História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
50 pág.

História da filosofia III - Nicola Abbagnano


DisciplinaFilosofia35.335 materiais291.150 seguidores
Pré-visualização50 páginas
e incorporado na mesma coisa individual. Esta é

uma segunda fase do pensamento de Guilherme. Enquanto que a primeira nega

efectivamente a realidade dos indivíduos, reduzindo-os a meras modificações

acidentais da essência universal, a segunda sustenta a realidade dos

indivíduos, afirmando, não obstante, a presença neles da essência universal

individualizada. Um fragmento das Senientiae faz-nos conhecer uma terceira

fase da doutrina de Guilherme sobre os universais; a essência comum dos

indivíduos particulares nem seria a mesma: os diversos indivíduos teriam

apenas essências semelhantes. Nesta terceira fase, a doutrina de Guilherme

transforma-se em puro conceptualismo.

§ 203. O TRATADO "DE GENERIBUS ET SPECIEBUS"

O tratado De generibus et speciebus foi considerado por Cousin como uma obra

de Abelardo e incluído entre as suas obras inéditas. Ritter foi o primeiro a

negar esta atribuição e atribui o tratado a Joscelino (Gausleno, 1125-1151),

bispo de Soissons. Esta atribuição foi logo confirmada por outros eruditos,

e, com efeito, João de Salisbúria, no seu Metalogicus (11, 17) atribui a

Gausleno a doutrina de que o universal é o conjunto das coisas siri-

89

gulares; doutrina contida no tratado. Nele se define a espécie como todo o

conjunto de indivíduos que têm a mesma natureza. "Essa colecção, apesar de

ser essencialmente múltiplice, chama-se tradicionalmente uma só espécie, um

só universal, uma só natureza da mesma maneira que se fala de um só povo,

ainda que este seja constituído por muitas pessoas" (Abelardo, Obras

inéditas, edic., Cousin,

527). Para o indivíduo, a espécie é matéria, a individualidade a forma. Por

exemplo, Sócrates é composto da matéria "homem" e da forma "Sócrates",

Platão, de uma forma semelhante, isto é, "homem", e de uma forma diferente,

isto é, "Platão", e assim para os outros. E como a socratitas que constitui

formalmente Sócrates não subsiste fora de Sócrates, também a essência "homem"

que em Sócrates constitui a socratitas não subsiste se não está em Sócrates.

O ponto de vista defendido neste tratado aproxima-se muito do de Abelardo.

NOTA BIBLIOGRáFICA

§ 200. Sobre a querela dos universais, que ocupa a actividade filos6fica de

todos os escritos da época, veja-se a seguinte bibliografia.

§ 201. A carta de Roscelino a Abelardo está publicada nas obras de Abelardo,

em Patr. Lat., verl.

1.78.o, 357 e sgs. Nova ed. de Reiners, em Beitrage, VIII, 5, 66-80.

PICAVETE: PosceZin, Paris, 1911. Sobre o nominalismo: Reiners, op. cit.

§ 202. As obras de Guilherme de Champeaux, em P. L., 163., 1037-1072. As

Sententiae (ou Quaest"es), em LEFÈVRE, Les variations de G. de Ch. et de Ia

question des universaux, Lille, 1898; GRABMANN, GeSchischte des scholast.

Methode, n 136-168. @ 203. O De generibus et speciebus, encontra-se nas obras

inéditas de Abelardo, editadas por Cousin; RITTER, Gesch. d. Phil., VII,

1844, 364; PRANTL, II,

142-147; RoBERT, Les écoles et Ilenseignement de ta Theologie pendant ta

preinière moitié du XII Mcle, Paris, 1909, 202, 205.

