Horizontes do perdão - Reflexões a partir de Paul Ricouer e Jacques Derrida
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Horizontes do perdão - Reflexões a partir de Paul Ricouer e Jacques Derrida


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possibilidades, de descobrir uma outra via, 
vendo as coisas de outro modo, o poder de aceder a uma nova regra recebendo o 
ensinamento da exceção. O perdão também tem este caráter excepcional e é uma 
possibilidade desta mesma imaginação ética. 
 Para superar a vingança, ou até mesmo a justa punição, o Evangelho propõe 
assim uma atitude nova, e o perdão está no centro desta atitude nova, destinada a 
eliminar, pela raiz, o círculo infernal da violência: a resistência ao inimigo não deve ser 
feita usando as mesmas armas usadas por ele, mas através de comportamento que o 
desarme. 
O velho mito do dilúvio é invocado pelo filósofo como aquele que vem a se 
confrontar com a lógica da equivalência, que reina também nas trocas cotidianas, no 
comércio, no Direito Penal, e que nós vemos magnificada no talião cósmico, apenas 
inicialmente. Porque uma outra lógica se exprime, de uma maneira muito simples, 
inocente, na forma do arrependimento de Deus. No fim da narrativa, Javé não tem que 
se contradizer. O velho mito do dilúvio transformou em parábola a ressurreição das 
águas da humanidade (Gênesis 8, 21-22). Manifesta-se na promessa de Javé à 
humanidade ressuscitada das águas. Assim, nos é sugerida também esta outra lógica, a 
lógica da superabundância 68. 
 
68 BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: Edições Paulinas, 1990. 
Gênesis 6,5-7 \u2013 Javé viu que a maldade do homem crescia na terra e que todo projeto do coração humano 
era sempre mau. Então Javé se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra, e seu coração ficou 
magoado. E Javé disse: \u201cVou exterminar da face da terra os homens que criei, e junto também os animais, 
os répteis e as aves do céu, porque me arrependo de os ter feito.\u201dGênesis 8-21 \u2013 Javé aspirou o perfume, e 
disse consigo: \u201cNunca mais amaldiçoarei a terra por causa do homem, porque os projetos do coração do 
homem são maus desde a sua juventude. Nunca mais destruirei todos os seres vivos, como fiz. Enquanto 
durar a terra, jamais faltarão semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite\u201d. 
 
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Esta mesma lógica é que anima a prosa, contrastada, paradoxal do apóstolo 
Paulo. No capítulo 5 da Epístola aos Romanos, no qual ele mostra como a lógica da 
superabundância, do excesso, quebra a lógica da equivalência, numa ética da graça. 
Paulo repete, para destacá-la, quatro vezes a mesma retórica, com a expressão 
\u201ccom mais forte razão\u201d, como se a abundância de expressão da exortação devesse 
acompanhar aquela do dom que ele celebra. 
A dialética do destino humano é pintada por Paulo em termos de perdição e de 
justificação, de inimizade e reconciliação com Deus, de lei e de graça, de morte e de 
vida. Do lado da lógica da equivalência estão alinhados o pecado, a lei e a morte. No 
pólo da lógica da superabundância, a justificação, a graça e a vida. 
 
A coisa nova em Paulo é o que ele tornará, por contraste infinitamente precioso, 
ou seja, o que é novo \u2013 Jesus Cristo é ele próprio o \u201ccom mais forte razão de Deus\u201d. 
Jesus no Evangelho é inicialmente aquele que fala e diz a boa nova. Agora ele é 
anunciado como aquele que, através da loucura da Cruz, quebra a norma de 
equivalência do pecado e da morte. Há um combate de gigantes: lei e graça; morte e 
vida. O primeiro homem, de um lado: \u201cse pela culpa de um só...\u201d De outra parte, o 
homem verdadeiro \u201ccom mais forte razão a graça de Deus e o dom conferido pela graça 
de um só homem, Jesus Cristo, se espalharam em profusão pela multidão\u201d. A Igreja, 
pela boca de são Paulo, dá um nome, o nome de Jesus Cristo à lei da superabundância. 
Há signos concretos desta economia nova. O perdão pode ser um deles. 
 
