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História da filosofia   III - Nicola Abbagnano

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pensamento, para poder identificar-se com ele. No grau mais elevado da
contemplação descobre o reflexo de Deus no universo e a proximidade da esfera
celeste. Finalmente, no êxtase, vê a Deus dele dimanando diversas esferas
celestes e descendo sobre diversos seres humanos, alguns puros e piedosos,
outros impuros e condenados.
Para demonstrar o acordo entre a sua doutrina e a crença da religião
islâmica, Ibri-Tofail imagina o seu protagonista encontrando-se, aos
cinquenta
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anos, com um homem criado na religião e que por uma via diferente consegue
chegar às mesmas conclusões que ele. Os dois juntam-se para criar uma
comunidade religiosa, mas depois, reconhecendo a irrípossibilidade de
comunicar a todos a verdade por eles alcançada, retiram-se de novo para o
isolamento, para viverem uma vida contemplativa.
O romance de Ibn-Tofail exprime uma posição que é comum a todos os filósofos
árabes: a de que a filosofia conduz a um resultado idêntico ao da religião,
mas por uma outra via, que é a da busca individual e da demonstração. Além
disso, a obra de Ibri-Tofail é também como que um resumo das doutrinas
correntes na filosofia árabe sobre o intelecto. O verdadeiro agente do
conhecimento humano é o intelecto universal, a última emanação do Ser
supremo. O @ntelecto humano ou potencial está dominado e dirigido por Aquele.
§ 240. AVERRóIS: VIDA E OBRA
Ibn-Ruslid ou Averróis, o mais célebre dos comentadores árabes de
Aristóteles, nasceu em Córdova em 1126. O avô e o pai eram jurisconsultos e
juízes, e à mesma carreira estava destinado Averróis, que no entanto se
dedicou com grande entusiasmo à medicina, à matemática e à filosofia. Sabemos
já como ele foi apresentado por Ibri-Tofail à corte do rei Yussuf. Este rei
confiou-lhe numerosos cargos políticos que o obrigaram a viajar
frequentemente pela Espanha e por Marrocos. O sucessor de Yussuf, Almansur,
protegeu igualmente Averróis. Mas quando este foi acusado por suspo*,ta de
heresia e, Ial como muitos outros sábios árabes da época, de promover o
estudo da ciência e da filosofia dos gregos, em detrimento da religião
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muçulmana, Almansur desterrou-o para a cidade de El-isana (Lucena), perto de
Córdova, proíbindo-o dela sair. Averróis teve então de suportar os insultos
dos fanáticos. Ele próprio nos conta que uma vez, indo com o filho à mesquita
para assistir à oração da tarde, a turba o expulsou do lugar sagrado. Mais
tarde, foi enviado para Marrocos e não voltou mais a Espanha. Morreu em 10 de
Dezembro de 1198, com a idade de 73 anos. Por ordem de Almansur, as suas
obras foram todas destruídas e o Ocidente teve delas conhecimento através de
versões hebraicas.
Entre as obras de Averróis podemos destacar, em primeiro lugar, os
Comentários a Aristóteles e que se distinguem em grandes comentários,
comentários médios e paráfrases ou análises. Pelas referências contidas
nestas obras podemos supor que Averróis tenha redigido os comentários médios
primeiro que os grandes e as paráfrases e análises contemporâneamente ou
quase com os comentários médios. Além destes comentários, Averróis escreveu:
1.` A destruição da destruição dos filósofos de Algazali e que é uma
refutação da obra de Algazali; 2. Questões ou dissertações sobre diversas
passagens do Organon de Aristóteles; 3. Dissertações físicas ou pequenos
tratados sobre diversas questões da física de Aristóteles; 4. Duas
dissertações sobre a união do intelecto separado com o homem; 5.O Uma
dissertação sobre o problema de se saber "se é possível que o intelecto
(intelecto material ou hílico) compreenda as formas separadas ou abstractas"-
,
6.O Uma refutação do texto de Avicena Sobre a divisão dos seres; 7.O Um
tratado sobre o acordo da religião com a filosofia; 8. Um tratado sobre o
verdadeiro significado dos dogmas da religião, escrito em Sevilha em 1179.
