História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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quarens intellectum, do credo ut intellígam: do

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processo através do qual o acto de fé se converte em acto de razão e a

iluminação divina em investigação filosófica.

§ 193. ANSELMO: A ESSêNCIA DE DEUS

Das próprias provas que demonstram a existência de Deus, resulta que só Deus

é o ser perfeito e absoluto e que as outras coisas quase não são ou apenas

são (fere non esse et vix esse, Mon., 28). Sujeito ao devir e ao tempo, o ser

das coisas finitas começa e acaba continuamente e continuamente muda; é por

isso um ser aproximativo e apenas tal, não podendo ser comparado com o ser

imutável de Deus. Ao qual Santo Anselmo reconhece aquela necessidade, cujo

conceito ia sendo elaborado pela escolástica árabe, a partir de Avicenas. A

natureza de Deus é tal que não pode proceder nem de si nem de outro; nem dá a

si própria uma matéria da qual possa ser retirada, nem outro pode dar-lhe tal

matéria (Mon., 6). É, portanto, originária e necessária.

Por conseguinte, as propriedades que se afirmam da natureza divina devem ser

predicados dela quidditativamente e não qualitativamente: isto é, como partes

ou aspectos integrantes da essência divina, mas de forma alguma diversas

desta essência. Deus não pode ser justo ou sábio, se o não for em si e por

si; não é, certamente, pela participação de uma justiça ou sabedoria

distintas d'Ele. O melhor portanto, é dizer não que Deus é justo, mas que é *

justiça; não que tem vida, mas que é a vida; * analogamente que é a verdade,

o bem, a grandeza, a felicidade, a eternidade, o poder, a imutabilidade, a

unidade e, em geral, todas as qualidades

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que implicam excelência e perfeição em quem as possui (Mon., 15-16).

Por outro lado, todas estas qualidades não podem subsistir na essência divina

como uma multiplicidade numérica. A natureza divina exclui toda a composição

e não pode constar de partes ou de aspectos diversos. As qualidades diversas

que se lhe atribuem, enquanto idênticas a ela, são idênticas entre si; e

assim a justiça ou a sabedoria e qualquer outra qualidade é a própria

essência divina e, quem afirma uma delas afirma também esta (Mon., 17). Disto

se conclui que a essência divina não é substância, no sentido de substracto

ou esteio de qualidades ou acidentes. É substância no sentido de que subsiste

por si e em si; mas neste sentido não pode ser compreendida sob a categoria

universal de substância, uma vez que está fora de todo e qualquer conceito

genérico. A única determinação que se pode atribuir à essência divina como

substância é a espiritualidade; o ser espiritual é, com efeito, mais

excelente que o ser corpóreo e

por isso o único que é próprio de Deus (Mon., 27).

Uma tal substância está absolutamente para além das variações temporais. Na

vida divina, não existe sucessão, tudo está presente num único acto

indivisível. Está completa de uma vez para sempre na sua totalidade o não

pode ter aumento ou

diminuição (ibid., 24). A sua imutabilidade exclui, em suma, que nela existam

caracteres acidentais, que, como tais, implicariam mutabilidade. Em Deus

podem subsistir tais caracteres, mas não analogamente ao que, por exemplo, é

a cor do corpo, mas apenas como relações determinadas, puramente exteriores,

como quando se diz que é maior que todas as outras naturezas. Só nestes

limites, a categoria de acidente não contradiz a natureza divina (Ibid., 25).

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§ 194. ANSELMO: A CRIAÇÃO

Uma vez que Deus é o ser e as coisas existem apenas pela participação do ser,

toda a coisa tem o seu ser através de Deus. Tal derivação é uma criação do

nada. E de facto, as coisas criadas não podem proceder de uma matéria. Esta,

por sua vez, deveria derivar de si própria, o que é impossível, ou da

natureza divina. Neste caso, a natureza divina seria a matéria das coisas

mutáveis e estaria sujeita às mudanças e à corrupção daquelas. Ela, que é o

Sumo Bem, estaria submetida à mutabilidade e à corrupção; mas o Sumo Bem não

pode deixar de o ser. A matéria das coisas criadas não pode ser nem por si

nem de Deus; não há, portanto, matéria das coisas criadas. Só resta então

admitir que foram criadas do nada (ibid., 7).