 
A denominada justificação paulina ou o paradoxo de são Paulo é uma peça 
fundamental nas articulações do perdão, e surge de maneira recorrente nos dois autores 
escolhidos. Ela é difícil de introduzir pela gama de conhecimentos que requer, mesmo 
para especialistas, e é considerada uma passagem de difícil interpretação. 
 Ricoeur e Derrida integram à análise do perdão a lógica do excesso ou da 
superabundância de Paulo, como sua fonte e sua cena. 
Ricoeur fez uma primeira leitura do simbolismo paulino da justificação, sob o 
título de \u201co impasse da culpabilidade\u201d na Simbólica do Mal69 e já alertava que a 
justificação é chocante para uma mente educada no conceito arquitetônico grego de 
 
69 FCSM pp. 134-144. 
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justiça como virtude, como vem na República, Livro IV. A justiça, para Paulo, é algo 
que vem ao homem do futuro em relação ao presente, do exterior para o interior, do 
transcendente para o imanente. O pensador procede a uma segunda leitura à luz da 
lógica da pena. 70 
O simbolismo paulino da justifcação tem presença importante no tema do 
perdão, na medida em que a lógica absurda é superada pela lógica da superabundância; 
a lógica da equivalência (o salário do pecado é a morte) por uma lógica do excesso, da 
abundância. É uma certa pedagogia do excesso. 
Ricoeur alerta que o tema é complexo para os comentadores porque os condena 
a justapor elementos heterogêneos \u2013 justiça judiciária e graça; punição e fidelidade às 
promessas; expiação e misericórdia. 
A grande descoberta de Paulo é que a própria lei é fonte de pecado. Ela 
engendra o pecado. Ela foi editada tendo em vista as transgressões, mas, longe de 
comunicar a vida, ela não pode senão fazer conhecer o pecado. O seu ponto de partida 
está na experiência de impotência do homem para satisfazer a exigência total da lei, que 
é nula se não for integral. Nós nunca estamos quites com a lei, pois a perfeição é infinita 
e os comandos são em número ilimitado. Assim, o homem não será nunca justificado 
pela lei. Só o será se a observância pudesse ser total. \u201cTodos os que se queixam da 
prática da lei incorrem numa maldição\u201d. Porque está escrito: \u201cmaldito seja quem for que 
não se atenha a todos os preceitos escritos no livro da lei para os praticar\u201d. Começa aqui 
o inferno da culpabilidade, pois não só a aproximação da justiça não tem fim, mas a lei 
mesma transforma esta aproximação em distância. 
Paulo, então, desmonta esta máquina infernal, fazendo comparecer a Lei e o 
Pecado como entidades fantásticas e aí revela a sua mortal circularidade. Entrando no 
círculo vicioso pelo lado da lei ele escreve: \u201cA lei interveio para que se multiplicasse o 
pecado\u201d[...] O preceito sobrevindo \u201cdeu vida ao pecado\u201d e assim \u201cme conduziu à 
morte\u201d. Todavia, esta primeira leitura é o avesso de outra, a verdadeira, segundo 
Ricoeur. É o pecado que \u201ccriando a ocasião\u201d se serve da lei para a aguilhoar e se 
desenvolver em desejo, ambição: é ele que \u201cutilizando a lei, me seduziu e por seu meio 
me mata\u201d. 
 
70 RICOEUR, P. Le conflit des interprétations \u2013 Essais D\u2019herméneutique. Paris: Éditions du Seuil, 1969, 
pp. 365/368. 
 
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A lei é, assim, o que exibe o pecado, o que o torna manifesto. \u201cÉ o pecado que, a 
fim de parecer pecado, se serviu de uma coisa boa para me causar a morte a fim de que 
o pecado exercesse toda sua potência de pecado por meio do preceito\u201d. Por meio deste 
círculo que o pecado forma com ele mesmo e com a lei, Paulo coloca o problema do 
preceito em sua amplitude e radicalidade. O problema é este: como é possível que esta 
lei, destinada a promover a vida, se inverta em \u201cministério de condenação\u201d em 
\u201cministério de morte\u201d? Paulo é herdeiro da tese hebraica segundo a qual o pecado é 
punido pela morte. 
Em resposta a esta questão radical, Paulo faz aparecer uma dimensão do pecado, 
uma qualidade nova do mal, que não é mais a \u201ctransgressão\u201d de um determinado 
comando, nem mesmo de toda transgressão,