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§ 241. AVERRóIS: FILOSOFIA E RELIGIÃO
A intenção declarada de Averróis não é a de construir um sistema próprio, mas
apenas a de esclarecer o significado autêntico da filosofia de Aristóteles,
que para ele é a expressão máxima do pensamento humano. "Aristóteles, afirma
Avicena, é a regra e o exemplo criados pela natureza para demonstrar a máxima
perfeição humana. A doutrina de Aristóteles é a verdade máxima, porque a sua
inteligência reflecte o ponto mais alto do intelecto humano. E bem se pode
afirmar que foi criado e oferecido aos homens pela Divina Providência, para
que os homens pudessem saber tudo o que lhes é dado sabem (De an., 111, 14).
Com tais considerações sobre o valor de Aristóteles e sobre a verdade da sua
doutrina, Averróis evidentemente não pretende ter a presunção de ultrapassar
o seu mestre ou de se afastar do caminho por ele traçado. No entanto, na sua
obra de ilustração e de wmentários aos textos aristotélicos, perpassam os
resultados fundamentais de toda a especulação árabe anterior; ele próprio se
move dentro do clima dessa especulação, que é substancialmente uma
interpretação neoplatonizante do oristotelismo.
Não obstante a suspeita de heresia que sobre ele pesou, Averróis não concebe
a investigação filosófica em desacordo com a tradição religiosa. Em primeiro
lugar, está consciente do valor absoluto dessa mesma investigação. "Na
verdade, afirma, a religião própria dos filósofos consiste em aprofundar o
estudo de tudo o que é, não se poderá render a Deus um culto melhor do que
aquele que consiste em conhecer as suas obras e leva ao conhecimento do
próprio Deus em toda a sua realidade. Esta é, aos olhos de Deus, a acção mais
nobre, enquanto que a acção mais desprezível é a de
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acusar de erro e de presunção vã aquele que se consagra a esse culto, que é o
mais nobre de todos, o que adora Deus com esta religião, que é a melhor de
todas" (Muiik, Mélanges, p. 456). Por outro lado, no entanto, a investigação
filosófica não pode ser de todos, a religião do filósofo não pode ser a
religíão do vulgo. Tal como certos alimentos são bons para certos animais e
maus para outros, também os processos dos filósofos que são utilíssimos nas
suas investigações são, no entanto, funestos para os não-filósofos. Se os
filósofos viessem demonstrar junto do vulgo as suas dúvidas e as suas
demonstrações, isso poderia dar aso aos incompetentes de levantar ainda mais
dúvidas e argumentos sofísticos e de caírem em erro. Por isso, a religião que
é feita para a maioria, segue e deve seguir outra via, uma via "simples e
narrativa" que ilumine e dirija a acção. Este é o verdadeiro domínio da
razão. À filosofia cabe o mundo da especulação, e à rehgião o mundo da acção.
Quem nega, ou simplesmente duvida, dos princípios enunciados pela tradição
religiosa, tornaria impossível o agir humano, do mesmo modo que tornaria
impossível a ciência aquele que negasse ou duvidasse dos princípios básicos
em que ela se fundamenta (Destr. destruct., disp. 6, fol. 56, 79). AverrÓis
pretende nos seus livros "falar livremente com os autênticos filósofos" e não
opor-se aos ensi-namentos da tradição religiosa.
Não se lhe pode portanto atribuir aquela doutrina da dupla verdade, que os
escolásticos consideraram como pedra angular do seu sistema. Para ele não
existe uma verdade religiosa ao lado de uma verdade filosófica. A verdade é
uma só: o filósofo procura-a através da demonstração necessária, o crente
recebe-a da tradição religiosa (a lei do Corão) numa forma simples e
narrativa, que se adapta à natureza da maior parte dos homens. Mas não existe
um contraste entre as duas vias, nem dua-
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lismo na verdade. Averróis escreveu, como já dissémos, dois tratados que se
destinavam a demonstrar o acordo que existe entre a verdade religiosa e a
filosófica.
Todos os que são estranhos à especulação devem aproximar-se da forma que a
verdade recebeu por obra