História da filosofia   III - Nicola Abbagnano

História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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1) a
negação do valor da razão; 2) a negação do valor do homem,
3) a actuação do homem reduz-se à ascese e à elevação mística. Sobre o
primeiro ponto, Bernardo pronuncia-se sem reservas contra a razão e contra a
ciência. O desejo de conhecer surge-lhe como uma <dorpe, curiosidade&quot; (Se. in
Cant., 36, 2). As discussões dos filósofos como &quot;loquacidade cheia de vento&quot;
(Ib., 58, 7). &quot; A minha filosofia mais sublime -proclama ele-é esta: conhecer
Jesus e
a sua crucificação&quot; (lb., 43, 4). Quanto ao segundo ponto, S. Bernardo afirma
sem reservas que a única atitude possível ao homem é a da humildade, da
virtude &quot;pelas quais o homem, conhecendo-se verdadeiramente, sente vergonha
de si próprio&quot; (De gradibus humilitatis, 1, 2). Reconhecer-se a si próprio
como nada sendo é para o homem a condição indispensável para que possa
libertar-se de todos os vínculos corpóreos e identificar inteiramente a
sua vida com o amor por Deus. O amor de que S. Bernardo fala baseia-se no
conceito do De amicitia de Cícero e a linguagem do Cântico dos Cânticos é
entendida por ele substancialmente como o
processo ascético de libertação do corpo e em geral de todos os vínculos
naturais e como pura obediência ou abandono à vontade divina. Os graus
mais altos do amor consistem em amar a Deus por si mesmo e no amar-
se a si próprio por amor de Deus: neste grau, o homem abandona 
a sua
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ALEGORIA DA CABALA
vontade inteiramente ao querer divino (De diligendo Deo, XIII, 36). Com este
ascetismo do amor teológico coincide o processo da ascese mística, cujos
graus são significativamente identificados por S. Bernardo com os graus da
humildade. O primeiro grau da ascese mística é a consideração (consideratio),
que é um intenso pensamento de investigação e uma intenção da alma que
investiga a Verdade criadora.
O segundo grau é a contemplação (contemplatio) que é a intuição corta, uma
apreensão indubitável da verdade (De contemplatione, 11, 2). A primeira
contemplação é a admiração pela majestade divina que exige um coração
purificado do vício e do pecado. O supremo grau da contemplação é o êxtase ou
excessus mentis, pelo qual Deus desce sobre a alma humana e a alma se une a
Deus. &quot;Tal como uma gota de água que cai no vinho se dissolve e assume o
sabor e a cor do vinho; tal como o ferro candente e incandescente se torna
semelhante ao fogo e perde a sua forma própria; tal como o
ar que percorrido pela luz do sol se transforma em claridade luminosa até
parece mais que iluminado, transformado na própria luz; assim nos Santos todo
o afecto humano necessariamente se dissolverá de modo inefável e quase se
transformará na vontade de Deus. Com efeito, de que forma poderá Deus estar
em todas as coisas, se algo de humano permanece no homem? É certo que
permanecerá a substância, mas com outra forma, com outra glória, com outro
poder... Isto significa deificar-se&quot; (De dil. Deo, 11, 28). O processo de
deificação do homem supõe que a alma olvide completamente o corpo. Conseguido
este estádio, nada mais impede que o homem se afaste cada vez mais de si e se
erga para Deus tornando-se semelhante a ele, na medida em que é possível
tornar-se semelhante a Deus. Neste estádio, o homem faz uma só coisa com o
Espírito de Deus (lb., 11, 32; 15, 39).
