História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
50 pág.

História da filosofia III - Nicola Abbagnano


DisciplinaFilosofia35.037 materiais271.095 seguidores
Pré-visualização50 páginas
pelo Sínodo de Sens (1140). Abelardo apelou para o Papa o resolveu dirigir-se

a Roma para defender a sua causa; mas o abade Podro de Cluny convenceu-o a

permanecer em Cluny e a reconciliar-se com a Igreja, com o Papa e com São

Bernardo. Abelardo compôs, nesta altura, uma Apologia e passou os últimos

dias da sua vida na abadia de Saint Marcel. Aqui morreu em 20 de Abril de

1142 com 63 anos. Os seus restos mortais foram sepultados no Paracleto o para

ali foram levados e sepultados a seu lado, vinte e um anos depois, os restos

mortais de Heloísa (1164).

Abelardo é o autor de uma Dialéctica, escrita em 1121, de numerosas obras

lógicas constituídas de comentários (Glossae) aos escritos lógicos de

Porfírio e Boécio e de uma obra intitulada Sic et non, que é a típica

expressão do seu método. Além disso, escreveu três obras sobre o problema

trinitário: Tractatus de unitate et trinitate divina, Introductio ad

Theologiam, Theologia christiana. As referências contidas nestas obras

permitem conjecturar que a Theologia christiana foi escrita depois de De

unitate, e provàvelmente entre 1123-1124, e que a Introductio não é mais que

a primeira parte da Theologia condenada no Concílio de Sens. Em continuação,

Abelardo escreveu um Conientario sobre a Epístola aos Romanos e a Ética ou

Scito te ipsum. Posteriores ainda são as Cartas a Heloísa, os Sermões, os

Hinos, os Problemata, a Exposiiio in Exameron. A carta com o título Historia

Calamitatum foi escrita entre 1133 e 1136. Nos últimos anos, passados em

Cluny, Abelardo escreveu Carmen ad Astrolabium e o Dialogus inter indaeum,

philosophum et christianum (1141-1142).

94

§ 206. ABELARDO: O MÉTODO

Abelardo exerceu sobre o desenvolvimento da filosofia medieval uma influência

decisiva. Esta influência deve-se, em primeiro lugar, ao seu fascínio como

mestre. Ele foi, senão o fundador, pelo menos o precursor da Universidade de

Paris. o seu prestígio como professor e a superioridade do seu método

consagraram a celebridade da escola de Paris e prepararam a formação da

Universidade. A obra na qual melhor esclareceu e pôs em prática o seu método

de investigação é o Sic et non. Trata-se de uma compilação de opiniões

(sententiae) de Padres da Igreja, ordenadas segundo os problemas que abordam,

de forma a que apareçam as diversas opiniões como respostas positivas ou

negativas ao problema proposto (daí o título que significa sim e não). O

processo ameaçava lançar o descrédito sobre a unidade da tradição

eclesiástica, fazendo realçar os seus contrastes de forma evidente; mas a

finalidade de Abelardo era a de expor os problemas de forma nítida para

demonstrar a necessidade de resolvê-los. Com este fim, descreve no prólogo

uma série de regras. Começa por distinguir os textos do Velho e do Novo

Testamento e os textos patrísticos. Os primeiros lêem-se com a obrigação de

crer; os outros, com liberdade de juízo. Se se encontra nos primeiros alguma

coisa que pareça absurdo, é preciso supor, não que o autor esteja enganado,

mas que o código é falso ou que o intérprete se equivocou ou então somos nós

que não conseguimos compreender. Mas no que se refere aos outros textos,

muito do que contêm foi escrito mais segundo a opinião do que a verdade.

Quando neles se encontram opiniões diferentes e opostas sobre o mesmo tema, é

preciso ter em conta o fim que o autor tinha em vista, e é preciso distinguir

as épocas em que a coisa foi dita, porque o que se

95

admite numa época é Proibido noutra e o que é prescrito rigorosamente na

maioria das vezes é depois suavizado pela dispensa. Em suma, esta é a regra

fundamental, e muitas controvérsias podem facilmente ser resolvidas se se

tiver em conta que as mesmas palavras têm significados diversos na boca de

diferentes autores.

