História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
50 pág.

História da filosofia III - Nicola Abbagnano


DisciplinaFilosofia35.280 materiais290.203 seguidores
Pré-visualização50 páginas
o nominalismo tenha prevalecido: os problemas da teologia,

respeitantes ao domínio da fé, não interessavam já à filosofia, que se

voltava para outros campos, nos quais se poderiam deter, de forma mais

oportuna e eficaz, os poderes racionais do homem.

84

§ 201. ROSCELINO

A primeira e clamorosa fase da querela dos universais foi provocada pelo

aparecimento em cena de um nominalismo na sua forma mais extrema, defendido

por uma figura singular, a de Roscelino.

Otão de Freising, na sua crónica Sobre as proezas de Frederico, afirma que

Roscelino "foi o primeiro nos nossos tempos, que propôs na lógica a doutrina

das palavras (setentiam vocum)". Sabemos que Roscelino nasceu em Compiègne,

estudou em Soissons e Reims e ensinou como teólogo na escola-cátedra de

Compiègne, depois na de Loches, Bretanha, onde teve entre os seus alunos

Abelardo, e em seguida em Besançon e Tours. Devia ter morrido entre 1123 e

1125, a julgar pelas apóstrofes que Abelardo lhe dirige nos seus escritos.

De Roscelino, temos apenas uma carta dirigida a Abelardo sobre a questão da

Trindade. Não sabemos se escreveu mais alguma outra coisa ou se as suas obras

não foram ainda descobertas entre os manuscritos medievais. É provável que

não tenha escrito mais nada, porque os seus adversários, Anselmo, Abelardo e

João de Salisbúria não lhe atribuem nenhum livro e os Padres do Concílio de

Soissons, que condenaram a sua doutrina trinitária, não deixariam de entregar

às chamas os seus escritos se tivessem existido. Não podemos, portanto,

conhecer a doutrina de Roscelino a não ser a-través dos escritos dos seus

adversários e, especialmente, de Anselmo e de Abelardo. Anselmo coloca

Roscelino entre os dialécticos, mais ainda, entre os hereges dialécticos do

seu tempo, "que acreditam que as substâncias universais não passam de um

sopro de voz (flatus vocis); e que, por "com, apenas entendem o corpo

colorido, e por "sabedoria" a própria alma do homem". Santo Anselmo

acrescenta ainda a explicação de semelhante opinião: tais pessoas perma-

85

n=m enredadas nos sentidos e não conseguem libertar deles a razão. "Nas suas

almas, a razão que deve ser a parte dominante e julgadora de tudo o que há no

homem, está de tal maneira submergida nas imaginações corporais que não

conseguem livrar-se delas; e mantêm-se incapazes de discerni-la quando afinal

deveriam servir-se dela apenas para a especulação". (De fide Trin., 2). Esta

incapacidade de Roscelino para seperar a razão do envólucro sensível é também

motivo, segundo Anselmo, da heresia trinitária defendida pelo clérigo de

Compiègne: "Quem não compreende nem sequer a maneira como os homens

constituem a única espécie homem, como poderá compreender a maneira como

através da misteriosíssima natureza divina, várias pessoas, sendo cada uma

delas um Deus perfeito, constituem as três um só Deus? E quem tem a mente tão

obscurecida que não sabe distinguir o cavalo da sua cor, como poderá

distinguir o Deus único das suas diferentes relações? Em suma, quem não

compreende que o homem não é o próprio indivíduo, de forma alguma poderá

entender por homem a natureza humana" (ibid.). João de Salisbúria dá-nos um

testemunho análogo sobre o nominalismo de Roscelino: coloca-o "entre os que

afirmam que os géneros e as espécies não são outra coisa a não ser vozes"

(Metal., 11, 13, Policrat., VII, 12). Abelardo ilustra-nos outro aspecto de

tal nominalismo. Roscelino sustentou que é impossível que as coisas constem

de partes e que as partes das coisas são, como as espécies, nomes diversos

das próprias coisas (Obras inéditas, edic. Cousin, 471).

