Horizontes do perdão - Reflexões a partir de Paul Ricouer e Jacques Derrida
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Horizontes do perdão - Reflexões a partir de Paul Ricouer e Jacques Derrida


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de perdão de descarregar, desligar o agente de seu ato. 
Na esfera do retorno a si, respondendo a qual poder, a qual coragem pode ser 
feito o apelo para, simplesmente pedir perdão, Ricoeur, já no coração da ipseidade, 
recorre à tentativa de Hannah Arendt, feita na Condição Humana, cujo pensamento 
sobre o par: promessa e perdão, foi tratado de maneira mais ampla no Capítulo 3, 
Terceira Parte. 
 
Retomando um pouco do que foi dito, a base do perdão, nos ensina Hannah 
Arendt, é o respeito (philia politike aristotélica). A sua base não é o amor \u2013 não percebe 
o what, mas o who. O respeito, como philia politike aristotélica, é uma amizade sem 
intimidade ou proximidade: \u201cé uma consideração pela pessoa, nutrida à distância que o 
 
173 MHO, p. 626. 
 111 
espaço do mundo coloca entre nós, ou pelas realizações que possamos ter em alta 
conta\u201d. 
A promessa não se estanca no tempo, pois como os altos e baixos são traços da 
condição humana, se fazem necessárias novas promessas. O Velho Testamento é 
caracterizado pela crença no poder de promessa recíproca e pela vocação, portanto, para 
a Aliança. 
O pacta sunt servanda dos romanos, e a variedade de teorias contratualistas 
confirmam o lugar central da promessa na reflexão política. Característica da promessa 
é lidar com dois aspectos da imprevisibilidade: a inconfiabilidade fundamental dos 
homens ou \u201ctreva do coração humano\u201d, pela qual não se pode dizer hoje quem serão 
amanhã; impossibilidade de prever as conseqüências da ação numa comunidade de 
iguais, onde todos têm a mesma capacidade de agir. O desejo de conviver com os 
outros, na modalidade do discurso e da ação \u2013 requer conseqüentemente na vita activa a 
faculdade de desfazer o que fizemos, controlar, pelo menos parcialmente, os processos 
que desencadeamos.174 
Explica então Ricoeur que a possibilidade de desligar o agente do seu ato, o 
desligamento \u2013 marcaria a inscrição, no campo da disparidade horizontal, entre a 
potência e o ato, da disparidade vertical entre o muito alto do perdão e o abismo da 
culpabilidade. O culpado capaz de recomeçar \u2013 esta será a figura do desligamento que 
comanda todas as outras. Este desligamento ou separação é possível, afirma Ricoeur. 
Apela ao argumento de Derrida: separar o culpado do seu ato, perdoar ao 
culpado condenando sua ação, seria perdoar a um outro sujeito do que aquele que 
cometeu a ação. Derrida, falando a propósito do perdão condicional, explicitamente 
solicitado diz: 
\u201cE quem a partir daí não é mais totalmente o culpado, mas já um outro, e melhor que o 
culpado. Nesta medida, e nesta condição, não é mais ao culpado enquanto tal que se 
perdoa\u201d.175 
 
 
Ricoeur, neste ponto, ressalva que se trata de potencialmente outro, mas não um 
outro. 
 
11 - Interlúdio \u2013 ética e identidade 
 
174 LAFER, Celso. A Reconstrução dos Direitos Humanos: Um diálogo com o Pensamento de Hannah 
Arendt. 5ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 220-221. 
175 FS, p. 130. 
 112 
Num terceiro interlúdio sobre a ética se traz a questão da identidade, 
esclarecendo o papel da promessa (e de sua lembrança) na concepção de Ricoeur em 
sua pequena ética. O problema aqui é pensar a identidade pessoal na história de uma 
vida, no curso total de uma vida: O que permanece idêntico no curso de uma vida 
humana ?\u201d176 
Na identidade narrativa do sujeito, uma das maneiras, segundo o filósofo, pela 
qual o sujeito se apropria de sua identidade, é confrontar dois modelos de identidade, a 
mesmidade e a ipseidade, que se fundam em dois modelos de permanência no tempo. A 
mesmidade funda-se na permanência de uma substância imutável, de um substrato, de 
uma estrutura que o tempo não afeta. Este é o caso da permanência do código genético 
de um indivíduo biológico. A ipseidade funda-se na manutenção de si na promessa, na 
duração da promessa, mediante a qual o si se mantém na permanência da palavra dada. 
Aplicando estes modelos à pessoa ele encontra na \u201cpermanência do caráter\u201d, isto 
é, nas disposições, hábitos, identificações adquiridas com as quais reconhecemos uma 
pessoa, o modelo da permanência no tempo da mesmidade. 
\u201cEu entendo aqui, por caráter, o conjunto das marcas distintivas que permitem 
reidentificar um indivíduo humano como sendo o mesmo. Pelos traços primitivos que 
vamos mencionar, ele reúne a identidade numérica e qualitativa, a continuidade 
ininterrupta e a permanência no tempo. É por isso que ele designa, de maneira 
emblemática, a mesmidade da pessoa.\u201d177 
 