Há que realizar, portanto, uma investigação completa para resolver os

contrastes entre os textos que têm autoridade em filosofia. E se se

considerar que a disciplina que estuda e prescreve o uso das palavras e o seu

significado é a lógica, vê-se que a lógica terá, na investigação escolástica,

como propõe Abelardo, um lugar predominante. A lógica equivale à razão

humana. A investigação de Abelardo é uma busca racionalista que se exerce

sobre os textos tradicionais para encontrar neles, livremente, a verdade que

contêm. Esta investigação deve ser entendida como uma constante interrogação

(assidua seu frequens interrogatio). Principia na dúvida, porque só a dúvida

promove a investigação e só a investigação conduz à verdade (dubitando enim

ad inquisilionem venimus; inquirendo veritatem percipimus).

Nisto reside, sem dúvida, o motivo de fascínio que a personalidade de

Abelardo exerceu sobre os seus contemporâneos e da eficácia do seu ensino

sobre a escolástica. Abelardo é uma das personalidades que mais sentiu e

viveu as exigências e o valor da investigação. Os resultados especulativos

são para ele menos importantes que a investigação necessária para chegar a

esses resultados. O ter encarnado o espírito da investigação racional numa

época de despertar filosófico, levou-o a ser considerado o fundador do método

escolástico.

Este método, em breve se fixou, depois dele, num esquema que foi seguido

universalmente, o esquema da questio, que consiste em partir de textos que

dão soluções opostas ao mesmo problema

96

para chegar a elucidar, por um caminho puramente lógico, o própria problema.

Este método, que a princípio foi tido como duvidoso e combatido, em breve

prevaleceu em toda a escolástica.

§ 207. ABELARDO: RAZÃO E AUTORIDADE

O predomínio da investigação na especulação de Abelardo confere à razão o

predomínio sobre a autoridade. Abelardo não nega a função da autoridade na

investigação: "Enquanto a razão se mantém oculta, afirma, (Theol. christ.,

111, Migne, col.

1226), deve bastar a autoridade e deve respeitar-se sobre o valor da

autoridade aquele conhecidíssimo princípio, transmitido pelos filósofos: não

se deve contradizer o que parece verdadeiro a todos os homens, ou aos que são

mais, ou aos que são doutos". Só à autoridade nos devemos confiar enquanto se

mantiver oculta a razão (dum ratio latet). Mas a autoridade passa a ser

inútil quando a razão possui meios para encontrar, por si, a verdade. "Todos

sabemos que, naquilo que pode ser discutido pela razão, não é necessário o

juízo da autoridade" (Theol. christ., 111, col, 1224). É certo que a razão

humana não é medida suficiente para compreender as coisas divinas (De unit.

et trin., edic. StólzIe, 27). A propósito da Trindade, por exemplo, Abelardo

diz explicitamente que não pode prometer com este argumento ensinar a verdade

à qual nenhum homem pode chegar, mas propor apenas uma solução verosímil ou

próxima da razão humana e que, ao mesmo tempo, não seja contrária à fé

(Int. ad Theol., H, 2).

Mas isto não implica que a fé não se deva alcançar e defender com a

razão. Se não é preciso discutir, nem sequer sobre o que se deve ou não deve

crer, que nos resta senão prestar fé tanto

97

aos que dizem a verdade como aos que dizem o que é falso? (Ibid., 11, 3). Não

cremos numa coisa porque Deus a tenha dito, mas porque admitimos que Ele a

disse, e assim nos convencemos de que a coisa é verdadeira. Uma fé cega,

prestada com ligeireza, não tem nenhuma estabilidade, é uma fé incauta e

privada de discernimento: em qualquer caso é preciso discutir, pelo menos de

antemão, se é necessário acreditar ou não (Ibid., 11, 3). A última convicção

de Abelardo está expressa na Historia calamitatum (cap. 9). Nela afirma que

escreveu o livro sobre a Unidade e Trindade divina para os seus discípulos

que, no campo teológico, procuravam argumentos humanos e filosóficos e

queriam mais raciocínios do que palavras. É ingénuo pronunciar-se palavras

cujo significado