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O único problema que S. Bernardo tratou filosoficamente é o da graça e do
livre arbítrio. Distingue três aspectos de liberdade: a liberdade da
necessidade, a liberdade do pecado, a liberdade da miséria. A liberdade da
necessidade é o livre arbítrio, que é próprio da vontade humana; não se perde
nem com o pecado nem com a miséria, e não é maior no justo que no 
pecador, nem no anjo que no homem (De grat., 1, 2). O livre arbítrio
constitui a própria essência da liberdade humana. Tudo o que é voluntário é 
 livre. A vida, os sentidos, o apetite, a memória, o engenho, e todas as
outras actividades humanas estão sujeitas à necessidade, quando não estão
inteiramente submetidas à vontade (1b., 2, 5). A vontade é a faculdade de
escolha: mas esta escolha não se exerce necessariamente entre o bem e o mal;
Deus é livre nas suas acções, mas não se determina no mal. Contra Escoto
Erígena e com Sto. Anselmo, S. Bernardo nega que a liberdade consiste na
escolha entre o bem e o mal. A possibilidade de escolher o mal não e
essencial à liberdade, mas é antes uma imperfeição própria da liberdade
finita, o essencial da liberdade é a ausência de toda a coacção. Ao lado do
livre arbítrio está a liberdade do pecado e a liberdade da miséria. Mas,
apesar do livre arbítrio fazer parte da nossa natureza, a liberdade do pecado
é-nos dada pela graça e a liberdade da miséria ser-nos-á reservada in patria,
isto é, no céu: por isso o livre arbítrio pode ser chamado liberdade de
natureza, a liberdade do pecado liberdade da graça, a liberdade da miséria
liberdade de vida ou de glória (lb., 3, 7.)
Amigo de S. Bernardo foi Guilherme de S. Th,ierry, abade deste mosteiro de
1119 a 1135 e falecido em 1148 ou 1153. Participou na luta contra Abelardo
com um escrito redigido no Inverno de
1138-1139, Disputatio adversus Abelardum e com
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uma carta na qual pedia a atenção de S. Bernardo para os erros de Abelardo. É
também autor de obras místicas e exegéticas, Meditativae orationes, De
contemplando Deo, De natura et dignitate divini amoris. Nos dois livros De
natura corporis et animi, trata, no primeiro, da física do corpo humano e no
segundo da física da alma. O interesse desta compilação está no facto de
Guilherme procurar a união da psicologia platónico-agustiniana com a da
medicina greco-árabe, que conheceu através de Constantino Africano.
§ 223. ISAAC DE STELLA
O inglês Isaac foi monge em Citeaux, depois, de 1147 a 1169, abade de Stella,
na diocese de Poitiers. A sua obra mais significativa filosoficamente é uma
Epistola ad quendam familiarem suum de anima, escrita à volta de 1162.
lsaac parte de um pressuposto que tira de S. Agostinho e que voltaremos a
encontrar em Descartes: para o homem, o conhecimento mais claro é o de Deus.
Das três realidades, corpo, alma e Deus, o corpo é-nos menos conhecido que a
alma e a alma menos conhecida que Deus. A alma é, de certo modo, a imagem da
divindade como disse Aristóteles, ela é a similitude de todas as coisas; e
assim se transforma em meio entre o corpo e Deus. Cinco são os graus da
actividade cognoscitiva da alma: o sentido corpóreo, a imaginação, a razão, o
intelecto e a inteligência. Os sentidos percebem os corpos, a imaginação
conserva e reproduz as imagens sensíveis, mesmo na ausência dos corpos; a
razão percebe as formas incorpóreas das coisas corpóreas. O processo da razão
é abstracção; e Isaac formula uma teoria da abstracção que será seguida e
desenvolvida por S. Tomás de Aquino.
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&quot;A razão, afirma ele, abstrai dos corpos as formas ou naturezas que no corpo
subsistem, mas abstrai-as não em acto, mas apenas ao considerá-las; o vendo
que em acto subsistem apenas no corpo, percebe no entanto que elas não são o
próprio corpo. Assim a razão percebe o que nem os sentidos nem a imaginação
conseguem perceber, ou seja, na natureza das coisas corpóreas as formas, as
diferenças, os atributos próprios e acidentais; todas as coisas ,incorpóreas
que, não obstante, não existirem fora dos corpos, mas na própria razão&quot; (P.
L., 194.O,
1884). Acima da razão, o intelecto é a força que percebe as formas das coisas
incorpóreas, isto é, dos seres espirituais; e a inteligência. vê, na medida
em que é possível à sua natureza, o sumo ser, isto é, Deus na sua pureza e
incorporeidade. Deste conhecimento supremo da inteligência, o homem recebe a
luz para os conhecimentos inferiores. Aqui Isaac: reproduz a doutrina
agustiniana da