História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
50 pág.

História da filosofia III - Nicola Abbagnano


DisciplinaFilosofia35.187 materiais283.895 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de Alcuíno foi o início da -reconstrução

intelectual da Europa. Tendo nascido em 730 na Inglaterra, Alcuíno formou-se

na escola episcopal de York; em 781 foi chamado pelo imperador Carlos Magno

para dirigir a Escola Palatina e transformou-se no organizador dos estudos no

império franco. Morreu no ano de 804. As obras de Alcuíno são quase

exclusivamente constituídas por extractos tirados de outros autores. A sua

Gramática foi obtida em Prisciano, Donato, Isidoro, Beda; a sua Retórica num

texto de Cícero De inventione, a sua, Dialéctica num texto pseudo-agostiniano

sobre as categorias. Mesmo o texto De animae ratione ad Eulaliam Virginem,

que é o primeiro tratado de psicologia da Idade Média, não passa de uma série

de extractos de Agostinho e Cassiano.

Alcuíno é o grande organizador do ensino no reino franco. Foi ele quem

ordenou os estudos segundo as sete disciplinas do trívio e do quadrívio, o a

que chama as sete colunas da sabedor-ia (Patri.

17

Lat., 101, 853 c). No seu escrito teológico sobre a Trindade (De fide Sanctae

et individuae Trinítatis, três livros), Alcuíno trata da essência divina, das

propriedades de Deus, da trindade das pessoas, da encarnação e da redenção,

mantendo-se em tudo fiel à especulação de Santo Agostinho. Tal como este,

insiste na impossibilidade de se conceber e exprimir a essência divina, em

relação à qual as categorias, que servem para compreender as coisas finitas,

adquirem um novo significado. Em Deus tudo se identifica: o ser, a vida, o

pensamento, o querer e o agir, e no entanto Ele é a simplicidade absoluta.

Num escrito seu sobre a alma, dedicado à Jovem Eulália, Alcuíno define a alma

como "o espírito intelectual ou racional, sempre em movimento, sempre vivo e

capaz de boa ou má vontade>. A alma assume vários nomes consoante as suas

funções: chama-se alma enquanto vivifica; espírito quando contempla; sentido

enquanto sente; ânimo enquanto sabe; mente enquanto compreende; razão

enquanto julga; vontade enquanto consente; memória enquanto lembra. Mas estas

funções diversas não são próprias de várias substâncias, apesar de serem

indicadas com nomes diferentes: constituem todas uma alma única (De animae

ratione, 11). AIcuíno distingue nela três partes, de acordo com a doutrina

platónica: a racional, a irascível e a apetitiva. As três partes da alma

racional, memória, inteligência e vontade reproduzem a Trindade divina

(segundo a doutrina de Agostinho). A alma é o fundamento da personalidade

humana, mas o eu na sua totalidade pertence não só à alma como também ao

corpo. A alma é incorpórea o como tal imortal. O seu bem mais @levado é Deus

e o seu destino é o de amar a Deus. Para tal destino a alma prepara-se

através das virtudes; e entre estas Alcuíno coloca não apenas as cristãs: fé,

esperança e caridade, como também as pagãs: pradêwia,

18

justiça, força e temperança, das quais dá definições platónicas de De

officiis de Cicero.

A obra de Alcuíno foi continuada pelos seus sucessores. Fredegiso, que lhe

sucedeu como abade de S. Martinho de Tours e foi, a partir de 819, até 834,

ano da sua morte, chanceler de Ludovico o Pio, compôs uma obra na qual se

levantava a questão de se saber se o nada é alguma coisa ou não (De nihilo et

tenebris). Fredegiso conclui que o nada de certo modo é; e de facto, se se

nega ,isso, essa mesma negação é já alguma coisa e por isso o nada de certa

maneira é (Patr. Lat., 105. .,

751). O próprio facto de o nada ter um nome demonstra a sua realidade, uma

vez que um nome que não se refira a qualquer coisa real não pode ser pensado.

A expressão bíblica de que o mundo foi criado do nada demonstra também a sua

realidade; porque do nada procedem todos os elementos e ainda a luz, os anjos

e as almas dos homens.

