História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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segundo S. João: "Não sois

vós que falais é Deus que fala em vós" é entendida por Escoto da seguinte

forma: "Não sois vós que me compreendeis, sou Eu que mo compreendo a Mim

próprio em vós, através do meti espírito" (Hom. in Joh., p. 291-A).

§ 179. JOÃO ESCOTO: AS QUATRO NATUREZAS

O título da obra principal de João Escoto: * divisão da natureza é de pura

origem platónica. * "divisão" a que se refere significa a operação

fundamental da dialéctica platónica, operação que Erígena defende como

constitutiva da própria estrutura da natureza; e a "natureza", segundo os

ensinamentos do Parménides e do Sofista, é o conjunto do ser e do não ser.

Retomando um modelo de Santo Agostinho (De civ. Dei, V, 9). Erígena divide

* natureza em quatro partes.

A primeira natureza cria e não é criada: é ela

* causa de tudo o que é e que não é. A segunda é criada e cria, constitui o

conjunto das causas primordiais. A terceira é criada e não cria e corresponde

ao conjunto de tudo o que é gerado no espaço e no tempo. A quarta não cria

nem é criada, é o próprio Deus, como fim último da criação (De div. nat., 1,

1).

Faz parte destas quatro naturezas não só tudo o que é, como também tudo

aquilo que não é. Pelo não-ser, não se entende o nada, mas a negação das

várias determinações possíveis do ser. Deste modo poderá afirmar-se que não

são as coisas que escapam aos sentidos e ao intelecto; ou as coisas infe-

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riores em relação às coisas superiores e celestes, ou as coisas futuras que

ainda não são; ou as que nascem e morrem; ou, em suma, as que transcendem o

entendimento e a razão. To-das as coisas deste género, de certa forma, não

são: todavia não se identificam com o nada e, constituem parte da realidade

universal a que Escoto chama natureza (1, 3 e segs.).

As quatro naturezas constituem o círculo vital do ser divino: "Em primeiro

lugar, Deus descende da super-essencialidade da sua natureza, na qual deve

dizer-se que Ele não é; criado por si próprio nas causas primeiras, converte-

se em princípio de toda a essência, de toda a vida, de toda a inteligência, o

que a teoria gnóstica considera como causas primordiais. Em segundo lugar,

ele desce às causas primordiais que estão entre Deus e a criatura, entre a

inefável super-essencialmente de Deus, que transcende toda a inteligência e a

natureza que se manifesta aos que têm um espírito puro; encontra-se no efeito

das causas primordiais e manifesta-se abertamente nas suas teofanias. Em

terceiro lugar, procede através das formas múltiplas de ta-is efeitos até à

última ordem da natureza inteira que contém os corpos. Deste modo, procedendo

ordenadamente em todas as coisas, cria todas as coisas e acaba por ser tudo

em tudo; e volta a si próprio, chamando a si todas as coisas, e apesar de se

encontrar em todas as coisas, não deixa de estar acima de tudo" (111, 20).

Este círculo, pelo qual a vida divina procede a constituir-se constituindo

todas as coisas e com elas torna a si própria, é o pensamento fundamental de

João Escoto. Nele se encontra contida e determinada a relação entre Deus e o

mundo. O mundo

é o próprio Deus, enquanto teofania ou manifestação de Deus; mas Deus não é o

mundo, porque

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ao criar-se e converter-se em mundo, se mantém acima dele.

§ 180. JOÃO ESCOTO: A PRIMEIRA NATUREZA: DEUS

A primeira natureza é Deus, na medida em que não tem princípio, e é a causa

principal de tudo o que procede d'Ele. Com efeito, Deus é o princípio, o meio

e o fim: é princípio na medida que d'Ele derivam todas as coisas que

participam da essência; é o meio, na medida em que n'Ele e por Ele subsistem

e se movem todas as coisas; é o fim, na medida em que todas as coisas se

movem para Ele, em busca do repouso do seu movimento e da estabilidade da sua

perfeição (1, 11). Como princípio, meio e fim, a natureza divina não se

limita a criar, é também criada. É criada por si própria nas coisas que ela

própria cria, tal como o nosso intelecto se cria a si próprio através dos

pensamentos que formula e das imagens que recebe dos sentidos (1, 12). Deus é

incriado, no sentido em que não é criado por outro; como tal está acima de

todos os seres e não pode ser compreendido nem definido adequadamente. É

unidade, mas unidade inefável que não se encerra esterilmente na sua

singularidade; articula-se em três substâncias: a substância ingénita, o Pai;

