita, não se pode dizer que ;seja

aquilo em relação ao qual nada mais perfeito pode pensar-se. Da possibilidade

de pensá-la não se segue da simples possibilidade de pensar em Deus como o

ser mais perfeito de todos.

O argumento ontológico foi uma vez defendido e outras criticado durante a

Escolástica e estas alternativas mantiveram-se no pensamento moderno. Na

realidade, o argumento não é uma prova mas um princípio. Não é uma prova,

porque a existência que se pretende deduzir está já implicitamente contida na

definição de Deus como o ser em relação ao qual nada maior se pode pensar e,

por isso, no simples pensamento de Deus: como prova é um círculo vicioso.

Como princípio, exprime a identidade de possibilidade e realidade no conceito

de Deus. Se se pode pensar Deus, deve-se pensá-lo como existente: o

pensamento de Deus é o próprio pensamento desta identidade da possibilidade e

da existência, identidade que, como Anselmo afirma no Liber apologeticus, é

realizada pela fé. A fé consiste precisamente em admitir, como

necessariamente real, a perfeição possível: o argumento ontológico, que deduz

dessa perfeição aquela existência não é, por conseguinte, outra coisa senão a

explicação da fé na sua expressão racional ou no seu princípio lógico. Trata-

se uma vez mais das fides