História da filosofia   III - Nicola Abbagnano
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História da filosofia III - Nicola Abbagnano


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causas primordiais. O terceiro movimento é o que diz

respeito às razões das coisas singulares. Parte das imagens recolhidas pelos

sentidos externos e, a partir dessas imagens, ergue-se até às razões ú ltimas

das coisas das quais são imagens. Através deste movimento, a própria imagem

sensível transfigura-se. De imagem impressa nos órgãos dos sentidos,

transforma-se em imagem que a alma sente em si como própria; é precisamente

desta imagem espiritualizada que a alma parte para ascender até às razões

eternas das coisas (11, 23).

A correspondência entre a alma e Deus estende-se também àquilo que diz

respeito ao conhecimento que a alma tem de si própria. Como Deus é

cognoscível. através das suas criaturas, mas incompreensível em si próprio,

já que nem ele próprio nem outro pode entender que coisa seja, uma vez

que não possui um quid, uma essência determinada que se possa entender, assim

a alma humana sabe que é, mas de nenhuma maneira pode conhecer aquilo que é.

E isto não é um limite ou uma imperfeição da própria mente. Assim como a

melhor maneira de aproximarmo-nos de Deus não é a afirmação mas a negação,

não é o conhecimento mas a ignorância, porque Deus, não tendo limites, não

pode ser definido nem restringido a uma essência determinada; também se à

alma fosse possível conhecer a sua própria essência, isso significaria a

possibilidade de circunscrevê-la e implicaria a sua dissemelhança com o

Criador (IV, 7).

§ 184. JOÃO ESCOTO: DIVINDADE DO HOMEM

Circula em toda a obra de João Escoto o sentido do valor superior e divino do

homem. O pessimismo próprio dos pensadores cristãos, e até de

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Santo Agostinho, sobre a natureza e o destino do homem, parece atenuar-se

neste filósofo até se transformar em exaltação do homem, das suas capacidades

e do seu êxito final. "0 homem, afirma, não foi chamado imerecidamente

fábrica de todas as criaturas; com efeito, todas as criaturas se contêm nele.

Compreende como o anjo. raciocina como homem, sente como animal irracional,

vive como o verme, compõe-se de corpo e alma e não carece de nenhuma coisa

criada". Em certo sentido, o homem é superior ao próprio anjo que, por

carecer de corpo, não tem sensibilidade, nem movimento vital (111, 37).

Muito significativas são as considerações que Escoto tece, com visível

complacência, em torno do tema "se o homem não pecasse ... ". Se o homem não

pecasse seria de certo omnipotente como Deus. Com efeito, nada o separaria de

Deus, e ele, que é a imagem de Deus, participaria totalmente na perfeição do

seu modelo. Pelo mesmo motivo, seria omnisciente, porque, tal como Deus,

conheceria

nas suas causas primordiais todas as coisas criadas. Se o primeiro homem não

tivesse pecado, a semelhança entre a natureza angélica e a humana ter-se-ia

transformado numa identidade, e o homem e o anjo ter-se-iam convertido numa

mesma coisa. E isto explica-se porque a mesma identidade se estabelece entre

homem e homem, quando reciprocamente se compreendem. "Se, afirma Escoto, eu

compreendo 9 que tu compreendes, converto-me no teu próprio entendimento e de

certa maneira inefável, converto-me em ti próprio. E quando tu compreendes o

que, eu compreendo, convertes-te no meu entendimento, e dos dois

entendimentos resulta um só, constituído por aquilo que ambos sincera e

correctamente compreendemos. Porque o homem é verdadeiramente o seu

entendimento, o qual se especifica e individualiza pela contemplação da

verdade (IV, 9).

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A perfeição do homem é tão grande que nem

mesmo o pecado original chega para destruí-Ia. Com elo o homem não perdeu a

sua natureza que, enquanto imagem de Deus, é necessariamente incorruptível;

perdeu apenas a felicidade, à qual estava destinado se não houvesse

desprezado o mandamento divino. "É preciso afirmar, diz Escoto, que a

natureza humana, feita à imagem de Deus, nunca perdeu a força da sua beleza e

a integridade da sua essência e nunca poderá perdê-las. Uma forma, divina

como é a alma, permanece sempre incorruptível, além do mais, torna-se capaz

de suportar a pena do pecado" (V, 6).

