Interfaces de Gêneros e dos Sujeitos
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Interfaces de Gêneros e dos Sujeitos


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a ocupação da 12ª DIRED, destacam que inicialmente pensaram em ocupar 
a Reitoria da universidade, porém devido aos limites a ideia foi abortada. Isso por que no 
entendimento de alguns membros, historicamente os Governos do Estado não priorizavam o 
orçamento da UERN, e, portanto, não se tratava de uma ação administrativa da UERN e nesse 
caso, não adiantava criar esse conflito com a Reitoria. Discutiam um meio de atingir o Governo 
do Estado e a proposta foi levada para uma assembleia do segmento. Assim, em uma reunião 
coberta de tensão, em uma votação, os estudantes resolveram ocupar a 12ª DIRED. As reuniões 
seguintes foram para traçar estratégias de ocupação. Primeiramente, alguns estudantes foram ao 
prédio para fazer um reconhecimento prévio, saber se dispunha de segurança, banheiros, cozinha. 
O COMEM organiza o seu primeiro ato, no dia 17 de junho de 2011 no final da tarde, 
saindo pelas ruas e seguindo em direção ao prédio, chegaram mais ou menos em um grupo de 30 
pessoas. Chegando ao prédio, realizaram a primeira reunião, de muitas que foram realizadas todos 
os dias. No dia 18 de junho, pela manhã, os estudantes realizaram uma coletiva de imprensa para 
explicar à população os motivos da ocupação. 
Em pouco tempo o COMEM já contava com professores de ensino superior, médio e 
fundamental da cidade, alunos de todos os sistemas educacionais e pessoas civis que 
simpatizaram com o movimento. A intenção era chamar a atenção da população para a educação 
em Mossoró e o descaso público com a UERN. As primeiras reuniões eram feitas em frente ao 
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Teatro Dix-Huit Rosado e depois em frente à Catedral de Santa Luzia. Em um dia os jovens 
debatiam as pautas e estratégias de ações e no outro colocavam as ações em prática, e assim 
começou o COMEM. 
 
Num período caracterizado pela existência, no Rio Grande do Norte, de um 
governo autoritário, intransigente e ancorado em ideários neoliberais 
responsáveis, direta ou indiretamente, pelo sucateamento do ensino público, o 
COMEM surge para reafirmar a luta por um projeto de universidade baseada 
em uma educação pública, gratuita, laica, popular e de qualidade, na qual os (as) 
estudantes pudessem ter os subsídios necessários para garantir sua formação 
profissional (TRINDADE, 2011, p. 3). 
 
O COMEM se caracterizava como movimento unilateral e apartidário, onde não existia 
um líder ou um centro que imanasse deliberações, pois os estudantes estavam divididos em 
equipes de infraestrutura, cultura e lazer, comunicação e etc. A maioria dos jovens que ocuparam 
a DIRED eram estudantes da UERN e UFERSA e participavam ou integravam os DCEs das 
instituições. Inicialmente, os jovens contaram com o apoio da CUT e da ADUERN. Na foto, 
ilustramos a primeira marcha organizada pelo COMEM, ficou conhecida como Marcha pela 
educação. 
 
Figura 1: Marcha pela educação 
 
Fonte: Blog do COMEM. Disponível 
em:http://3.bp.blogspot.com/9kJRdI6Ggho/Tgnhzc2JMBI/AAAAAAAAAao/DLVmXiMbr9c/s1600/34.JP 
 
Os entrevistados relatam também que eram eles que faziam sua própria alimentação, 
realizavam debates e atividades artísticas e culturais, se mobilizavam nas redes sociais, surgindo 
nesse mesmo período uma articulação com a juventude da capital do estado, Natal, onde o 
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COMEM participou de ocupações e movimentações também, como o \u201cPrimavera sem Rosa\u201d, 
um acampamento montado em frente à Governadoria do Estado, que ocorreu em período 
próximo à primavera árabe, \u201cFora Micarla\u201d, que fazia intervenções em Natal a respeito da má 
gestão pública da prefeita na capital. 
Em Mossoró, o COMEM realizou o \u201cQUEM NÃO PULA QUER ROSALBA\u201d, 
movimento esse motivado pela insatisfação popular e o desrespeito da então governadora 
Rosalba Ciarlini (DEM), onde os estudantes iam para os sinais de trânsito e quando os sinais 
fechavam, começavam a pular. Isso chamou bastante atenção dos mossoroenses que não estavam 
acostumados a presenciar esses atos políticos, conhecidos como escrachos. Logo após, 
organizaram o \u201cFAFÁ VEM ANDAR NO CIRCULAR\u201d, onde convidavam a atual prefeita Fafá 
Rosado (DEM) a andar no ônibus. Simultaneamente, os atos eram acompanhados em tempo real 
pelo facebook, twitter e youtube. Os estudantes deram entrevistas, ocuparam sites, blogs e jornais, 
escreveram poesias, músicas, palavras de ordem. Dentre muitas podemos destacar: 
 
