Interfaces de Gêneros e dos Sujeitos
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Interfaces de Gêneros e dos Sujeitos


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permite ver que o geist das Ciências Humanas está em um plano abstrato, ou 
seja, não palpável, possuindo caráter apenas especulativo. Há nuances invisíveis e 
incomensuráveis cravejadas nos conceitos trabalhados por diversos estudiosos, os quais tentam se 
aproximar ao máximo de seus objetos, no entanto, não conseguem plenamente seu intento por 
tal razão. 
 Em Sobre verdade e mentira no sentido extra moral5, Nietzsche afirma que o homem, por ser 
possuidor do conhecimento, pensa que o mundo gira ao seu redor e que o filósofo \u2015 por ser 
orgulhoso \u2015 pensa que consegue ver o universo por todos os ângulos. Tal afirmativa reflete o 
pensamento epistemológico, o qual pretende conhecer todas as infinitas nuances das Ciências 
Humanas, sem visualizar suas próprias barreiras científicas perante o conhecimento. 
 A pretensão da Epistemologia é o reflexo da pretensão humana em alcançar a \u201cVerdade\u201d. 
Segundo Nietzsche, ela nada mais seria do que a descoberta de uma designação uniformemente 
válida e obrigatória das coisas. Para ele, há um caráter desesperador de se chegar à Verdade das 
ciências. O homem \u2015 no intuito de sobreviver e existir em sociedade \u2015 possui como impulso 
descobri-la, para que possa realizar a sua necessidade de velar um acordo de paz entre seus pares. 
 
3 Possui graduação em Direito pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (2014); mestranda do 
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas \u2013 UERN. Técnica Administrativa no Departamento de 
História-UERN, e nos grupos de pesquisas: Epistemologia e Ciências Humanas; e História do Nordeste: sociedade e 
cultura. E-mail: aryannequeiroz84@gmail.com 
4
 Estudante do curso de licenciatura em Filosofia da UERN, vinculado ao Grupo de Estudos Culturais \u2013 GRUESC; 
ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros \u2013 NEAB; e ao grupo de pesquisa Epistemologia e Ciências Humanas. E-mail: 
sullivamml@gmail.com 
5 NIETZSCHE, Friedrich Wilheln. Sobre Verdade e Mentira no sentido extra moral. Org. e Trad.: Fernando de 
Moraes Barros. São Paulo: Hedras, 2007. Pág. 25. 
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Enquanto não houver uma Verdade se sobrepondo às verdades individuais dos seres humanos, 
essa paz não será implantada, devido ao egocentrismo exacerbado da Humanidade. Esse 
egocentrismo, intrínseco ao Homem, acaba prejudicando o sentido de Verdade, posto que essa 
seja interpretada da maneira que o convém, agradando e servindo às suas vontades interiores. 
 Portanto, em razão de tal fato, Nietzsche questiona: 
 
O que é, pois, a verdade? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, 
antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram 
enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo 
uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são 
ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tomaram gastas e 
sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em 
consideração como metal, não mais como moedas.6 
 
 Verifica-se, portanto, que para o filósofo, a Verdade nada mais é que um conjunto de 
construções que advém da vida do rebanho e da linguagem que lhe corresponde. Há uma 
diversidade de relações humanas que se misturam e transpõem suas verdades ao campo das 
ciências. Essas tratam de modelá-las ao seu bel prazer, introjetando ilusões \u2015 cobertas com um 
invisível disfarce de veracidade \u2015 para se enganar e enganar a Humanidade. 
 Através do questionamento acima, percebe-se que cada ciência possui sua verdade 
construída socialmente, as quais contribuem para ludibriar as pessoas que creem nelas. A partir 
desse delírio, criam-se expectativas que nem sempre são alcançadas, devido às limitações 
conceituais que elas possuem e da dicotomia implantada, criando uma separação de dois mundos, 
passando a existir uma ideia de Verdade versus Mentira. A partir dessa separação, originam-se 
outras dicotomias, tais como bem versus mal, indivíduo versus sociedade, corpo versus alma, sujeito 
versus objeto, civilização versus barbárie, loucura versus sanidade, normalidade versus anormalidade, 
entre outros. 
 Nietzsche sugere que não olhemos o mundo somente pelo ângulo da Ciência. Ele critica, 
aduzindo que 
 
