História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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A Guilherme costuma também ser atribuído um Compendium philosophiae em seis

livros que é também atribuído a Hugo de São Victor, mas que é provàvelmente

obra de um compilador anónimo.

Em todos estes escritos podemos encontrar, com pequenas oscilações e

retraimentos, a doutrina típica da escola de Chartres. Nas Glosas ao Timeu

que parecem ser anteriores à Philosophia e que foram publicadas recentemente,

Gui]herme afirma: "A alma do mundo é o vigor natural que permite a umas

coisas terem movimento, a outras o crescimento, a outras o sentir, a outras o

discernir. Quanto a mim julgo que este vigor natural é o Espírito Santo, ou

seja, a divina e benigna concórdia da qual todas as coisas retiram o ser, o

movimento, o crescimento, o sentir, o viver e o discernir". Com mais

incerteza, esta doutrina vem repetida na Philosophia, mas desaparece do

Dragmaticon, talvez

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por efeito da condenação que, na pessoa de Abelardo, essa mesma doutrina

tinha entretanto sofrido. Mais caracteristicamente, Guilherme insiste na

composição atómica dos quatro elementos. Segundo Guilherme, a á gua, o ar, a

terra e o fogo não são verdadeiramente elementos porque são divisíveis: os

verdadeiros elementos são indivisíveis porque são simplicíssimos. No entanto,

Guilherme chama elementata Ou elementos do mundo à água, ao ar, à terra e ao

fogo e reserva o nome de elementa apenas para os átomos aos quais atribui as

qualidades fundamentais opostas: quente e frio, seco e húmido (Philosophia,

1, 21).

Todos os temas da escola de Chartres encontram uma expressão imaginosa na

obra de Bernardo Silvestre, autor de um poema intitulado De mundi

universitate sive Megacosmus et Microcosmus escrito à volta de 1150 e

dedicado a Teodorico de Chartres. A obra está redigida em verso e em prosa

segundo o exemplo do De consolatione de Boécio e do De nupliis de Marciano

Capella e é uma espécie de cosmogonia inspirada no Timeu de Platão. Bernardo

personifica as entidades teológicas e metafísicas da escola de Chartres: a

Matéria ou Hyle, concebida como absolutamente informe, aparece reconduzida à

ordem e à harmonia do Intelecto ou Noys, pelos trâmites da Natureza ou

Physis; e no cume desta ordem foi colocado o homem, o Microcosmos. A oposição

entre o carácter informe, pavoroso e maligno da Hyle e a ordem racional que a

Ph),sis procura impor, dá colorido dramático à obra. Nela, os próprios

atributos das pessoas da Trindade tomam-se puramente cosmológicos, isto é,

relativos às funções que as pessoas desempenham perante o mundo e

caracterizadas como Potência, Sapiência e Bondade, segundo um esquema que nós

podemos encontrar frequentemente nos mestres de Chartres e que deriva de

Abelardo.

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§ 216. GILBERTO DE LA PORRÉE

O mais notável representante da escola de Chartres é Gilberto Porretano.

Nascido em Poitiers, foi aluno de Bernardo de Chartres e de Anselmo e Rodolfo

de Laon. Ensinou em Chartres e em Paris com grande sucesso e foi bispo de

Poitiers (1142-1154). Gilberto foi autor de numerosos escritos, quase todos

mantidos inéditos. Os mais notáveis são o Commentario aos opúsculos

teológicos de Boécio e um tratado das últimas seis categorias de Aristóteles

que tem o título De sex principiis,- tem-se duvidado da autenticidade deste

escrito, mas sem razões suficientes. De qualquer modo, trata-se de um escrito

que contém as teses típicas de Gilberto e que em breve se tomou famoso; foi

usado como texto de ensino na Universidade de Paris e comentado por diversos

autores: a última vez pelo humanista Hermolau Bárbaro que o publicou na sua

edição das obras de Aristóteles.

