Horizontes do perdão - Reflexões a partir de Paul Ricouer e Jacques Derrida
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Horizontes do perdão - Reflexões a partir de Paul Ricouer e Jacques Derrida


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49 J, pp. 166-167. 
50 BOBBIO, N. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Elsevier Editora Ltda, 2004, pp. 203-204. 
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Para Ricoeur, no que chama de \u201cnotas desenganadas\u201d existe um convite para 
colocar o acento principal no significado moral da sanção. Questões cruciais que se 
apresentam. A reparação seria muito mais devida à pessoa de carne e osso do que à lei 
abstrata? No que se distingue da vingança? Ela não acrescenta ao balanço cósmico dos 
bens e dos males mais um sofrimento ao sofrimento? Punir não é fazer sofrer? O caso 
das punições que não são, de modo nenhum, reparações no sentido de restauração de um 
estado anterior, como é manifestamente o caso das mortes e das ofensas mais graves. 
A punição restabelece talvez a ordem, ela não dá a vida.51 
 
 
O reconhecimento é categoria-chave no percurso filosófico de Ricoeur, de 
grande importância na equação do perdão, e é considerado por ele uma idéia reguladora, 
tanto para a vítima quanto para o agressor. Através dele a vítima é reconhecida como ser 
ofendido, humilhado, quer dizer, como excluída do regime de reciprocidade operado 
pelo crime, que instaura uma injusta distância. Este reconhecimento inicialmente é 
pequeno: a sociedade declara o queixoso como vitima, ao declarar o acusado como 
culpado. Mas o reconhecimento pode seguir um percurso mais íntimo, quando toca na 
auto-estima. Pode-se dizer aqui que algo é reparado, sob nomes tão diversos como a 
honra, a boa reputação, o respeito de si e a auto-estima; quer dizer, a dignidade ligada à 
qualidade moral da pessoa humana. 
Este reconhecimento íntimo, no que toca à auto-estima, é suscetível de contribuir 
para o trabalho de luto pelo qual a alma ferida se reconcilia consigo mesma, 
interiorizando a figura do objeto amado perdido, de significativa relevância no exame 
de poder de cura do perdão. Nos grandes processos a que os desastres do século deram 
lugar, este trabalho de luto não é apenas oferecido às vítimas, se é que elas existem, 
mas aos seus descendentes, parentes, aliados, cuja dor merece ser honrada. Nesse 
trabalho de luto, prolongando o reconhecimento público do ofendido, é possível 
reconhecer uma versão moral e não mais apenas estética da catharsis, oferecida, 
segundo Aristóteles, pelo espetáculo trágico52. 
Para Ricoeur a sanção deve ter um futuro. Este futuro é dado, segundo o autor, 
sob as formas da reabilitação e perdão, e neste par o reconhecimento é fundamental. 
 
51 J, p. 176. Sobre estes aspectos da justiça penal v. o texto de Ricoeur, \u201cAvant la justice non violente, la 
justice violente\u201d, In VRR, pp. 159-172. 
52 J, p. 177. 
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O filósofo fala, pois, na reabilitação não só no sentido estritamente jurídico, que 
como vimos é o de causa de extinção da culpabilidade, mas como um conjunto de 
medidas que acompanham a execução da pena, visando restaurar a capacidade do 
condenado de voltar a ser cidadão de corpo inteiro, no fim da sua pena. A idéia que a 
preside é o restabelecimento de direitos duma pessoa, da sua capacidade, de um 
estatuto jurídico que tinha perdido. Apagar as incapacidades, restabelecer os direitos, 
restituir uma capacidade humana fundamental, a do cidadão portador de direitos cívicos 
e jurídicos. Este restabelecimento da capacidade do sujeito, já se pode adiantar, é uma 
das idéias-chave da equação do perdão para Ricoeur. O enigma do perdão é duplo: o 
enigma da culpa que paralisaria a potência de agir deste homem capaz que nós somos; 
por outro lado, é o da eventual superação desta incapacidade existencial que designa o 
termo perdão53. 
 Assim, ele indaga se não deveríamos orientar a punição em direção à emenda 
mais do que à expiação (uma das questões do perdão é a necessidade de expiação como 
condição de sua concessão). No paradigma de justiça contido no que se chama hoje 
justiça restaurativa, os laços sociais de autor e vítima são considerados e há uma procura 
para restaurá-los e reabilitar vítimas e ofensores. 
A pena destrói os laços sociais. A sentença está longe de recompor integralmente 
o estado criado pelos crimes graves. Há um excesso (ruptura, dor, sofrimento) que ela 
não consegue atingir. O campo do perdão na justiça não violenta é expandido e nele 
pode ocorrer, e veremos hipóteses em que isto acontece, geralmente em decorrência do 
reconhecimento prévio da infração. A partir de críticas do sistema retributivo, um novo 
paradigma de justiça é buscado para um direito que se pode afirmar em crise. O modelo 
tradicional retributivo, no qual se insere o sistema tradicional de justiça penal e 
prisional, constitui-se em um sistema adversarial, em que o delito é visto como uma 
violação à lei e uma ofensa à sociedade e, por seu lado, a vítima apenas como um 
elemento de prova num processo, cujo foco é a atribuição da culpa ao réu e a imposição 
de uma pena. Além disso, trabalha-se dentro de um sistema que opera um eixo vertical, 
por meio do qual a decisão é entregue às partes pela autoridade competente, reforçando, 
assim, a terceirização de responsabilidades 54. 
 
