História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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que está rigorosamente centrado sobre o conceito de Deus como absoluta

unidade devia parecer a Alano o melhor antídoto contra qualquer concessão

dualista. Com efeito, Alano afirma que a causa primeira, enquanto é simples e

forma absoluta, é absoluta unidade, e, assim, a própria unidade absoluta; e

que referidos a tal unidade, os atributos diversos exprimem sempre a mesma

essência simplicíssima (Reg. teol., 11). Como Abelardo, e muitos dos mestres

de Chartres, Alano está ainda convencido que já os filósofos pagãos concebiam

esta verdade e que, por exemplo, a conheciam Aristóteles e Hermes Trismegista

(Contra haeret., 111, 3; Reg. theol., 3).

§ 219. O PANTEíSMO: AMALRICO DE BENA E DAVID DE DINANT

Algumas das mais importantes e mais debatidas teses da escola de Chartres têm

um franco sabor panteístico. O panteísmo consiste em sustentar que

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a relação Deus-mundo seja necessária perante o próprio Deus: isto é, o mundo

deriva de Deus como necessidade, quer como manifestação sua, quer como seu

aspecto necessário, de tal modo que sem o mundo, Deus não seria Deus. Esta

tese está óbviamente implícita em todas as especulações teológicas que

definem o ser de Deus ou o das pessoas da Trindade nos termos das suas

relações com o mundo: por exemplo, na tese de que o Espírito Santo é a Alma

do mundo e que a alma do mundo é a própria natureza; ou na tese de que o pró

prio Deus é a forma essendi ou essência de todas as coisas. A última tese é

sem dúvida a mais explicitamente panteísta: entendida no sentido de que Deus

contém a essência (as formas, as ideias, os modelos de todas as coisas) leva-

nos a considerar Deus como a essência das coisas e as coisas, na sua

essência, como elementos necessários da essência divina. Estas conclusões vêm

no entanto bastante esbatidas e atenuadas, por parte dos mestres de Chartres,

com várias observações destinadas a acentuar a diferença entre o ser das

criaturas e o ser de Deus. Mas no período de que nos ocupamos, portanto da

segunda metade do século XII, essas mesmas concepções são ainda apresentadas

em toda a sua crueza panteística por pensadores que não hesitaram em tirar

delas as conclusões mais paradoxais. Temos notícia de dois destes pensadores,

Amalrico de Bena e David de Dinant e sabemos que as suas ideias foram

seguidas por numerosos grupos sobre os quais caíram as condenações

eclesiásticas.

E não se trata, na verdade, de teses que pertençam à esfera das discussões

teoréticas: pela única obra polémica que temos contra a seita de Amalrico, um

escrito anónimo de 1210 e que tem o nome de Contra Amaurianos, sabemos que da

tese da presença de Deus em todos os seres, e portanto em todos os homens

também, os sequazes de Amal-

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rico derivam a possibilidade para todos os homens de se salvarem mediante o

simples conhecimento dessa presença divina, sem a necessidade de se

socorrerem dos dons carismáticos cuja eficácia era por eles negada: negando

assim todas as funções à administração eclesiástica que é a administradora

desses mesmos dons. Estas características relacionam estreitamente o

panteísmo de Amalrico com as seitas heréticas que floresciam no século XII e

que estavam todas ligadas na luta contra o privilégio, que a Igreja

reivindica pela sua hierarquia, de administrar a salvação. Valdeses, Cátaros,

Amaricianos, sustentam todos que o homem se salva através de uma relação

directa com Deus ou que o próprio Deus o escolha manifestando-se nele ou a

ele: o panteísmo de Amalrico ou de David é antes de mais e sobretudo a

expressão metafísica de uma insurreição contra a hierarquia eclesiástica que,

por seu lado, como é já assente, tinha raízes económico-sociais.