 
Ricoeur encontra na manutenção da promessa o modelo de permanência no 
tempo oposto à do caráter. À estabilidade do caráter se opõe a fidelidade à palavra dada. 
Enquanto no caráter a ipseidade e a mesmidade coincidem, na fidelidade à promessa a 
ipseidade não tem o suporte da mesmidade, o si se dissocia do mesmo, é \u201cpura 
ipseidade\u201d. 
A manutenção do si, noção essencialmente ética, \u201cé para a pessoa a maneira de 
se comportar tal que o outro possa contar com ela. Porque alguém conta comigo, eu sou 
responsável por minhas ações diante de um outro\u201d.178 A manutenção de si na promessa 
é enunciada pela resposta \u201cEis-me aqui\u201d, à pergunta \u201cOnde estás?\u201d, colocada pelo outro. 
Ricoeur recorre constantemente à figura da promessa ao longo de sua obra como 
o \u201cato de discurso\u201d por excelência. Aqui ela funda a expressão mais alta da identidade 
como a manutenção de si através do tempo, como oposta à simples permanência de uma 
 
176 L2, p. 217. 
177 SA, p. 144. 
178 SA, p.195. 
 113 
coisa, à mesmidade do caráter. Na promessa, a identidade adquire uma marca ética cuja 
obrigação é responder à confiança que o outro põe na minha fidelidade, na minha 
palavra. A manutenção de si na promessa, figura da identidade ética e da perspectiva da 
vida verdadeira, está despojada dos traços estáveis e reconhecíveis do caráter. Se na 
experiência cotidiana a estabilidade do caráter e a manutenção de si na promessa 
tendem a se recobrir na medida em que \u201ccontar com alguém é, ao mesmo tempo, apoiar-
se na estabilidade do caráter e prever que o outro mantenha a palavra\u201d.179 
A ipseidade não se caracteriza apenas pela noção de posse, de pertencimento 
entre a pessoa e seus pensamentos, ações, paixões, experiências etc., mas, também, pela 
noção de despojamento. \u201cOs casos-limites, produzidos pela imaginação narrativa, 
sugerem uma dialética da posse e do despojamento, da preocupação e da 
despreocupação, da afirmação de si e do desaparecimento de si\u201d.180 
O pensador relaciona esta dialética de posse e despojamento da ipseidade com o 
primado do outro no plano ético. \u201cQue este despojamento (figura relevante para o 
perdão e parte de sua constelação) tenha relação com o primado ético do outro em 
relação ao si, isto é claro. É necessário ainda que a irrupção do outro, que quebra o 
fechamento do mesmo, encontre a cumplicidade desse movimento de desaparecimento 
pelo qual o si se torna disponível ao outro. Pois não é necessário que a crise da 
ipseidade tenha como efeito substituir a estima de si pelo ódio de si\u201d.181 
 
12 - Perdão e regeneração de si 
Diante do desdobramento do argumento sério e de resposta difícil de Derrida, 
que já se perdoa, não ao culpado, mas, a um outro (decorrente do primeiro argumento, 
com o qual está de acordo Ricoeur - separar o culpado do seu ato, perdoar o culpado, 
condenando sua ação) o último propõe uma resposta que pode ser achada numa 
separação mais radical do que aquela suposta no argumento da distância entre um 
primeiro sujeito - aquele do erro cometido - e um segundo sujeito - o que é punido. Uma