História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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3).

O objectivo fundamental das interpretações teológicas de Pedro Lombardo é a

defesa da omnipotência divina. Contra Abelardo e de acordo com Hugo de S.

Victor (§ 225), Pedro Lombardo nega que Deus não possa criar nada de melhor

do que aquilo que efectivamente criou. Na realidade, se o "melhor" se refere

à actividade criadora de Deus, a afirmação é legítima: mas se se refere ao

objecto dessa actividade, isto é, ao mundo criado, a afirmação é fadsa,

porque leva a pensar que ao mundo

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não falta qualquer perfeição, e em tal caso o próprio mundo seria semelhante

a Deus: ou então Deus não poderia dar-lhe maior perfeição e assim o mundo

manifestaria uma imperfeição que estaria em contraste com a tese, segundo a

qual, é o melhor dos mundos possíveis (1b., 1, dist. 44, 2-3).

No que diz respeito ao homem, cujas três faculdades reproduzem, como se

disse, a Trindade divina, Pedro Lombardo afirma que a alma é-lhe transmitida

d-irectamente por Deus. É preciso distinguir no homem a sensibilidade, a

razão e a vontade livre. A sensibilidade está ligada a todos os órgãos dos

sentidos, e é receptiva e apetitiva. A razão é a mais alta faculdade

cognoscitiva da natureza humana: dirige-se por um lado ao que é temporal; por

outro ao que é eterno. O livre arbítrio é a faculdade da razão e da vontade

conjuntamente, o por isso o homem ~lhe o bem, se a graça divina o ajuda, ou o

mal, se não existe a graça. Diz,se livre em razão da vontade, que pode

determinar-se por uma

coisa ou por outra; diz-se arbítrio em virtude da razão, da qual representa a

faculdade ou poder de discernir o bem do mal, escolhendo umas vezes um,

outras vezes o outro (lb., 11, dist. 24,5). O livre arbítrio pressupõ e,

portanto, a vontade e a razão e não pode pertencer aos animais que são

privados de razão. A sua essência não está na capacidade de escolher entre o

bem e o mal, mas antes na capacidade de escolher, sem necessidade ou coacção,

o que a razão estabelece. Para o homem o mal é duplo: o pecado e a pena do

pecado. Um e outra são negatividade e privação do bem: o pecado é privação

num sentido activo, porque corrompe o

bem o priva dele o homem; a pena é privação em

sentido passivo porque é um efeito do pecado. Deus não é de forma alguma

causa do mal: prevê infalivelmente o mal, não como obra sua, mas como obra

daqueles que o fazem e suportam. A previsão do

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mal exclui o beneplácito da sua autoridade, enquanto que a previsão do bem,

que é tudo aquilo que ele directamente opera no mundo, é sempre acompanhada

de tal beneplácito (lb., 1, dist. 38, 4). Condição primeira para que o homem

escolha o bem é a graça divina, que é sempre gratuitamente concedida (gratis

dada), independentemente dos méritos humanos: com efeito, não seria graça se

não fosse gratuitamente dada. Mas, enquanto que a misericórdia divina é

sempre um acto de graça, a reprovação e a severidade de Deus perante o homem

são actos de justiça, determinados por aquilo que o homem mereceu. A

reprovação divina consiste no não querer ser misericordioso, a severidade em

não sê-lo e uma e outra pretendem tornar melhor o homem (1b., dis. 41, 1).

As Setuenças de Pedro Lombardo tomaram-se, em breve, um dos livros

fundamentais da cultura filosófica medieval e foram objecto de numerosos

comentários até ao fim do século XVI.

NOTA BIBLIOGRÁFICA

§ 230. Sobre o desenvolvimento das complicações de Sentenças: RoBERT, Les

écoles et 1'ense@gnement de Ia théol. pendant Ia première moitié du XIIe

sièc@e, Paris, 1909, cap. 6; DE GHELLINCK; Le mouvement thélogique du XIIe

8ièc1e. Rruges-Bruxelas-Paris, 1948 (com bibli.).

§ 231. As obras de Pedro Lombardo, em P. L.,

191.,-192.,. Edição critica das Sentenças, a cargo dos padres franciscanos de

Quaracchi, 1916, 2 V018.-PROTOIS, Pierre Lombard, Paris, 1881; GRABMANN, Die

Gesch. d. 8chol. Methole, 11, 350-407; ERSPENBERGER, em "Beitrãge", 111, 5,

1901.