De Amalrico, nascido em Bena (no distrito de Chartres) sabemos apenas que

morreu em Paris, como professor de teologia em 1206 ou 1207. Das notícias

obtidas através de vários cronistas sabe-se que ensinava que Deus é a

essência de todas as criaturas e o ser de tudo e que o criador e a criatura

se identificam. Provavelmente estas teses, que se aproximam das que eram

sustentadas por muitos mestres de Chartres, tinham para Amalrico o

significado mais próximo do que era defendido por Escoto Erígena; com efeito,

ele afirmava que as ideias estão na mente divina, criam e ao mesmo tempo são

criadas e que Deus é o fim de todas as coisas que a ele regressam e na sua

unidade indivisível permanecem e estão (Gerson, Concordia nwtaphysicae cum

logica, in Opera, IV, 825). Mas a intenção de AmaIrico compreende-se melhor

pelas

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consequências que ele tirava das próprias teses: Deus identifica-se com todas

as coisas, disseminadas como estão no espaço e no tempo, identifica-se também

com o próprio tempo e com o espaço como se identifica com todos os homens que

assim se unificam nele. Desta presença de Deus nos homens, Amalrico extrai a

negação, como já foi dito, da validade dos sacramentos e do magistério

eclesiástico. Todas estas doutrinas foram condenadas no Sínodo de Paris de

1210 e pela obra de Inocêncio III, no IV Concílio de Latrão de 1215.

Do outro representante do panteísmo, David de Dinant (na Bélgica) não sabemos

nada. Atribuem-se-lhe dois textos: De tomis hoc est de divisionibus que

reproduz o título da obra principal de Escoto Erígena e Quaterni ou

Quaternuli, nome por que foram indicados os escritos condenados a serem

queimados (Denifle, Chart., Univers. Paris., 1, 70). Mas provàvelmente este

segundo não é um título mas apenas o nome genérico dos opúsculos de David.

Tomás de Aquino dá-nos a seguinte exposição da doutrina de David: "David

divide a realidade em três partes: corpos, almas e substâncias separadas. Ao

princípio indivisível de que são constituídos os corpos chamou hyle

(matéria), ao princípio indivisível de que são constituídas as almas

chamou noun ou mente; e chamou Deus ao princípio indivisível das

substâncias eternas. David afirmou que estes três pii---ncípios são uma única

e idêntica coisa, concluindo-se assim que todas as coisas são pela sua

essência uma só" (In Sent., 11, d. 17, q. 1, a. 1).

Segundo S. Tomás, a diferença entre a doutrina de Amalrico e a de David é

que, para Amalrico, Deus é essência ou forma de todas as coisas, enquanto que

para David é a matéria. A mesma caracterização da doutrina de David é-nos

dada por Alberto Magno (Sunma Theol., I, tract. IV, q. 20). Como ser

originário, Deus é o ser puramente poten-

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cial. David, provàvelmente, desenvolveu as implicações positivas da teologia

negativa própria da sua época. Deus está fora de todas as categorias que

constituem o ser em acto; mas, fora das categorias, não há senão o ser em

potência, que é a

primeira condição para a constituição de todas as coisas. David identificou o

ser em potência com Deus e uma vez que o ser em potência é a matéria-prima,

identificou a matéria-prima com Deus.

§ 220. JOAQUIM DE FIORE

As seitas heréticas do século XII tinham entre si de comum a crença numa

iminente e final renovação do mundo que elas designavam como o advento do

reino do Espírito Santo. Sabemos que também os Amauricianos possuíam esta

crença e sustentavam que depois da época do Pai e da do Filho, a época do

Espírito Santo traria consigo a abolição de todas as formas legais e

sacramentais que tinham caracterizado a época precedente (Caesarius, Dialogus

miraculorum, ed. Strange, p. 306). Esta divisão das épocas históricas, para

lá da esperança escatológica em que se baseia, parece ser sugerida pelas

especulações trinitárias que Abelardo tinha iniciado e que floresceram na

escola de Chartres. A ela se encontrava, portanto, ligada a obra do mais

famoso e popular profeta do século XII, o abade Joaquim.

Joaquim de Fiore nasceu em 1145 em Dorfe Ceico, perto de Cozença. A partir de

1191 foi abade do mosteiro por