a substância génita, o Filho; a substância procedente da ingénita e da

génita, o Espírito Santo. João Escoto vai buscar ao Pseudo-Dionísio, a

distinção das duas teologias: a positiva e a negativa. A primeira afirma de

Deus todos os atributos que lhe correspondem. A outra nega que a substância

divina possa ser determinada mediante os caracteres das coisas que são; isto

é: que possa ser de algum modo compreendida ou exprimida.

Mas os mesmos caracteres que a teologia positiva atribui a Deus assumem nesta

referência um valor diferente daquele que possuem quando se

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referem às coisas criadas. Deus não é propriamente essência, mas super-

essência; não é verdade, mas supra-verdade, e o mesmo se deve dizer de todos

os caracteres positivos que possam ser atribuídos a Deus. De modo que a

própria teologia positiva é na realidade negativa; a menos que não se lhe

queira chamar positiva e negativa ao mesmo tempo; uma vez que, dizer que Deus

é a super-essência, equivale a afirmar e negar ao mesmo tempo que ele seja

essência (1, 14). É certo que a Deus não se pode atribuir nenhuma das

categorias aristotélicas que, referidas a ele, assumem um significado

diferente. Se Deus caísse no âmbito de algumas categorias seria um género

(como, por exemplo, animal). Ora Deus não é nem género nem espécie nem

acidente e, deste modo, nenhuma categoria pode propriamente qualificá-lo (1-

15). A conclusão é de que tudo o que a razão humana pode conseguir em relação

a Deus é demonstrar que nada se pode propriamente afirmar d'Ele. "Ele supera

todo o entendimento e todo o significado sensível e inteligível, de modo que

o conhecemos ignorando-o, e a ignorância acerca dele é a verdadeira

sapiência" (1, 66).

Mas se Deus é inacessível como natureza supra-essencial revela-se por si

próprio na criação, que é uma contínua manifestação d'Ele ou teofania. A

essência divina, que é em si incompreensível, manifesta-se nas criaturas

intelectuais e é possível conhecê-la nelas. Teofania é o processo que desce

de Deus ao homem através da graça, para regressar do homem a Deus, com o

amor. Teofania significa, também, toda a obra de criação, enquanto manifeste

a essência divina, que deste modo se torna visível nela e através dela (1,

10; V, 23). Cada uma das pessoas divinas tem a sua própria função no processo

da teofania. O Pai é o criador de tudo, o Filho cria as causas primordiais

das coisas que

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subsistem nele de forma universal e simples; o Espírito Santo multiplica

estas causas primordiais nos seus efeitos; isto é, distribui-as por géneros e

espécies, por números e diferenças, quer se trate das coisas celestiais, quer

das sensíveis (11, 22).

§ 181. JOÃO ESCOTO: A SEGUNDA NATUREZA: O VERBO

A segunda natureza, a que é criada e cria, corresponde à segunda pessoa da

Trindade. Contém as ideias e as formas das coisas; é portanto o Verbo divino,

através do qual todas as coisas foram criadas. Escoto interroga-se sobre o

valor causal que podem ter as formas subsistentes no Verbo divino; se os

corpos do mundo são formados por elementos que foram criados do nada. Se o

nada fosse efectivamente a origem de tais corpos, teria sido também a sua

causa. Sendo assim, o nada seria melhor que as próprias coisas de que foi

causa, uma vez que a causa é sempre superior ao efeito. Escoto resolve a

dificuldade afirmando que os elementos que compõem o mundo não foram criados

pelo nada, mas pelas