Discípulo de Alcuíno foi Rabano Mauro. Nascido na Mogúncia no ano de 776 ou

784, foi primeiro professor e depois abade no mosteiro de Fulda; em 847 foi

nomeado arcebispo de Mogúncia, onde morreu no ano de 856. Rabano é

considerado como o escritor da Escola da Alemanha. Da escola de Fulda saíram

um grande número de doutores que foram ensinar pelas províncias vizinhas o

que haviam aprendido com o seu mestre. Um caso anedótico ;revela-nos a

hostilidade de alguns eclesiásticos do tempo contra a cultura e a fama que

Rabano tinha conquistado. O abade de Fulda apoderou-se um dia dos cadernos de

Rabano e dos seus alunos e declarou que proibia para o futuro a introdução de

qualquer novidade no mosteiro; além disso empregou os monges mais aplicados

em trabalhos pesados e contínuos. Os monges apelaram para o rei que se

pronunciou contra o abade. Rabano foi reintegrado na sua cátedra continuando

a leccio-

19

nar. Os seus contemporâneos chamaram-lhe Rabano o Sofista.

Rabano preocupou-se sobretudo com a educação filosófica e teológica do clero.

Com este fim, compÔs três livros Sobre a instrução dos Clérigos (De

institutione clericorum) que é uma compilação cujo material foi extraído dos

Padres da Igreja, de Isidoro e de Beda. Rabano insiste na necessidade e

importância do estudo das artes liberais e também dos filósofos pa gãos e em

particular dos platónicos. Justifica a utilização da cultura profana com a

teoria da injusta posse: "Se os filósofos disseram nos seus escritos coisas

verdadeiras e que estão de acordo com a fé, não se deve recear e retomá-los

como injustos possuidores" (111, 26). Na verdade, os filósofos descobriram-

nas enquanto guiados pela verdade, isto é, por Deus: por isso elas não lhes

pertencem, mas a Deus.

Num tratado De Universo, tirado em grande parte das Etimologias de Isidoro e

da De natura reruni de Beda, recolheu um rico material profano de ciências

naturais. Numa glosa às Categorias de Aristóteles, Rabano nega, referindo-se

à doutrina deste filósofo, a univocidade do ser, isto é, nega que o termo

"ser" conserve o mesmo significado referindo-se a tudo o que existe, e

afirma, em contrapartida, a sua equivocidade, a diversidade dos seus

significados. A univocidade ou a equivocidade do ser devia converter-se, no

século XIII, num dos ternas fundamentais da polémica filosófica.

Um discípulo de Rabano, Servato Lupo, que foi abade de Ferrières desde 842

até falecer, em 862, tem em grande conta a cultura humanística e nas suas

Cartas oferece o exemplo de um vivo interesse literário e filosófico. O seu

tratado Sobre três questões trata do livre arbítrio, da predestinação e da

Eucaristia, seguindo as pisadas dos padres e especialmente de Agostinho.

20

Da escola de Alcuíno saiu também Pascásio Radoberto, abade de Corbie desde

842 e falecido em

860. Pascásio compôs em 831 a obra De corpore et sanguine Domini. A sua obra

maJor é um Comentário ao Evangelho de São Mateus. Na obra intitulada De fide,

spe et charitate, distingue três espécies de coisas críveis. A primeira é a

das que se podem crer imediatamente, como as coisas visíveis; a segunda, a

das coisas que se podem crer e compreender ao mesmo tempo, como os axiomas e

as verdades racionais. A terceira é a das coisas que a revelação ensina

acerca de Deus; e estas não são simultaneamente críveis e compreensíveis,

devem ser primeiramente cridas com todo o coração o com ,toda a alma, para

depois serem compreendidas. Pascásio exprime assim aquela precedência da fé

sobre a razão que devia ser a especulação de Anselmo.

Um outro monge de Corbie, Godescalco, falecido entre 866 e 869, sustentou com

particular energia, apesar das condenações de dois sínodos, a doutrina da

dupla predestinação. Sustentava que Deus predestina tanto o bem como o mal e

que alguns homens, pela predestinação divina que os constrange à morte

espiritual, não podem corrigir-se do erro e do pecado, porque Deus os criou

desde o princípio incorrigíveis e destinados ao castigo.

Esta doutrina