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x

A FILOSOFIA ÁRABE

§ 232. FILOSOFIA áRABE: CARACTERíSTICAS E ORIGENS

Entre as causas que mais eficazmente estimularam a actividade cultural do

Ocidente no século XII, estão as relações com o mundo oriental sobretudo com

os Árabes. Com efeito, o mundo árabe tinha já assimilado, nos séculos

precedentes, a herança da filosofia e da ciência gregas, que ainda

permaneciam em grande parte, ignoradas pela cultura ocidental: esta conhecia

delas apenas o que tinha conseguido filtrar-se através da obra dos autores

latinos e dos Padres da Igreja. Por outro lado, e sobretudo por isso, a

filosofia árabe surgia aos olhos dos pensadores ocidentais como a própria

manifestação da razão e, por isso, como uma força de libertação dos entraves

postos pela tradição. Adelardo de Bath não hesitava em contrapor o que tinha

aprendido " com os mestres árabes, orientado pela razão", ao "cabresto da

autoridade" a que estavam submetidos os que seguiam a tradição (Quaest. nat.,

6). Em terceiro lugar, a filosofia oci-

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dental tinha, em comum com a filosofia oriental, a própria natureza dos seus

problemas. Também a

filosofia árabe é uma escolástica, isto é, uma ten-

tativa para encontrar uma via de acesso racional à verdade revelada; e a

verdade que se pretende alcançar, a que está contida no Corão, tem muitas

características semelhantes à verdade cristã. Em suma, tal como a filosofia

cristã, a escolástica árabe vive à custa da filosofia grega, especialmente do

neoplatonismo e do aristotelismo.

Tudo isto explica a influência e a profunda penetração que o pensamento árabe

exerceu na escolástica cristã no século XIII e XIV. Todavia, em certos

pontos, as duas escolásticas deviam revelar-se inconciliáveis. A síntese a

que chegaram os maiores representantes da escolástica árabe, Al Farabi,

Avicena e Averróis, surge-nos de acordo com o principio da necessidade. A

necessidade domina o mundo divino e humano; tal é a convicção dos grandes

filósofos árabes. E a isso não se furta o mundo das coisas finitas que é

necessário não por si, mas pela sua dependência de Deus: nem mesmo a vontade

humana, dominada por uma cadeia causal que, através dos acontecimentos do

mundo sublu. nar e dos movimentos da esfera terrestre, tem como motor o Ser

necessário. A escolástica latina, ainda que tenha recebido o aristotelismo

através dos árabes, deverá no entanto tentar subtrai-lo ao princípio da

necessidade e introduzir nele um princípio de contingência quepermitisse

salvar, ao mesmo tempo, a liberdade criadora de Deus e o livre arbítrio do

homem.

A primeira actividade filosófica nasceu entre os Árabes da tentativa de

interpretar certas crenças fundamentais do Corão. Assim a seita dos

Quadáries, afirmava o livre arbítrio do homem perante a vontade divina,

enquanto que a dos Jabaries defendia o fatalismo absoluto. No século 11 da

FIégira

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(732-832),. expande-se a seita dos Motazeis ou dissidentes, que afirmavam

enèrgicamente os direitos da razão na interpretação da verdade xeligiosa.

Foram eles que divulgaram o Kalam. (ciência da palavra), ou seja, a teologia

racional. A partir do califado de Haroun al-Raschid (785-809), os árabes

começaram a familiarizar-se com a cultura grega. As traduções árabes das

obras de Aristóteles e dos outros autores gregos deveram-se, em geral, a

sábios cristãos sírios ou caldeus, que viviam, em grande número, como médicos

na corte dos Califas. As obras de Aristóteles foram traduzidas em grande

parte das traduções sírias que, desde a época do imperador Justiniano, tinham

começado a difundir no Oriente a cultura grega. Entre as obras que exerceram

mais profunda influência no pensamento árabe conta-se uma Teologia atribuída

a Aristóteles, que é formada por uma centena de passagens tiradas das Eneadis

de Plotino, e o Liber de causis, que é a tradução dos Elementos de teologia

de Próculo.