Interfaces de Gêneros e dos Sujeitos
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Interfaces de Gêneros e dos Sujeitos


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era seu maior fardo era sua lesbianidade declarada. 
Algumas alunas e alunos da sua sala pareciam não a enxergar; docentes se referiam a ela com as 
expressões mais grotescas possíveis: sobre suas roupas \u201cde macho\u201d, seu \u201cjeitão de homem\u201d, seus 
\u201cagarramentos com a outra menina\u201d; a coordenação pedagógica e a direção eram um pouco 
sensíveis à trajetória de Safo e, ao seu modo, não deixava que o espaço escolar se tornasse 
definitivamente outro inferno na vida da aluna. Como alerta Louro (2006, p. 91): 
 
 
52 Eu era pesquisadora do projeto Cidades e Cultura na Paraíba \u2013 1900 \u2013 1950 (PIBIC), coordenado pelo professor 
Fábio Gutemberg B. de Souza. Meu subprojeto, intitulado Imprensa: Projetos E Utopias Dos Letrados Paraibanos \u2013 1900-
1950 se propunha discutir e analisar o discurso dos letrados paraibanos referentes à modernidade e à modernização 
em Campina Grande-PB (VIEIRA, 2006, p. 24). 
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No processo de normalização dos sujeitos, na busca de garantir que \u201cadquiram\u201d 
a identidade sexual correta, cabe aos/ as homossexuais a tarefa de aprender a 
mais dura lição: a lição do silenciamento e da dissimulação [...] Contudo, antes 
disso, antes mesmo de construir esses intricados e perturbadores mecanismos 
de segredo ou de disfarce, há uma outra e difícil barreira: esse/essa jovem 
precisa se reconhecer como homossexual e, para tanto, tem de ser capaz de 
desvincular gay e lésbica dos significados a que aprendeu a associá-los. Como se 
reconhecer em algo que se aprendeu a rejeitar e desprezar? Como, estando 
imersos nesses discursos normalizadores, é possível articular sua (homo) 
sexualidade com prazer, como erotismo, com algo que pode ser exercido sem 
culpa? 
 
Entre indiferença, rejeição, gritos, agressões verbais (e às vezes físicas por parte de 
alunos), apelidos, vaias, chacotas; pelos corredores, campo de futebol, cantina, nas salas de aula, 
de professoras/es ou da direção, Safo era um corpo silenciado que fazia muito barulho. Ao saber 
que estaria em meu trabalho de conclusão de curso, inúmeros foram os questionamentos e 
descréditos por parte de meus/ minhas colegas de trabalho, e de alguns/as alunos/as também. 
Mas, a surpresa de Safo ao saber que sua história me interessava, suas lágrimas ao narrar-se, seu 
zelo com a carta que me escrevera, são imagens que fazem minhas lembranças bailarem até hoje. 
Descobrir que ela fazia poesia também causou surpresa em quem tanto a desacreditou. Outras 
identidades passaram a compor aquele corpo outrora apenas emoldurado por sua preferência 
sexual, e pelas aproximações com a identidade de gênero masculina. 
Outro ciclo iniciou-se em 2003: no mês de abril terminei minha graduação e em outubro 
fui aprovada na seleção para professora substituta na Universidade Estadual da Paraíba (Campus 
I). Nesta universidade lecionei até o ano de 2009, e tive experiências pessoais e profissionais 
inesquecíveis, incríveis! Ao assumir as disciplinas de Prática Pedagógica I, II e III, intensifiquei as 
discussões sobre o currículo de História, gênero e sexualidades estimulada pela assertiva de uma 
querida aluna: \u201cEu não sei como lidar com o rapaz, professora, porque ele é tímido, não fala com 
ninguém da sala, e todos riem dele porque ele tem jeito de mulher\u201d. Além das discussões nas 
aulas, orientei/ avaliei várias monografias e artigos acadêmicos com esses recortes temáticos, 
tentando estimular a discussão sobre a desnaturalização das relações com os corpos e as 
sexualidades. 
E na sala de aula, foram várias as falas e silenciamentos de tantos corpos que se 
pulverizavam quando se iniciava a discussão sobre sexualidades. Para tanto, e daí meu espanto, 
mesmo falando para pessoas adultas, num espaço tido como privilegiado para a produção do 
conhecimento \u2018superior\u2019, nas aulas parecia que se falava de um tema inferior, desnecessário, 
estranho, incômodo. Mas, o que estimulava a seguir era a reação também contraditória de 
curiosidade, atração, de inquietude, de sedução que entrecortava as falas e as posturas em alguns 
vários momentos. Como afirmo em outro artigo onde analiso mais detidamente essa experiência: 
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O rubor que corava as faces pelo espanto de uma aula que trouxesse para nosso 
banquete tais temas, se intensificava ainda mais quando a coragem permitia 
comentários, questionamentos, acréscimos, dúvidas, e experiências 
compartilhadas. O que contrariava as falácias (em nada teóricas ou acadêmicas) 
dos corredores, das reuniões de curso (VIEIRA, 2009, p. 8). 
 