Vimos já como Santo Anselmo relaciona com o nominalismo a heresia trinitária

de Roscelino. Ele próprio nos afirma que, segundo Roscelino, "as três pessoas

da Trindade são três real-idades como três anjos ou três almas, apesar de

serem absolutamente

86

idênticas pela vontade e podem (De fide Tiin., 3); podendo-se acrescentar, se

fosse costume admiti-lo, que constituem três divindades (Epist., 11, 41). Mas

sobro esta doutrina temos algumas referências do próprio Roscelino na sua

carta a Abelardo. Roscelino começa por identificar pessoa com substância, a

propósito de Deus. Uma vez que, em Deus, diversos nomes não indicam real-

idades diversas, mas a mesma única e simplicíssima realidade, a pessoa só

pode significar substância. Mas se as pessoas são diversas porque uma gera e

a outra é gerada, é evidente que são diversas as substâncias da Trindade

divina. A Trindade é una pela comunhão das três substâncias, não porque seja

constituída por uma única substância. Reconhece-se, portanto, à Trindade uma

unidade de semelhança ou de igualdade, mas não de substância. Daí se conclui

que Roscelino deduziu o seu trideísmo da identificação de substância e pessoa

(que na tradição eclesiástica sempre foram distintas): e foi levado a essa

identificação por imaginar que as determinações diversas que se atribuem a

Deus não são mais que nomes diversos de uma realidade única.

A heresia de Roscelino foi condenada pela primeira vez num Concílio que se

celebrou em Reims em 1092 ou 1093. Roscelino foi obrigado a abjurar e a ele

se submeteu com receio de ser assassinado pelo povo de Reiras; mas tendo

abandonado a cidade, voltou a defender as suas teses. Foi novamente condenado

em 1094 num concílio convocado pelo rei Filipe para celebrar as suas bodas

com Bertrada. Expulso de França, dirigiu-se a Inglaterra, onde uma nova

perseguição o obrigou a regressar a França. Tornou a aparecer para combater a

doutrina de Abelardo, em 1121. O seu carácter surge-nos, através da carta que

conhecemos dele, como pouco recomendável: ataca Abelardo nos

87

é termos mais violentos e atira-lhe em cara cinicamente a mutilação que lhe

havia sido infligida. 1

§ 202. GUILHERME DE CHAMPEAUX

O realismo de Guilherme de Champeaux opõe-se ao nominalismo de Roscelino.

Guilherme nasceu em Champeaux, perto de Melun, à volta de 1070 e foi

discípulo em Paris de Anselmo de Laon (falecido em 1117), que contou entre os

seus alunos alguns dos homens mais notáveis do seu tempo, entre os quais se

encontravam Abelardo e Gilberto. Até 1108, Guilherme passou da escola

catedral de Paris para a abadia de São Victor, da qual foi prior e abade. Em

seguida foi nomeado bispo de Chálons-sur-Marne. Viveu até morrer em grande

amizade com São Bernardo e faleceu no ano de 1121. Dos seus numerosos

escritos ficaram: o De eucaristia, o De origine animae e um diálogo Sobre a

fé católica.

No que se refere à doutrina sobre os universais,

a nossa principal fonte é a polémica que contra ele desencadeou Abelardo.

Guilherme sustentava a realidade substancial dos universais e afirmava que

tal realidade se encontra inteiramente em todos os indivíduos, que se

multiplicam e se diferenciam entre si por qualidades acidentais. Por exemplo,

a espécie "homem" é uma realidade que permanece una e idêntica em todos os

homens; a ela se acrescentam depois as qualidades acidentais que são

diferentes em Sócrates, Platão e nos outros indivíduos particulares

(Abelardo, Obras inéditas, De gen. et. spec., 513).

Abelardo, que foi discípulo de Guilherme, vangloria-se de o ter obrigado a

modificar, e mais ainda, a abandonar completamente esta tese. Eis o texto de

Abelardo (Hist. calam., 2): "Guilherme corrigiu a

88

sua opinião afirmando que a realidade universal se encontra nos indivíduos

não essencialmente, mas individualmente". Individualiza-se, isto é, nos

indivíduos de modo que perde a sua unidade essencial e se multiplica neles, o

que é uma renúncia a afirmar a realidade em si do universal. Mas com isto a

tese do realismo não se encontrava de todo abandonada: estava apenas

abandonada a realidade separada do universal e admitia-se o universal in i-e,

o universal individualizado