53 MHO, p. 593. 
54 ZEHR, H. The Little Book of Restorative Justice. Intercourse, PA: Good Books, 2002. 
 
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A \u201cJustiça Restaurativa\u201d emerge como uma nova forma de pensar e de fazer a 
justiça, em que o agressor, a vítima e a comunidade do entorno do conflito (familiares, 
amigos, professores dos envolvidos), por meio de procedimentos de aproximação, 
fundados no diálogo e conduzidos por um mediador capacitado, buscam em conjunto a 
reparação do dano e a recomposição de todos os laços sociais rompidos com a ofensa. 
Portanto, tal Justiça opera num eixo horizontal de compartilhamento de 
responsabilidade, na busca da restauração das relações sociais atingidas pela ofensa, 
tendo como postulado fundamental que tais ofensas são atos lesivos a pessoas e 
relacionamentos acima de tudo, causando danos à vítima, famílias, comunidades e aos 
próprios infratores. 
Trata-se de um modelo inclusivo, em que a vítima e a comunidade, junto com o 
ofensor, integram voluntariamente \u201ccírculos de paz\u201d ou \u201ccâmaras restaurativas\u201d, e 
atuam como sujeitos do próprio processo de restauração de suas dignidades, buscando 
de modo consciente a reparação dos danos sofridos e o atendimento de suas 
necessidades, através de processos colaborativos. A Justiça restaurativa enfatiza não a 
punição, mas a minimização dos danos sofridos pela vítima e a tentativa de evitar que o 
infrator volte a cometer o crime. 
As experiências do modelo restaurativo hoje são muitas. O modelo da Comissão 
Verdade e Reconciliação (CVR) da África do Sul desenvolveu-se na linha da justiça 
restaurativa, como será mostrado neste trabalho.55 
 
Ao questionar o modelo retribuitivo, a \u201cJustiça Restaurativa\u201d não está propondo 
a abolição da responsabilização do ofensor. Não se trata de uma atitude permissiva (de 
proteção ao ofensor das conseqüências de suas escolhas) ou negligente 
(passiva/indiferente). Conquanto por meio de firmes mecanismos de controle social, 
desaprove e se posicione contrária ao ato delituoso praticado, concomitantemente, não 
deixa de utilizar-se de eficazes mecanismos de apoio e estruturação, resgatando a 
humanidade intrínseca do ofensor, que, apesar de responsabilizado pelo dano que 
causou, não é estigmatizado. 
Nesta linha, o perdão é colocado por Ricoeur como horizonte da seqüência 
sanção-reabilitação-perdão e, segundo o filósofo, \u201cconstitui uma lembrança permanente 
 
55 Existem projetos-pilotos de Justiça Restaurativa no Brasil. As práticas acontecem desde junho de 2005 
nos municípios de São Caetano do Sul, Porto