Figura 2:\u201cJuventude quer Revolução, Juventude quer Revolução\u201d. \u201cNão é favor nem caridade eu quero educação de 
qualidade \u201c. 
 
Fonte: Blog do COMEM 
Disponível em: http://3.bp.blogspot.com/-9kJRdI6Ggho/Tgnhzc2JMBI/AAAAAAAAAao/DLVmXiMbr9c/s1600/34.JP 
 
Outro episódio relatado foi uma cerimônia de homenagem a Rosalba Ciarlini, 
governadora do estado. O Ato estava sendo realizado no teatro Municipal Dix Huit Rosado. De 
repente, os estudantes entraram no teatro e começaram a fazer suas intervenções, enquanto a 
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população assistia chocada, sem reagir, pois não estavam entendendo o que se passava. Logo 
após, os estudantes se retiraram de forma pacífica pela entrada principal do teatro. 
Outro evento organizado por eles foi a noite do cal, onde fizeram várias intervenções por 
meio de frases nos asfaltos da cidade. 
 
O Movimento Estudantil da cidade de Mossoró, a partir das mobilizações 
realizadas pelos militantes do COMEM, surge como um marco na ressureição 
do protagonismo político da juventude na cidade e na renovação de seus 
quadros políticos. A atuação política desempenhada pela juventude, frente às 
demandas a ela colocadas, através do processo de tomada de consciência, com a 
percepção da realidade vivenciada e por meio também da organização coletiva 
de sujeitos, denota a importância da ação política dos jovens nas lutas sociais 
(COSTA, 2013, p. 34). 
 
Esse grupo de estudantes emerge com uma ação política organizada, porém, fora dos 
padrões comuns às organizações sociais, pois se mobilizam, mobilizam pessoas, saem às ruas, 
promovem ações coletivas integradas. Traz para o debate um formato novo da ação coletiva, 
criticando as estruturas que estavam impostas, lutando por uma educação pública de qualidade, 
mobilidade urbana, saúde, cultura, etc. Esse novo formato não se configura com delimitações da 
ação, nem de bandeiras de luta. Traz como uma especificidade a ideia da construção permanente 
da ação, onde os caminhos se fazem ao caminhar, onde a participação democrática tem valor 
significativo. 
 
O COMEM registrou um marco importante no que se refere ao \u201cdespertar\u201d 
político do ME e da juventude da cidade. Tal período veio sinalizar também, o 
processo surpreendente de amadurecimento político-organizativo da juventude 
mossoroense ao longo dos anos seguintes, possibilitando, nas universidades, o 
surgimento de novas forças e grupos políticos, e consequentemente a disputa 
por espaços e instâncias políticas. Já em âmbito escolar, houve a criação e o 
fortalecimento de grêmios estudantis e, na cidade como um todo, se torna 
expressiva a expansão de juventudes partidárias, coletivos culturais e o 
afloramento de movimentos reivindicatórios. Grande parte desses instrumentos 
são constituídos e até mesmo dirigidos por jovens que foram membros ativos 
no COMEM (COSTA, 2013, p. 39). 
 
Os organizadores relatam ainda que o grupo também sofreu repressão e momentos de 
muita tensão quando a polícia militar foi autorizada a cortar a água e luz do prédio, afim de que 
os estudantes saíssem. Os estudantes tentaram resistir, ao mesmo tempo que tentavam negociar 
com o governo as suas pautas, mas aos 27 dias a ocupação acabou. Nos últimos dias de 
ocupação, com muita emoção a juventude canta o hino nacional, enquanto a COSERN está 
cortando a energia do prédio. No dia 05 de julho de 2011, o Procurador Geral do Estado do RN 
declara que