Se a ciência produz cada vez menos alegrias em si mesma e gera cada vez mais 
alegria colocando sobre suspeita os confortos da metafísica, da religião e da 
arte, então a maior fonte de prazer a qual a humanidade deve quase toda sua 
qualidade humana fica empobrecida. Uma cultura elevada, portanto, deve dar 
ao homem um cérebro duplo, duas câmaras cerebrais por assim dizer, uma para 
experimentar a ciência e outra para experimentar a não ciência.7 
 
 
6 Idem. 
7NIETZSCHE, Friedrich Wilheln. O Nascimento da tragédia. Disponível em: <http://www.verlaine.pro.br/> 
Acesso em 23.08.2015. 
 27 
 
 O filósofo não coaduna com o pensamento de que a Ciência é a detentora absoluta da 
Verdade. Ele alerta que o homem precisa experimentar outras verdades para criar a sua própria, 
não devendo resignar-se com aquilo que é ditado como certo e incontroverso pelas teorias 
científicas. Estas separam dicotomicamente as experiências e os fenômenos - como autênticos ou 
falsos - e asseguram para si tudo que se relaciona com a veracidade dogmatizada. 
 Por haver essa diversidade de dicotomias advindas da noção de Verdade, as ciências 
passam a lidar com conceitos, muitas vezes em separado, não conseguindo concatená-los em 
plena harmonia. Podemos, então, a partir daqui, analisar algumas concepções teóricas trabalhadas 
racionalmente por Norbert Elias e Michel Foucault, que contribuem à compreensão das relações 
humanas, apesar da relatividade e da limitação dos saberes. 
 Analisar-se-á a questão da Verdade e do poder que transpassa nos conceitos trabalhados 
por Norbert Elias e Michel Foucault, quais sejam: estabelecidos versus outsiders; e sujeito versus 
relações de poder, respectivamente. Os referidos pensadores exploram a temática do poder, 
observando o seu caráter sociológico, filosófico e histórico, o qual reflete sobre a sociedade 
ocidental na Modernidade. Importante salientar que eles forneceram outros caminhos para fugir 
das correntes clássicas de pensamento, as quais miravam as relações de poder como algo que 
afeta verticalmente a sociedade. 
 
2. PONDERAÇÕES ACERCA DA NOÇÃO DE VERDADE E DE PODER 
 
 Predomina ainda, na sociedade moderna ocidental, a ideia de que existe um poder 
normativo estabelecido como Verdade nas Ciências e que tudo aquilo que não coaduna com ele 
deverá ser renegado, colocado em último plano de análise, ou quem sabe, extirpado. 
 As teorias científicas modernas foram criadas no intuito de concentrar os olhares da 
espécie humana em um modelo de pensar acerca da sociedade e dos fenômenos que nela 
ocorrem. Esse modelo originário fora prescrito como verídico, no intuito de materializar 
pensamentos e gerir as ações dos indivíduos. 
 Gustavo Camargo, ao escrever sobre o conceito de Verdade em Nietzsche, elabora seu 
pensamento, discorrendo que 
 
Se a verdade é criada, então ela é uma espécie de erro. Uma verdade é apenas 
um erro mais aceito pela moral, talvez por ser um erro necessário. Vemos que, 
mesmo criticando a abordagem metafísica, é preciso enganar-se sobre a 
existência da verdade, é preciso acreditar na verdade, valorizá-la, pois este 
engano talvez seja necessário para a existência de uma espécie como a nossa. É 
impossível viver sem representações valorativas e lógicas, neste sentido, a 
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vontade de verdade, isto é, a busca e valorização da verdade acima da ilusão, 
seria uma forma de autopreservação e possuiria uma função reguladora.8 
 
 Portanto, o que