Gilberto define a fé como a "percepção, acompanhada de aprovação, da verdade

de uma coisa" o sustenta que a fé precede a razão no domínio teológico, mas

segue-a no domínio filosófico. As coisas criadas não têm necessidade

verdadeira e própria: uma vez que nelas tudo é variável, mesmo aquilo que em

regra se considera necessário. A necessidade existe apenas nas coisas divinas

e a fé precede a razão. Nós não acreditamos porque sabemos, mas sabemos

porque acreditamos (non cognoscentes credinw sed credentes cognoscimus). A

fé, prescindindo completamente dos princípios da razão, consegue compreender

não só o que a razão humana não pode compreender, mas também aquilo que ela

pode compreender com os próprios princípios. Justamente por isso, a fé

católica é considerada o exórdio não só do conhecimento teológico mas de

qualquer outro; é privada de qualquer incerteza e

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é o fundamento mais firme e certo mesmo dos conceitos naturais (In Boeth. de

praed. trium pers., in P. L., 64. , 1303). Com base neste pressuposto.

Gilberto defende a estreita união entre a razão e a fé em toda a investigação

filosófica. "Une a fé à razão, afirma ele, para que a fé confira, em primeiro

lugar, autoridade à razão e em seguida a razão confira assentimento à fé"

(Ib., 1310).

Segundo um testemunho de João de Salisbúria (Metal., 11, 17), Gilberto

distinguia o universal in rem do universal ante rem. O universal in re, forma

inata ou espécie, considerava-o inerente às coisas criadas. A forma inata

seria a cópia do exemplar existente na mente divina, tal como a espécie

imanente nos indivíduos é, segundo Platão, a cópia da ideia. O intelecto

humano abstrai o universal das coisas individuais para considerar melhor a

sua natureza e melhor compreender as suas propriedades. O universal não é uma

realidade em si, numericamente una, mas a simples colecção das coisas

singulares, unificadas segundo as suas propriedades comuns. Noutros termos,

Gilberto participa aqui no ponto de vista de Abelardo: o fundamento objectivo

da universalidade do conceito, o fundamento que garante ao conceito a sua

verdade, é a semelhança que as coisas singulares têm entre si, a sua

uniformidade colectiva. O universal tinha já sido definido como colecção de

coisas singulares por Joscelino ou Gauleno no tratado De generibus et

speciebus (§ 203). Mas Gilberto acrescenta aqui uma opinião sua: distingue

dois significados na palavra substância. Num primeiro sentido, mais geral, é

substância o que para subsistir não precisa de qualidades acidentais. Neste

sentido, a substância é subsistência, isto é, essência e exprime o quo est da

coisa. Num segundo sentido, que é o próprio, a palavra substância significa

aquilo que subsiste, a realidade existente ou subsistens, o quod est (In

Boeth., de

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trin., in P. L., 64. , 1281). No primeiro sentido, os géneros e as espécies,

ou seja, os universais, subsistem enquanto são subsistentiae ou essências

determinadas, que não precisam de acidentes para existirem no modo que lhes é

próprio. Mas no segundo sentido, apenas os indivíduos são substâncias porque

só esses, na realidade, existem. Os indivíduos, portanto, não só subsistem,

subsistunt, mas também existem, substant, porque estão dotados de diferenças

próprias e específicas e constituem os sujeitos reais dos acidentes, enquanto

são as suas causas e princípios. Quando o indivíduo subsistente tem também o

atributo da racionalidade, toma o nome de pessoa (In Boeth. de duab. nat.,

Ib., 1375 sgs.).

Com base na distinção entre subsistência e subsistente, Gilberto faz a

distinção entre forma e matéria. A forma é o que determina uma coisa no seu

ser específico; a matéria é o sujeito determinável da forma. Por isso se pode

chamar também matéria às essências enquanto são os sujeitos dos seus

caracteres e são determinadas ou concriadas por tais caracteres. Existe uma

forma simples que é "o ser do Artífice", isto é, Deus, como existe uma

matéria simples que é a matéria-prima ou informe, a hyle de Platão. Entre

estes dois extremos, estão as realidades compostas ou concretas, que são

matéria e forma, conjuntamente, no sentido referido acima. A sua criação é