Contra a interpretação (que se encontra, por exemplo em Erígena) de que o

"nada" do qual as coisas procedem é algo positivo, por exemplo, uma causa

material ou uma realidade potencial, Anselmo tem o cuidado de acrescentar que

isso não é nem uma matéria nem outra coisa real; e que a expressão criação do

nada significa apenas que o mundo primeiramente não existia mas existe agora.

A expressão "criação do nada" é idêntica à que se emprega dizendo que "se fez

do nada" um homem que agora é rico e poderoso e que dantes não era. Significa

o salto do nada para qualquer coisa (ibid., 8). Todavia, o mundo foi

racionalmente criado e nada pode ser produzido de tal modo sem se supor na

frazão de quem produz um exemplar da coisa a produzir, isto é, uma forma,

similitude ou regra dela. Deve existir, na mente divina, o modelo da ideia da

coisa produzida, como na mente do artista humano existe o conceito da obra

que vai realizar: com a diferença de que o artista tem

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necessidade de uma matéria exterior para realizar a sua obra e Deus não, e de

que o primeiro deve obter das coisas externas o próprio conceito da obra,

enquanto Deus cria por si próprio a ideia exemplar (ibid., 11). Num e noutro

caso, não obstante, a ideia da obra é uma espécie de palavra interior; Deus

manifesta-se nas ideias, como o artista através do seu conceito, mas a

expressão não é uma palavra exterior, uma voz; é a própria coisa, à qual se

dirige o engenho da mente criadora (ibid., 10).

A criação do nada é precisamente esta articulação interior da palavra divina.

Sem a actividade criadora de Deus, nada existe e nada dura; Deus não só dá o

ser às coisas, como também as conserva e faz durar continuando a sua acção

criadora. A criação é contínua (ibid., 13). Daqui se segue que Deus está e

deve estar por todas as partes; onde Ele não está, nada existe e nada está de

pé. Isto não quer dizer, certamente, que Ele esteja condicionado pelo espaço

e pelo tempo. N'Ele não existe nem o alto nem o baixo, nem o antes nem o

depois: Ele está em todas as coisas existentes e em cada uma delas vive uma

vida interminável, que é toda ao mesmo tempo (totum simul) presente e

perfeita (lbid., 14,22-24).

§ 195. ANSELMO: A TRINDADE

A palavra interior de Deus não é o som de uma voz, mas essência criadora.

Este é o ponto de partida da especulação trinitária de Santo Anselmo. Aquela

palavra interior é a divina sabedoria, o Verbo de Deus: por isso tudo foi

dito e tudo foi feito. O Verbo, por um lado, é idêntico com a essência de

Deus; por outro, idêntico com a essência da criatura. É idêntico com a

essência de Deus, porque não é criatura, mas princípio da criatura, e porque

está em Deus, no qual não subsiste nem

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diversidade nem multiplicidade. Por outro lado, é a própria essência das

coisas criadas: pois de que seria Verbo se não fosse Verbo das mesmas? Todo o

verbo é verbo de alguma coisa. É necessário portanto entender que não

existiria o Verbo se não existissem as criaturas? A coisa é

inconcebível, porque o Verbo é necessário e eterno como o próprio Deus. Mas,

por outro lado, se as criaturas não existissem, como poderia ser verbo

 do que não existe? A solução é de que o Verbo é, em primeiro lugar, a

inteligência que Deus tem de si mesmo. Assim, tal como a mente humana tem

conhecimento e compreensão de si própria, o mesmo acontece com Deus: o Verbo

é, portanto, coeterno com Deus porque é a eterna inteligência que Deus tem de

si. Mas, ao mesmo tempo, é também Verbo das coisas criadas. "Com um só e

mesmo Verbo o Sumo Espírito fala de si próprio e de todas as coisas criadas"

(Ibid., 33). Se tais coisas em