90

vi

ABELARDO

§ 204. ABELARDO: A FIGURA HISTÓRICA

Abelardo é a primeira grande afirmação medieval do valor humano da

investigação. Trata-se de urna figura que nem sequer a tradição medieval

conseguiu reduzir ao esquema estereotipado de sábio ou santo; trata-se de um

homem que pecou e sofreu e que colocou todo o significado da sua vida na

investigação; de um mestre genial que fez durante séculos a fortuna e a fama

da Universidade de Paris, e que encarna, pela primeira vez na Idade Média, a

filosofia na sua liberdade e no seu significado humano. Dotado de grande

presença física (Heloísa dá-nos disso testemunho em Ep., H em Patri 178.*,

col. 185, quando ele se dirigia ou Regressava das aulas, com o seu olhar

enérgico e a

cabeça erguida, despertava a admiração de todos), de uma eloquência precisa e

cortante, de um extraordinário poder dialéctico que o tornava invencível em

todas as discussões, estava destinado ao êxito, que efectivamente lhe sorriu,

acarretando-lhe invejas, perseguições e condenações. Mas o centro da sua

91

personalidade é a exigência da investigação: a necessidade de resolver em

motivos racionais toda a verdade que seja ou queira ser como tal para o

homem, de enfrentar com armas dialécticas todos os problemas para levá-los ao

plano de uma compreensão humana efectiva. Para Abelardo, a fé no que se não

pode entender é uma fé puramente verbal, privada de conteúdo espiritual e

humano. A fé, que é um acto de vida, é inteligência do que se crê: todas as

forças do homem devem portanto dirigir-se para a compreensão. Nesta convicção

reside a força da sua especulação e do seu fascínio como professor. Nele

torna-se claro o significado, até então incerto e débil, da ratio medieval. A

ratio é a investigação a que o homem se entrega para compreender e fazer a

sua verdade revelada e na qual realiza e encontra a sua substância humana. A

razão é para o homem o **tiruico gu ,ia possível; e o exercício da razão,

que é próprio da filosofia, é a actividade mais elevada do homem. Portanto,

se a fé não é uma obrigação cega que pode dirigir-se no sentido do

preconceito e do erro, deverá estar sujeita à joeira da razão. Deste ponto de

vista, não subsiste uma diferença radical entre os filósofos pagãos e os

filósofos cristãos; se o cristianismo constitui a perfeição do homem, também

os filósofos pagãos, enquanto filósofos, foram cristãos na sua vida e na sua

doutrina (Theol. christ., 11, 1).

§ 205. ABELARDO: VIDA E ESCRITOS

As movimentadas circunstâncias da vida de Abelardo são contadas por ele

próprio numa carta que tem o título de Historia calamitaium. Pedro Abelardo

nasceu perto de Nantes, no ano de 1079, estudou dialéctica com Guilherme

Champeaux, de

92

quem logo se tornou adversário e rival. Ensinou primeiramente dialéctica em

várias localidades de França, depois, em 1113, teologia na escola catedral de

Paris. O ensino de Abelardo desenrolou-se entre discussões clamorosas e

polémicas violentas, suscitadas pela sua intemperança dialéctica e pela

inveja que o seu êxito provocava.

Em Paris, apaixonou-se por Heloísa, sobrinha de um tal Fulberto, cónego, que

era bela e muito culta e de quem teve um filho, Astrolábio. Tendo casado com

ela para aplacar a ira do tio, quis manter secreto esse casamento, com receio

que pudesse prejudicar a sua fama e carreira de professor, e enviou Heloísa

para o convento de Argenteuil, perto de Paris, onde fora educada desde

criança. Mas os tios e os parentes de Heloísa, julgando que Abelardo

pretendia desembaraçar-se dela, vingaram-se e mandaram-no castrar enquanto

ele dormia. Coberto de vergonha pelo ultraje recebido, Abelardo entrou num

convento; e os dois esposos consagraram-se a

Deus: Abelardo na abadia de São Dionísio perto de Paris; Heloísa, no mosteiro

de Argenteuil. No epistolário de Abelardo conservam-se algumas cartas de

Heloísa plenas de afecto e força de resignação

Depois deste infortúnio, Abelardo renovou com redobrado entusiasmo o ensino,

num lugar afastado em Nogent-sur-Seine, para onde os discípulos o

acompanharam e onde construíram um oratório que ele consagrou ao Espírito

Santo ou Paracleto. Em

1136 reapareceu em Paris e reatou as suas lições na montanha de Santa

Genoveva, onde tinha conseguido os seus primeiros êxitos como professor.

Exaltado pelos seus discípulos pela eloquência e ardor da sua dialéctica,

invejado pelos outros professores, em breve Abelardo deu aso a que fosse

apontado como herege.

O Concílio de Soissons condenou a sua doutrina trinitária e obrigou-o a

queimar por suas próprias

93

mãos, o livro De unitate et trinitate divina (1121). Nos últimos anos da sua

vida manteve uma polémica com São Bernardo, que provocou a sua condenação