História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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Ele quer apenas que aconteça aquilo que é bom que aconteça. (Theol.

christ., V, col. 1323). É claro pois, que, em tudo aquilo que Deus faz ou

deixa de fazer, há uma justa causa... Tudo aquilo que ele faz, deve fazê-lo,

porque se é justo que alguma coisa aconteça, é injusto que essa coisa seja

omitida (Intr., ad theol.,

111, 5). Nem se pode dizer que, se Deus tivesse feito algo de diferente

daquilo que fez, esse algo seria também bom, porque seria feito por ele; uma

vez que, se aquilo que não fez, fosse bom como aquilo que faz, não haveria

fundamento para a sua escolha nem motivo para fazer uma coisa e omitir outra.

Se aquilo que faz é apenas o bem, Deus pode fazer apenas aquilo que faz.

Tinha pois razão Platão ao afirmar que Deus não podia criar um mundo melhor

do que aquele que criou (lb., 111, 5). Em Deus, possibilidade e vontade são

uma e só coisa: é verdade que ele pode tudo o que quer, mas é verdade também

que ele não pode, senão aquilo que quer. Esta doutrina de Abelardo implica a

necessidade da criação do mundo e o optimismo metafísico. O mundo foi

necessariamente querido e criado por Deus. Tudo o que Deus quer, quere-o

necessariamente, nem a sua vontade pode permanecer ineficaz; necessariamente,

pois, Ele leva a seu termo tudo aquilo que quer (Theol., christ., V, col.

1325 e segs.).

A necessidade do mundo não implica a essência da liberdade em Deus. A

liberdade não consiste em escolher indiferentemente o fazer uma coisa ou

outra, mas antes em executar sem coacção, e com plena independência, aquilo

que se decidiu consciente e racionalmente. Esta liberdade pertence também a

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Deus: pois tudo aquilo que ele faz, fá-lo apenas por sua vontade, e portanto

sem precisar de qualquer coacção (Intr. ad theol., 111, 5).

Deus concedeu ao homem a possibilidade de pecar e de fazer o mal para que, em

confronto com a nossa fraqueza, nos surja na sua glória, uma vez que de forma

alguma Ele pode pecar: e para que ao afastarmo-nos do pecado não atribuamos

isso à nossa natureza, mas à ajuda da sua graça que dispõe para a sua glória

não só o bem como também o mal (Ib., HI, 5).

A necessidade que é própria de Deus reflecte-se nas acções de Deus no mundo.

Deus prevê tudo: e se bem que a sua previsão não seja necessariamente

determinante em relação aos acontecimentos singulares, não pode contudo ser

desmentida e esses acontecimentos devem integrar-se na ordem das suas

previsões. Nesta ordem integra-se também a predeterminação. Deus predestina

os eleitos à salvação, mas mesmo aqueles que ele não predestina e que por

isso estão condenados, integram-se na ordem providencial do mundo. A acção de

Deus não é nunca sem motivo, ainda que o motivo permaneça oculto aos homens.

Mesmo a traição de Judas integra-se na ordem providencial, porque sem a sua

existência não teria sido possível a redenção da humanidade. E, tal como a

traição de Judas, todos os males que podem acontecer ou acontecem, estão

ordenados pela Providência divina para o bem, o têm o seu motivo e o seu

resultado inevitável, mesmo que o homem não possa dar-se conta disso Un Ep.

ad Rom., col. 649-52).

§ 213. ABELARDO: O HOMEM

A alma humana é, segundo Abelardo, uma essência simples e distinta do corpo.

Existe um sentido ao afirmar-se que até as criaturas intelectuais, como

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a alma ou o anjo, são corpóreas, enquanto estão ,limitadas no espaço; mas

trata-se de um sentido impróprio que deriva de um conceito falar de

corporeidade. A alma está toda presente em todas as partes do corpo e é o

princípio da vida corpórea. Só através da alma o corpo é o que é (Intr. ad

theol., HI, 6). Como natureza espiritual, a alma traz em si a imagem

da Trindade divina. O que na alma é substância, é na Trindade a pessoa do

Pai; o que na alma é virtude e sapiência é na Trindade o Filho, que é a

Virtude e a Sapiência de Deus; aquilo que na alma é a propriedade de

vivificar-se é na Trindade o Espírito Santo, ao qual corresponde a missão de

dar vida ao mundo (1b., 1, 5).