Com o mesmo optimismo Escoto considera o destino último do homem. A morte é

para o homem o princípio de uma ascensão que o leva a identificar-se com

Deus. Não há morte para o homem, mas o retorno a um estado antigo que perdeu

ao pecar. A primeira fase deste retorno a Deus dá-se quando o corpo se

dissolve nos quatro elementos de que é formado. A segunda fase é a

ressurreição, na qual cada um receberá de novo o seu corpo, através da

reunião dos quatro elementos. Na terceira fase, o corpo transformar-se-á em

espírito. Na quarta fase, toda a natureza humana voltará às suas causas

primordiais, que subsistem em Deus de forma imutável. Na quinta fase, a

natureza humana, juntamente com as suas causas, mover-se-á em Deus "como o

ar se move na luz" (V, 8). Este triunfo final da natureza humana não será, no

entanto, uma anulação em Deus. O dissolver-se místico do homem

em Deus está excluído por João Escoto. O destino da natureza humana não é o

de perder-se no ser divino, mas o de permanecer na sua verdadeira substância,

de reintegrá-la nas suas causas primordiais e de subsistir na sua total perfeição o âmbito do ser

divino, como o ar na luz. O misticismo neoplatónico é aqui corrigido

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pelo sentido do carácter irredutível da natureza humana, carácter pelo qual

conserva, mesmo perante Deus, e em virtude de Deus, a sua autonomia

substancial.

§ 185. JOÃO ESCOTO: O MAL E A LIBERDADE HUMANA

Esta mesma posição leva João Escoto a modificar a doutrina agustiniana da

liberdade humana. De Santo Agostinho, retoma o ponto de partida para a sua

doutrina do mal. Que o mal não é uma realidade, mas uma negação da realidade,

é para Escoto Erígena um pressuposto evidente. Deste pressuposto tira a

conclusão de que Deus não conhece o mal. Com efeito, o conhecimento divino é

imediatamente criador: Deus não conhece as coisas que são, porque são: mas as

coisas são porque Deus as conhece. A causa da sua essência é a ciência

divina. Tudo o que é, é pensamento divino. O homem é definido por Escoto como

"uma noção intelectual eternamente criada na mente divina"; e esta mesma

definição aplica-se a tudo o que existe (IV, 7). Daqui se conclui que se Deus

conhecesse o mal, se o mal fosse um pensamento divino, o mal seria real no

mundo (11, 28). Mas o mal não é real. Não é algo substancial e as próprias

aparências sedutoras de que se reveste perante os homens maus, não são por

si, más. Um objecto belo e precioso que inspira ambição no avarento pode

inspirar, pelo contrário, admiração desinteressada no homem sábio. Não é,

portanto, a aparência bela que leva ao pecado e é por si o mal, mas a

disposição maléfica daquele que a contempla (IV, 16). Do mal, que não é

realidade, não há portanto em Deus presciência; nem tão-pouco predestinação.

A pena que recai sobre o que peca não foi predestinada por Deus; pois também

ela é dor e privação, e não uma realidade

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positiva. A pena é consequência do pecado e segue-se como se estivesse ligada

a ele por uma corrente; mas nem a pena, nem o pecado subsistem na mente

divina, na qual apenas encontra lugar o ser e o bem (De praedest., 15, 8).

Quando as Sagradas Escrituras falam de predestinação ou de presciência divina

do mal, há que entender estas expressões no sentido com que nós costumamos

saber que, depois do sol se pôr vêm as trevas, que o silêncio vem depois das

aclamações e a tristeza depois da alegria. Mas as trevas, o silêncio, a

tristeza, não são mais que noções negativas e indicam. apenas a ausência das

realidades -positivas correspondentes (ibid., 15, 9).

Para Escoto, tal como para Santo Agostinho, o mal reduz-se ao pecado, à

deficiência ou ausência de vontade. Mas enquanto para Santo Agostinho