Sugerir aos alunas/os que eles/as tem corpos, e que estes lhes pertenciam, portanto nada 
os/as impedia de percebê-los, agenciá-los; possibilitar que os/as alunos/as se vissem enquanto 
sujeitos históricos, e que não nasceram já se pensando como meninas ou meninos e nem 
continuaram se pensando sempre do mesmo jeito, foram algumas movimentações que não me 
faria passar despercebida como professora. Eu não respondia aos códigos da academia, o que eu 
estava propondo e fazendo não tinha status científico/ pedagógico/ histórico, porque na 
academia não havia espaço para \u201cessas coisas de intimidade, de safadeza\u201d; a professora não tinha 
mais o que fazer, já que \u201cao invés de ensinar os meninos a dar aula, vai falar disso, dessas coisas 
de sexo, de sexo dos anjos!\u201d. 
Com desalento, tristeza e espanto, destaco que esses comentários permanecem circulando 
em vários lugares do saber formal, motivados pelo desconhecimento, pelas regras morais, pelos 
critérios religiosos, pelo preconceito. E continuam equivocados! Afinal, pergunto: há uma 
fórmula/ receita de como dar aula? Docentes e discentes chegam às salas de aula, aos 
laboratórios, aos acervos, às escolas, sem seus corpos, sem seus desejos, sem seus sentimentos, 
sem seus hormônios, sem seus sonhos? As aulas de História, ou de qualquer outra disciplina, seja 
na escola básica ou na academia, são imunes às identidades de gênero, às práticas da sexualidade, 
à existência dos desejos? Como chegam e como saem os corpos dos espaços escolares hoje, 
mudou tanto assim de quando iniciei minha prática docente? 
Não é possível negar os ganhos conseguidos pelos movimentos sociais feminista e LGBT 
(Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) nas últimas décadas. Em muitos setores 
sociais (medicina, justiça, educação, mercado de trabalho, etc) já se pode observar conquistas 
quanto aos direitos civis dos segmentos que tais movimentos representam. Entretanto, também é 
possível observar em várias plataformas de comunicação as inúmeras performances (escritas, 
faladas, encenadas, cantadas, pintadas, gesticuladas etc) ocorridas em distintos espaços, nos quais 
bailam o atentado às liberdades individuais, ao direito de expressar-se, ao direito de usos pessoais 
do próprio corpo, ao pensamento que defende direitos humanos e igualdade de direitos civis a 
todas as pessoas. Decerto vivemos uma crescente onda de conservadorismo que também se 
direciona à escola. 
 
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4. É POSSÍVEL HAVER ESPERANÇAS SOB O SOL? 
 
Por continuar sendo esse espaço privilegiado à formação de mentes e corpos \u2018civilizados\u2019, 
a escola é o espaço para onde se voltam olhares e ações de vários representantes dos dispositivos 
de controle. Se anteriormente eu falei do quanto a escola continua devedora do modelo 
panóptico, não posso me refutar de destacar que ela continua gaguejando e tropeçando porque 
não ouve nem vê as demandas da contemporaneidade, porque sua linguagem não encontra eco 
nos anseios dos corpos que ultrapassam seus muros; sejam para dentro ou para fora de suas 
margens, os corpos não são mais tão dóceis, disciplinados. Como sugere Deleuze (1992, p. 219): 
 
[...] as disciplinas, por sua vez, também conheceriam