A alma humana é dotada de livre arbítrio. "Por livre arbítrio, afirma

Abelardo, entendem os filósofos o livre juízo da vontade. O arbítrio é, com

efeito, a deliberação ou o juízo da alma, pelo qual alguém se propõe fazer ou

deixar de fazer qualquer coisa. Este juízo é livre quando nenhuma necessidade

de natureza impõe a realização do que se decidiu e permanece em nosso poder

tanto o fazer como o deixar de fazem (lb., 111, 7). Os animais não têm livre

arbítrio porque não têm raciocínio e mesmo nós estamos privados de livre

arbítrio quando queremos aquilo que não está no nosso poder ou quando alguma

coisa acontece sem a nossa decisão. Como capacidade de executar

voluntariamente e sem coacção a acção que se decide a seguir a um juízo

racional, o livre arbítrio pertence quer aos homens quer a Deus e em geral a

todos os que não estão privados na faculdade de querer. Pertence também, e em

grau eminente, aos que não podem pecar. O que não pode peca-r, não pode

certamente afastar-se do bem; mas isso não implica que seja obrigado a fazê-

lo por uma necessidade de coacção. Essa impossibilidade não deve confundir-se

com uma constrição que impeça ou vincule o juízo racional

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da vontade (1b., 111, 7). Pode dizer-se, assim, que a liberdade de escolha é

mais ampla no âmbito do bem, quando aquele que escolhe está livre da servidão

do pecado (1b., 111, 7).

§ 214. ABELARDO: A ÉTICA

O ponto central da ética de Abelardo é a distinção entre vício e pecado e

entre pecado e má acção. O vício, é uma inclinação natural da alma para o

pecado. Mas se tal inclinação consegue ser combatida e vencida, não só não dá

origem ao pecado, como torna ainda mais meritória a virtude.

O pecado é, pelo contrário, o consentimento dado a essa inclinação e é um

acto de desprezo e de ofensa a Deus. Consiste no não cumprir a vontade de

Deus, no transgredir uma sua proibição. Trata-se de um não-fazer, ou de um

não-omitir; de um não-ser, de uma deficiência, de uma ausência de realidade:

de algo sem substância (Scito te ipsum 3). A acção pecaminosa pode ser

cometida mesmo sem o consentimento da vontade, mesmo sem pecado: como

acontece quando, por defesa. se mata um perseguidor furioso. O mal da alma é

verdadeiramente apenas o pecado, o consentimento dado a uma inclinação

viciosa. A vida humana é uma contínua luta contra o pecado. "Desta forma, nós

estamos sempre empenhados num combate interior para recebermos no outro mundo

a coroa dos vencedores. Mas para que haja batalha é necessário que exista um

inimigo que resista e que não deixe de surgir. Este inimigo é a nossa vontade

pecaminosa, sobre a qual devemos triunfar submetendo-a ao querer de Deus; mas

nunca conseguiremos eliminá-la definitivamente porque devemos ter sempre um

inimigo contra quem combatem (1b.).

Abelardo está na situação de -insistir, com base nestas premissas, sobre a

pura interioridade das valo-

Ho

rações mormis. A acção pecaminosa nada acrescenta ao pecado que é o acto pelo

qual o homem despreza o querer divino. Onde não existe consentimento da

vontade não existe pecado, ainda que a acção seja em si pecaminosa (como no

caso de quem mata coagido), e quando existe consentimento da vontade na

inclinação viciosa, o facto de se seguir a ela uma acção pecaminosa nada

acrescenta à culpa. Deve-se chamar transgressor, não àquele que faz aquilo

que é proibido, mas àquele que apenas consente no que é proibido por Deus: e

assim a proibição deve entender-se como referida não à acção, mas ao

consentimento. "Deus tem em conta não as coisas que se fazem mas o ânimo com

que elas são feitas; e o mérito e o valor do que actua não consiste na acção

mas na intenção" (1b.). Uma mesma acção pode ser boa ou má; por exemplo,

enforcar um homem tanto pode ser um acto